quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

One Punch Man (ou Saitama não é o herói que merecemos, mas é o que precisamos neste momento)

E se eu te dissesse que existe um anime feito não para otakus sebentos que compram almofadas de waifu (eu saber o que é waifu compromete muito da minha credibilidade, estou ciente disso) mas sim para nerds comuns?

Sabe, gente como eu e você que não entende o que tem de tão divertido ao ver uma colegial miando em um relacionamento implausivelmente infantilizado (baka!), mas gosta de filmes de super-heróis e apreciaria uma comédia muito bem construída zoando o universo Marvel e os clichês dos animes de luta que crescemos assistindo.

Este é um anime feito para gente como a gente, estas são as desventuras do HOMEM DE UM SOCO SÓ!

Bem vindos a cidade Z. Sim, as cidades não tem nome porque como em qualquer história de herói que se preze ela não tem importancia nenhuma e está ali apenas para ser destruída mesmo. A cidade Z e todas as outras cidades (da Cidade A até a própria cidade Z) são infestadas com toda sorte de monstros, mutantes, psicopatas tecnologicos e vilões de todas as estirpes ao ponto que é dificil imaginar como as pessoas ainda tem vidas normais e corriqueiras em um lugar desses.
Normalmente assistindo as séries e filmes de heróis eu costumo me perguntar isso: quem é que ainda deixa o carro estacionados na rua em uma cidade dessas? Como um lugar desses ainda tem uma economia? Como as pessoas vão trabalhar sem se importar que dia sim, dia não prédios fossem varridos do mapa?

A cidade Z não é nada diferente de Central City, Metropolis ou a Nova York da Marvel. Mas felizmente nem só de horrores vivem as cidades alfabéticas pois em cada esquina despencam baldes de heróis prontos a salvar o dia. Talvez não os mais qualificados e certamente não os mais treinados, mas bem, boa intenção é o que realmente conta, certo?


Ou talvez não. Eu definitivamente não invejo as cidades de super-heróis...

Seja como for, neste cenário heroico e dramático surge um cara que é herói apenas por hobby: Saitama. Como todo super-herói, Saitama tem um grande poder e uma fraquza/dilema moral. Seu grande poder é que ele destrói qualquer inimigo com apenas um soco (você jamais adivinharia isso pelo título do anime), e seu maior problema é que... sua vida heróica é extremamente frustrante por conta disso.

Quer dizer, que graça tem em ser um herói se você vence antes mesmo que perceba o que está fazendo? Com efeito, o maior sonho de Saitama é encontrar um adversário que realmente o desafie.

Ganhar poderes devido a uma série de exercícios
básicos pode não parecer muito sério, mas como
se ganhar poderes por causa da "radiação do Sol"
fosse muito melhor
POWER GET THE POWER

Como dá para ver apenas pela sinopse, o anime é uma grande paródia a todo o genero de super-heróis e as consequentes viadagens que os nerds tem com isso. Quantas vezes você já ouviu coisas do tipo "Hurr durr, goku é mais forte que o Super-Homem" ou vice-versa?

One Punch Man tem uma resposta bem simples a esse fetiche estúpido dos nerds de querer que o seu herói favorito seja o mais fodão do universo e de todos os universos:


Pronto. Taí. Ele é tão foda que vence todas as lutas com apenas um soco. Não era o que vocês queriam? Já estão se sentindo entretidos? JÁ ESTÃO ENTRETIDOS? VOCÊS JÁ ESTÃO ENTRETIDOS?

Que bom, porque é EXATAMENTE o que vocês pediram.

OPM faz muitas coisas certas com suas paródias e uma delas é mostrar aos nerds o que aconteceria se todos os seus sonhos molhados de masculinidade se tornassem realidade, teriamos um herói que faz essa cara enquanto o vilão dá seu discurso épico e explica como apenas com 5% de um estalar de dedos poderia explodir a Terra:



Esse é o nível de seriedade com a qual estamos lidando aqui, e é um dos segredos que fazem o anime funcionar. OPM poderia ser apenas mais um anime entre tantos sobre caras tentando mostrar um ao outro quem é o mais machão entre os machões, quem é o mais fodão entre os fodões e coisas assim que são muito importantes para adolescentes imaturos.

