segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

[OSCAR 2016] The Revenant (ou quando o cinema aprendeu com os videogames como ter sucesso)

Assassin's Creed empilha a impressionante marca de 22 jogos lançados em apenas 7 anos, a grossa maioria deles (se não todos) sendo um sucesso comercial de satisfatório a impressionante. Em outras palavras, uma média de 4 novos Assassin's Creed são lançados todos os anos, isso se desconsiderarmos os livros (7 livros foram lançados em 6 anos).

Você pode estar se perguntando como diabos estes jogos são feitos, afinal não existe novas formas de jogar ou narrativa que comporte 4 jogos por ano. E de fato não há, seria humanamente impossível. Não é jogo ou a história que mantém a série bem lubrificada de dinheiro.

São os gráficos. Apenas isso. As cidades dos jogos são cada vez maiores e mais fotorrealistas e isso é tudo que importa para os gamers, apenas isso. A história pode ser medonha, a jogabilidade ser a mesma coisa que você já gastou 40 horas jogando pelo menos 20 vezes, nada disso importa. O que importa é ser bonito.

Isso não é exclusividade de Assassin's Creed, claro. Fallout 4 é um dos jogos mais vendidos de todos os tempos (e certamente o mais vendido de 2015) que falha miseravelmente em tudo que se propõe a fazer, exceto ser bonito. E ser bonito é suficiente.

Afinal videojogos são feitos para pessoas com orçamento de adultos mas mentalidade de adolescentes, a combinação que qualquer produtor de conteúdo sempre sonhou: muita grana para torrar e nível de exigência baixíssimos, quando não inexistentes.

Essa sempre foi a verdade dos videogames, isso não é novidade.
A novidade é que agora parece que Hollywood descobriu essa mamata.

Hoje falarei sobre o (infelizmente) provável ganhador do Oscar de 2016: The Revenant (O Regresso).
O FILME MAIS BONITO DESDE SENHOR DOS ANÉIS

A melhor coisa que pode ser dita a respeito de The Revanant é quanto o filme é bonito. Tipo, visualmente mesmo, é espetacular. A cinematografia de Emmanuel Lubezki é impressionante e será realmente um crime se ele não empilhar seu terceiro carequinha dourado (ganhou em 2014 por Gravidade e em 2015 por Birdman, e se você viu qualquer um desses dois filmes sabe que ele mereceu e muito).

Eu não posso estressar o quanto esse filme é bonito: as paisagens geladas do norte do Canadá onde o filme se passa são a coisa mais belas de se ver desde os campos da Nova Zelândia em Senhor dos Anéis. É realmente impressionante.

Adicione a isso que o diretor Alejandro González Iñárritu (que já embolsou três estatuetas merecidas por Birdman em 2015) filmou o filme todo em locações reais com luz natural, ou seja, não há tomadas de estúdio e a equipe tinha aproximadamente 90 minutos por dia para gravar em um ambiente cuja temperatura média girava em torno de zero graus.

Tudo muito impressionante e muito difícil de fazer, está bastante claro que a equipe não poupou esforços para fazer o filme mais visceral e impressionante possível. Exceto um. Esqueceram de colocar um filme no meio dessa superprodução toda.

Não que muitas pessoas vão reparar e não que isso vá lhe tirar o Oscar, mas Revenant faz muitas coisas bem. Faz algumas coisas de forma impressionante até. Infelizmente, ser um bom filme não é nenhuma delas.

O FILME EM QUE LEONARDO DICAPRIO FOI ESTUPRADO POR UM URSO

Se colocar no papel, The Revanant tinha tudo para ser um filme incrível. Tipo realmente incrível. Por improvável que pareça, The Revanant é baseado na história real de Hugh Glass em 1820 e posteriormente romanceada em livro. Glass era o ranger de um grupo de caçadores de pele até que a vida decidiu virar para ele e dizer "BECAUSE FUCK YOU!" e tudo que poderia dar errado para ele deu errado. Tipo uma versão século 19 de Gravidade.

O filme começa bastante interessante mostrando a ruim que os caçadores estão levando da natureza na puta que pariu do norte do Canadá. E por natureza entenda frio pra caralho e índios. Mas não só isso, o filho de Glass é um mestiço meio-americano meio-indígena e os homens brancos do grupo (ou seja, todo mundo) tratava o filho dele como um pedaço de lixo sub-humano.

Star Wars VII me deixou um gosto muito ruim na boca e agora toda vez que eu vejo um personagem não-homem-branco tendo destaque na tela eu defensivamente espero o pior, e por pior entenda mandar a essência do filme a pqp afim de fazer uma propaganda SWJ e ganhar muitos likes no Facebook.

- Agora eu ganho o Oscar por interpretar
um cara chamado VIDRÃO!
- Leo, acho que é Hugh Glass, não Huge Glass
- Doh!
Então eles estão lá, aquele bando de caras se fodendo pra caralho e tal, quando Glass é atacado por um urso numa das cenas mais viscerais e impactantes desse ano no cinema. De longe a melhor cena do filme, o negócio é tenso e pesado ao ponto que realmente rolou na internet uma ideia de que a cena realmente teria sido sobre ele ter sido estuprado por um urso.