Mas ao invés disso o anime não só percebe o quanto tudo isso é ridículo como abraça essa ridiculosidade com resultados hilários. Só que ao invés de fazer uma comédia fácil e escrachada de paródia preguiçosa tipo "Todo Mundo em Panico", OPM debocha dessa ridiculisse levando ela na piada com um falso ar de seriedade. Tanto que o golpe especial finalizador (que Saitama precisa usar apenas uma vez na série inteira) é a "Sequencia de Socos Sérios". Se você não entendeu a piada até aqui, não tem muito que eu possa fazer para ajuda-lo.

É um tipo de humor muito dificil de se fazer e muito raro de se encontrar, e de todos os lugares eu não esperaria ve-lo justamente em um anime. No entanto, aqui estamos.

UM HOMEM QUE É HERÓI APENAS POR HOBBY

Saitama é de longe a coisa mais interessante do anime justamente pelo quanto ele parece pouco com um personagem de anime. O careca de um soco só tem uma composição bastante única e parece muito mais ter saído do filme "Napoleão Dinamite" do que de Dragon Ball Z. É um homem comum com preocupações comuns (aproveitar a liquidação no super-mercado, cuidar do seu cactus) e super de boas que contrasta com toda aura de seriedade do universo contruído no anime.

Porque se você já ouviu um nerd falando sobre suas paixões, sabe que heróis (e sci-fi em geral) são sempre coisas muito, muito, muito sérias, complexas, profundas, maduras e dark. Tipo como o universo Marvel é plausível ou como Star Wars é uma série de filmes muito sérios e adultos.

Falando em universo construído, para o protagonista da série Saitama aparece relativamente pouco nos episódios - até porque ele é tão foda que não teria muito o que mostrar se ele fosse um protagonista tipico. Quando eu vi o conceito da série a primeira coisa que me ocorreu foi imaginar que realmente seria muito dificil fazer um anime de lutas interessantes se o herói vence tudo com um golpe só, como eles conseguiriam fazer isso?

Saitama aparecer pouco é a resposta disso e a grande sacada do anime. Em primeiro lugar porque destaca sua personalidade super de boas sem desgasta-la, mas principalmente porque dá tempo para o anime construir uma aura de seriedade (como sempre fazem os animes de luta) ao ponto que você quase esquece que está assistindo uma comédia. Então depois de um tempo construindo um cenário épico, catastrófico e dramático Saitama chega com seu deboísmo avançado o resultado é matador (em todos os sentidos).

PARÓDIAS EVERYWHERE

Quando não está mostrando Saitama roubando a cena com seu maneirismo único, o anime te diverte zoando clichés de animes de luta que você não esperaria verem zoados. Alguns são escolhas obvias como o discurso dramático do herói para tirar poder do olho do cu e salvar o dia, ou a transformação mágica a lá Sailor Moon para um visual mais herótico.





Então sim, temos todas as grandes cenas que você esperaria de um anime de luta (como os heróis menores apanhando como cães para dar tempo do protagonista chegar, ou o sidekick que está ali só para levar uma bifa e mostrar o quanto os vilões são poderosos), mas existe um grande diferencial aqui.

Ao mesmo tempo em que está sendo uma paródia divertida, como eu citei anteriormente, o anime não escorrega na piada fácil e em nenhum momento abertamente escracha ou ridiculariza a coisa toda. Se fosse perguntado, OPM diria que não, que é sim muito sério.

Como resultado desse cuidado na produção, temos personagens legais com os quais conseguimos nos importar. Um dos meus personagens favoritos da série é o Mumen Rider (cuja tradução seria algo como "o Rider não licenciado", uma piscadinha se você entendeu a piada com Kamen Rider) que na verdade só um cara que anda de bicicleta que faz o que pode para ajudar mesmo ciente da sua limitação de que, bem, ele é só um cara que anda de bicicleta.