Embora visualmente de para fazer essa piada, qualquer um que viu a cena deveria saber que não foi isso que aconteceu. Claro, por "qualque um" eu ignoro que o publico de cinema acha que Interestelar é um filme profundo e complexo e que Leonardo DiCaprio merece um Oscar pela atuação nesse filme (mas eu já chego lá), o que prova o quão otimista eu sou sobre a raça humana.

Essa primeira meia hora de filme não é tão ruim, na verdade. O que é realmente ruim são as outras duas horas que se seguem após isso: basicamente é sobre Leonardo DiCaprio fodidão depois de apanhar do urso gemendo, rastejando e babando. Aí então ele magicamente se cura, se fode muito mais e na ultima meia hora de filme decide que quer se vingar do cara que matou o filho dele por puro racismo.

Sem mentira, se você assistiu "O Prologo do Céu", então já assistiu The Revenant. Sabe aquele filme que o Seiya fica uma hora e meia se arrastando e balbuciando Saori em um estado semi-vegetativo para no final se curar magicamente e sair na porrada? Pois é, é exatamente a mesma coisa aqui só que levando o dobro do tempo.

A menos que você tenha um fetiche muito grande por duas horas de Leonardo DiCaprio encarando, gemendo em código morse e rastejando, não tem muito mais o que ver nesse filme. Dizem que é um filme sobre vingança, mas isso só é mencionado pela primeira vez na ultima meia hora de filme - aquela em que se cura magicamente, adquire invencibilidade e sai em busca de sangue, morte e vingança.

Ah, e eu não estou zoando: Hugh Glass deve ser um tipo de Sayajin porque após quase morrer para o urso ele renasce (daí o Revenant do título) mais forte e indestrutível. Indestrutível tipo a cena em que ele cai de um penhasco com um cavalo e o cavalo se espatifa como um monstro em um jogo de PS2. Glass? Nem um único arranhão.

O filme é abatolhado de inverossimilhanças e se divide em momentos em que nada acontece (e você se pergunta qual é o proposito desse filme) e momentos em que alguma coisa acontece (e você se pergunta qual é o proposito desse filme). Eu realmente duvido que alguém tenha lido esse roteiro porque poucas coisas nele se conectam com as outras.

Em uma aula de "toquei o foda-se para tudo mesmo",
Glass e seu amigo índio comem fígado de bisão cru... a menos
de dois passos de TRES FOGUEIRAS MAIORES DO QUE
ELES! PQ? PQ É A ARTE!
Existem pelo menos meia dúzia de subtramas no filme que são introduzidas e abandonadas tão logo quanto surgem porque claramente você pode sentir o diretor dizendo "Eu sou um gênio! Genio! Não preciso me explicar! Arrumem uma interpretação para vocês, mortais tolos!"

Tem alguma coisa sobre uma princesa índia sequestrada que se resolve sozinha, os franceses que foram sacaneados (e dizimados) pelo Glass mas nunca mais se toca no assunto assim que ele volta para a civilização (eu realmente esperei que ele fosse ter que responder pela morte de mais de uma dúzia de homens brancos assim que ele ficou cara a cara com o sobrevivente na cidade, mas obviamente eu me preocupei mais com o roteiro desse filme do que os produtores), alguma coisa sobre o garoto que deixou ele para trás contra sua vontade e mais outro punhado de pequenas ideias que nunca são desenvolvidas ou vão dar em alguma coisa.

JOSEPH CLIMBERT, O FILME

Eu entendo que a ideia do filme era fazer um drama de superação humana contra os limites do impossível. De fato quando você vê Glass depois que o urso acaba com ele fica difícil imaginar que ele vá sequer andar novamente, quanto mais fazer piruetas e lutar contra um homem sadio e bem alimentado.

O problema é que isso foi feito da forma errada e o sofrimento de Glass é puramente físico, não há nenhuma conexão emocional. E isso não é interessante de se assistir, é só torture porn que pode até ser engraçado depois de certo nível de exagero só para ver o quanto mais ele ainda vai se foder fisicamente.

Em outras palavras, Hugh Glass não é nada senão Joseph Climbert interpretado por um ator tão talentoso quanto mal aproveitado. Claro que comer fígado de bisão e se esconder dentro do corpo de um cavalo morto são coisas impressionantes, mas se não há respaldo emocional algum é algo mais divertido pela bizarrice do que dramaticamente pesado.

Taí, uma hora de meia de vídeo cassetadas. Não só satisfaz todos seus fetiches de
ver alguém se fodendo como é narrado pelo Faustão e tem uma hora a menos que
O Regresso, apenas vitória.

Me permita ilustrar com duas versões sobre uma mesma história: A Ultima Tentação de Cristo e A Paixão de Cristo. No primeiro temos o sofrimento emocional do personagem como tema principal. Sim, claro, ter sido pregado na cruz não foi o ponto favorito da vida dele, mas a dor emocional é tão profunda quanto ao focar sobre as coisas que ele abriu mão para chegar naquele ponto, é uma jornada de perda e dor com a qual eu posso me relacionar.

Já a Paixão de Cristo é sobre um caboclo levando sarrafo duas horas. Ele é tão arte quanto Jackass é arte ou Jogos Mortais é arte - não muita coisa. É apenas torture porn. Se você acha que "O Albergue" é um grande filme ou que Tomb Raider é mais profundo do que uma sequencia de videocassetadas da Lara Croft, certamente vai achar The Revanant um grande filme.

Para os demais, não é algo realmente impressionante. Infelizmente The Revanant se esforça muito em ser "A Paixão de Cristo" e absolutamente nada em ser a "A Ultima Tentação de Cristo". A menos que você fale rosnadês, vai ver que tem uma grande interpretação nos gemidos maníacos do Leonardo DiCaprio que eu não entendi...

NÃO DEEM UM OSCAR PARA ESSE MENINO

O filme tem material para uma hora de duração, mas é arrastado por quase três. Isso poderia funcionar (embora improvável mesmo assim) se Hugh Glass fosse um personagem marcante que carregasse o filme nas costas. O problema é que Glass não é esse tipo de personagem, por mais esforçados que os grunhidos do Leo DiCaprio sejam.

Hugh Glass é um daqueles caras durões de velho oeste que fala pouco e são machos até debaixo dágua, e é isso que fode o filme. Espera, o que? Como assim? Eu bebi etanol podre? Como pode o protagonista do filme ser um John Marston a lá Clint Eastwood ser uma coisa ruim? To desmunhecando de vez, é?

Bem, imagine o seguinte: imagine um filme de faroeste com aqueles caras durões e personalidade de uma tabua mal pregada. Agora que imagine que ao invés de fazer coisas fodas, matar pessoas, chutar portas e serem fodões, o filme fosse sobre esse tipo de cara rolando e gemendo por duas horas. Rolando muito durão e gemendo como macho, mas ainda sim, sobre isso. Não parece tão incrível agora, não é?



Pois é, realmente dá para sentir o quanto Leonardo DiCaprio se esforçou nesse filme. Filmando a zero graus, se fodendo sem usar dubles e tendo 3/4 das falas em um idioma que ele não conhece, realmente tudo isso é muito impressionante como trivia, mas não faz automaticamente disso uma boa atuação. Eu não me importo com o quão difícil foi fazer se o resultado final não foi bom, e não foi.


Certo, vamos dar o Oscar para aquele cara que entrou no
bicho para não morrer congelado... alguém tem o telefone
do Mark Hammil?
O FILME QUE FOI ARRUINADO POR BIRDMAN

Alejandro González Iñárritu é o diretor mais quente da atualidade e qualquer coisa que ele pedir para o estúdio terá, e foi justamente isso que estragou esse filme. Se ele fosse um diretor menos prestigiado o estúdio certamente teria colocado algumas demandas para este filme. Ter menos que duas horas, ter algum conflito, acontecer alguma coisa, qualquer uma dessas coisas teria tornado The Revenant uma experiência cinematográfica infinitamente melhor.


Um filme sem objetivo, sem proposito (em que nada acontece e quando acontece é estranho e desconexo com o resto), de atuações medonhas (entre Leonardo DiCaprio primal e o Tom Hardy "sou branco e racista, hurr durr, é tudo que eu sou e tudo que sempre serei!" não sei qual é pior) e com pelo menos uma hora a mais do que deveria ter, The Revenant é o típico filme chato que dá má fama aos ganhadores do Oscar (e o clichê de que filmes premiados são filmes chatos em geral).

E aí o primeiro filme que deixam o Tom Hardy
sem algum tipo de mordaça ele é um racista babaca
sem profundidade alguma. Aí fica difícil te defende, amigo.
Porque não tenha nenhuma duvida que ele vai ganhar, nenhuma mesmo. Por dois motivos:

A) O filme é visualmente lindo, e essa é uma lição que Hollywood aprendeu muito bem com os videogames: gráficos são tudo, conteúdo não é nada.

B) O filme é politicamente correto. Ó mel dews! Terríveis e malvadões capitalistas oprimindo pobres indiozinhos gentis e indefesos? Oh não, isso é um trabalho para os Defensores da Justiça Social na internet. Claro que se você for prestar atenção vai ver que os índios são na verdade tão ruins quanto os homens brancos porque "índios" não existe e sim diversas tribos com suas próprias agendas... mas quem tem tempo para prestar atenção quando você tem a chance de achincalhar o patriarcado branco quicando na sua frente, não é?

Honestly, who gives a shit? This is all very interesting from a trivia point of view, and I would love to see a documentary about the making of this movie (apparently Iñárritu's desire to shoot with purely natural light meant that some days they could only shoot for 90 minutes, which is a totally fucking insane way to make a movie) but the constant harping on how hard it was to make The Revenant has really overshadowed the movie that is The Revenant. Is there even a movie here, or is the film just the byproduct of a particularly masochistic film crew spending some time in the woods? 


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