Tudo começou com o Caranguejante, que se tornou um
homem-carangueijo porque... comeu carangueijo demais...
Em um anime menos inspirado ele seria apenas mais um Yamcha da vida para encher linguiça apanhando, mas aqui ele é feito de uma forma tão honesta e sincera que não tem como não torcer por ele - para que pelo menos ele não morra, que é o melhor que pode se esperar do Ciclista da Justiça afinal. Essa coisa de não abraçar 100%  a galhofa e usar a paródia como material base para fazer personagens interessantes funciona excepcionalmente bem em vários níveis.

Quando o Samurai Atomico está lutando você acha hilário porque... bem, é o Samurai Atomico, é realmente hilário, eu não preciso explicar isso. Mas ao mesmo tempo você sente o orgulho de samurai e uma construção de personagem bastante sólida ali.

One Punch Man faz com piadas o que a maior parte dos animes não consegue fazer mesmo colocando todo seu esforço nisso.

QUANDO O ANIME USA PIADAS PARA FALAR SÉRIO

Saitama é fodão e derrota qualquer inimigo sem esforço. Isso é legal, mas deixa pouco ambito para o desenvolvimento de personagem já que enquanto "procurar alguém forte para me desafiar" pode soar legal na teoria, na prática isso não serve como meta de personagem. Se você pensar no cliché do herói genérico (como Ryu ou o Goku), a única coisa que eles querem da vida é que caia um inimigo fodão do céu para eles lutarem e enquanto isso não acontece eles não tem metas na vida, não existem como seres humanos. E Saitama é definitivamente muito melhor que isso como personagem.

Então o que o careca busca? É aqui onde o anime faz sua crítica social, como cabe as melhores e mais afiadas comédias. E como tudo mais que o anime faz, é muito bem feito. Eis a pegadinha:

Para ser um herói reconhecido e amado pela população, não apenas um maluco de roupa colorida, você tem que se registrar junto a Associação de Heróis. A Associação então faz um teste de admissão que qualifica os heróis em categorias: S, A, B e por último C. Porque todo mundo adora níveis de poder em animes de luta e classes de poder bem definidas, mas segure seus cavalinhos porque não é aqui que está a critica.

Como a Associação de Heróis avalia os heróis? Uma mente mais inocente poderia imaginar que teria algo haver, sei lá, com digamos... ser um bom herói ou não. Devo dizer que sua inocencia muito me surpreende já que ser um bom herói ou não é uma das coisas MENOS importantes aqui. Com efeito Saitama é classificado como rank C, o mais baixo possível.

E o que importa? Ora, aparencia, fazer média, burocracia, bajulação. Fazer o que a organização deveria fazer é apenas detalhe. Agora me diga, parece com algum sistema que você já tenha encontrado na vida?

Se você trabalhou em qualquer grande corporação essa cena lhe deve ser bastante famíliar:


Eu não preciso realmente explicar quem tem o menor salário e o menor respeito nessa estrutura corporativa, preciso?

Mas nem é preciso ir tão longe assim, já que o sistema de ensino é um espelho dessa burrocracia vigente. Via de regra quem tem melhores resultados: o aluno que entendeu o conceito da matéria ou aquele que não apenas decorou como sabe exatamente quais respostas o ego do professor quer ouvir?

Pois é, tanto a carreira corporativa quanto o sistema de ensino valorizam esse sistema alienante que recompensa o metodo muito mais do que o resultado. Eu ainda estou para ver uma grande empresa onde os funcionários da linha meio não se achem infinitamente superiores aqueles pobres peões que estão lá na ponta... fazendo o que a empresa deve fazer em primeiro lugar.

Em One Punch Man há uma pequena biosfera desse tipo na Associação de Heróis em que todo tipo de mesquinharia e pequenes é demonstrado sobre o quanto o METODO é muito mais valorizado do que a finalidade. Muitos heróis menores detestam Saitama porque ele está subindo na "empresa" rápido demais e não é assim que as coisas se fazem por aqui. O fato dele ser efetivamente o herói mais poderoso do mundo é um detalhe irrelevante, o que importa aqui é a burocracia!

E Saitama seria muito mais reconhecido se fosse um herói muito menos competente. Se ele fosse pior no seu trabalho receberia muito mais méritos, conhece algum lugar que  funcione dessa forma?

Como resultado gente super dedicada ao trabalho e criativa tende a ficar no fundo da carreira enquanto os babacas que não fazem a menor ideia do que aquela empresa deveria estar fazendo mas são muito bons em fazer média e socializar com as pessoas certas sobem como foguetes.


Não é só a indústria de videogames que sofre desse mal, em 2015 foi indicado um ministro que afirmou sem nenhuma vergonha que não entendia sobre a pasta que estavam lhe dando.

A parte realmente interessante acontece quando a população abraça o sistema e o defende com unhas e dentes. Se Saitama é um herói classe C, é obvio que ele esta trapaceando para derrotar monstros que ninguem mais conseguiu e não o sistema que esta errado. Questionar figuras de autoridade? Você está louco?

A ginástica mental que as pessoas fazem no anime para adequar os fatos a sua opinião (e não o contrário como deveria ser) parece com qualquer coisa que você já cansou de ver. Em determinado momento, um cara na mesma frase diz que o Saitama esta trapaceando porque a lógica do sistema não permite isso, então diz que o sistema está errado e então volta a condenar Saitama com base no sistema.

Agora abra sua timeline do Facebook sobre qualquer assunto polemico e veja se não tem algo muito parecido com isso lá. O sistema perdeu completamente o foco do seu objetivo e a burocracia se tornou uma finalidade em si mesma, adicione a isso que (quando está tudo bem) as pessoas são covardes e preguiçosas, se acotovelando para ser o primeiro espertão que "já sabia a verdade" tão logo o perigo passa.

One Punch Man atinge um ponto bastante sensível (e corrompido) da nossa sociedade com as suas brincadeiras.


A VERDADEIRA FRAQUEZA DE SAITAMA

Se existe um ponto fraco em OPM é a sua história. Melhor dizendo, a ausencia de uma. O anime na verdade são 4 arcos que escalonam em ameaça e fodonice, mas não tem realmente uma progressão entre si no senso tradicional de história.

Eu senti falta do anime atingir alguma coisa que fosse, seja a luta que Saitama sempre sonhou, seja o reconhecimento como herói, ou até mesmo adotar "One Punch Man" como seu nome de herói. Mas talvez seja melhor assim, o anime funciona em seu melhor devido aos personagens e a comédia, tirar tempo disso para contar uma história complexa seria tirar tempo de algo único para dividir com algo que todo mundo já faz.


Quer dizer, eu já vi centenas de histórias ok e boas, eu não preciso realmente de mais uma. O que eu preciso é de um anime onde eu saiba dizer o nome de quase todos os personagens que apareceram nos doze episódios, eu posso contar nos dedos da mão do Lula os animes que causaram esse efeito em mim.



One Punch Man é uma obra prima, é tão bom que nem parece anime. Não tem ninguém tropeçando e caindo com as mãos sobre os peitos de ninguém, e as cenas de "fan service" são genuinamente engraçadas de tão ridiculas que são. Não engraçado do tipo "agradar otaku punheteiro" mas sim engraçadas do tipo "eu ri de verdade". Como esquecer a menina que não usa calças e o Pretty Pretty Prisioner?

Quando eu lembrar de One Punch Man a primeira imagem que vai me vir a mente não é uma batalha homoerotica de 20 episódios ou um discurso tão piegas que produz um novo tipo de diabetes, mas sim apenas Saitama com sua cara de pastel dizendo "Ok". 

Daqui a 20 anos quando fizerem o remake de One Punch
Man, eu viverei para ver as pessoas criticando porque
não é tão sério, profundo e maduro quanto o original.
Caso duvide que isso vá acontecer, recomendo assistir
Star Wars e depois ler o que as pessoas esperam
dos filmes
Talvez tão importante quanto isso é mostrar que existe sim espaço para animes não direcionados exclusivamente a otakus sebentos, existe toda uma gama enorme de nerds "normais" ai fora querendo animes com os quais possamos nos identificar e o sucesso de One Punch Man talvez seja a melhor parte disso tudo.

Eu nunca imaginei que veria um anime que é o ponto de equilibrio entre os anime shounen e Napoleão Dinamite, mas esse é o tipo de obra-prima que esse anime é.

 Embora eu gostaria de ter conseguido explicar isso em vinte palavras ou menos.

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