sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Doctor Who: Cidade da Morte (ou um roteiro que se regenerou como um livro)

Histórias grandes e complexas são, por sua própria natureza, grandes e arrebatadoras. É meio que isso o que "grande" significa, afinal. E embora nem todos possam escrever sagas épicas que explodem mentes, dado tempo e recursos suficiente acontece de tempos em tempos.

Agora arrasar o pagode usando o mínimo possível é algo reservado aos verdadeiros gênios. Chaplin consegue fazer rir usando pãezinhos e palitos de dente, Paganini arrancava sons humanamente impossíveis de seu violino usando apenas duas ou três cordas (dizem as lendas que até menos) e Douglas Adams consegue ser monstruosamente divertido apenas descrevendo as ruas de Paris.

"A Cidade da Morte" não é a aventura mais complexa, profunda, emocional ou geradora de pensamentos que o Doutor já teve. Bem pelo contrário, é uma até relativamente simples. O segredo aqui é justamente a simplicidadejá que com menos tempo desenvolvendo uma supertrama repleta de reviravoltas, Douglas Adams teve tempo de sobra para fazer o que sabe fazer de melhor: conquistar a todos nós divagando sobre a vida, o universo e tudo mais. E porque os taxis em Paris sempre desaparecem quando farejam no ar que você precisa deles.

Esse livro narra uma aventura do Doutor sobre nada em particular, e é absurdamente deliciosa por conta disso.
"Qualquer coisa é qualquer coisa" - Ron Swanson sobre arte
A HISTÓRIA POR TRÁS DA CRIAÇÃO DO LIVRO É QUASE TÃO BOA QUANTO O PRÓPRIO

O ano era 1979 e Doctor Who era um dos maiores sucessos da BBC apesar da crise estar forçando o governo britânico a cortar gastos (ou seja, absolutamente NADA mudou 37 anos depois). Em um dia de solstício de verão um dos principais redatores da série, David Fisher, escreveu um episódio sobre um conde e uma condessa que manipulavam o tempo para trapacear no jogo e roubar arte - inclusive a lendária Monalisa.

Acontece que os produtores da série gostaram tanto da ideia de Fisher que conseguiram esticar o orçamento do episódio mais do que o roteiro previra e Fisher tinha que reescrever em cima da hora quase todo o episódio para ser uma grande aventura em Paris!

Diante desse problema o editor de roteiros da série (mais ou menos o equivalente ao cargo de Steven Moffat hoje no programa) se sentou com Fisher e reescreveu o episódio em uma maratona recorde. Talvez você já tenha ouvido falar dele, o bom senhor Douglas Adams. O resto é história. Literalmente.

Porque "A Cidade da Morte" foi o episódio de maior audiência de toda história da série: mais de 16 milhões de espectadores quando foi exibido.

Muitos acreditam que aquela temporada de 79/80 é a melhor temporada de todos os 53 anos de Doctor Who (algo ao nível da espetacular temporada de 2015), o que é um argumento bastante convincente quando tempos lado a lado o episódio de maior audiência da história da série (considerado por muitos também o melhor episódio) e o último episódio de Daleks escrito por Terry Nation (criador original dos Daleks que escrevia para a série desde o começo em 1963). Nesta temporada também deveria ser exibido Shada, cujas filmagens nunca foram concluídas mas renderam um excelente livro.

Corta para 2015 e James Goss tem a missão de lançar a novelização do episódio mais popular da série, não difícil o bastante ele sabia que a maioria das pessoas compraria o livro por se tratar de uma história de Douglas Adams. Homens menores teriam sucumbido diante da pressão.

Ele tomou consolo no fato de que, bem, diante do quarto Doutor de Tom Baker todos os homens acabam parecendo homens menores já que o interprete do Senhor do Tempo na época tinha 1,91m de altura.

Seja como for o fato é que James Goss encontrou um ângulo para contar a sua história: ele resolveu cobrir os furos de roteiro do episódio os explicando. No episódio, por exemplo, o conde é um alien usando uma mascara de humano... como sua esposa nunca percebeu isso em momentos mais "íntimos"? Ao invés de apenas descrever o que passou na tela, Goss desenvolve os personagens e a história, se inspirando nos primeiros esboços não utilizados do roteiro, para escrever seu próprio conto com começo, meio e fim.

Não posso dizer que ficou melhor porque ainda não assisti o episódio, mas posso dizer que o resultado final ficou muito bom sim.

Agora me ocorreu que não existe uma boa palavra para traduzir
"holyday" para português. Não é atoa que todo mundo parece
tão estressado por aqui.
VOLTEM NA SEGUNDA, CYBERMEN, O DOUTOR ESTÁ DE FÉRIAS

"... se ele fosse perguntado sobre os Jagaroth, Scaroth teria dado de ombros e dito que era uma raça guerreira selvagem e que se você não conhecesse, então deveria esperar para conhecer as outras.

De uma forma geral, todas as formas de vida no universo eram bem selvagens e guerreiras. "Mostre-me uma raça de filósofos e poetas", dizia Scaroth, "e eu encontrarei meu almoço."

Nossa aventura começa quando o Doutor e sua então companion (a timelady novinha Romana, em sua segunda regeneração) decidem tirar um dia de folga em Paris. Nada de raios da morte, nada de correrias desabaladas, nada de pés de vargas crescendo, apenas uma boa e velha folga - ou seja, é claro que isso não ia dar certo.

Paris, com todas suas peculiaridades, é a grande protagonista da história na verdade. E se você acha que a descrição de uma cidade peculiar não é interessante o suficiente, claramente nunca leu Douglas Adams descrevendo qualquer coisa insignificante (discutivelmente, a maior fraqueza da série "Guia do Mochileiro das Galáxias" é justamente quando ele NÃO está fazendo isso).

Eu não sei o quanto foi tirado dos roteiros originais e o quanto James Goss apenas se inspirou no estilo do mestre (não, não esse Mestre!), mas o resultado é que é um livro sobre Douglas Adams descrevendo o transito, a arquitetura e o comportamento dos parisienses. Só isso já vale o livro, acredite.


"O Doutor parecia estar contemplando a possibilidade de tirar um cochilo. O café, assim como boa parte de Paris, parecia um velho amigo que não se dera ao trabalho de arrumar a casa quando você apareceu. Era caloroso, receptivo e tinha um leve cheiro de cachorro molhado no ar."

Eu, que sou mais grosso que arrotar na hora de receber a hostea, nunca entendi realmente o que de tão especial assim as pessoas sempre viam em Paris - existem pelo menos uma dezena de lugares que eu gostaria de visitar primeiro. Mas esse livro conseguiu me fazer ver o ponto dos fanboys de Paris (você achou que jamais leria essa expressão, vai dizer).

A sensação que passa é que, assim como o Doutor, Douglas Adams estava de férias e sem muita pressa, se enamorando com as pequenas coisas absurdas da cidade luz que só um inglês cínico conseguiria ver. Eu diria até que Paris é um personagem de maior destaque na história do que o próprio Doutor.

Mas se o livro não é exatamente sobre o bom e velho Basil então sobre que é exatamente?

Explicando Doctor Who em uma
imagem
O REINADO DE ROMANADVORATRELUNDAR E SEUS VILÕES ELEGANTEMENTE BREGAS

No livro o Doutor aparece relativamente pouco e quando aparece é quase uma figura mítica destilando genialidade através de sua aparente imbecilidade.

O Doutor é tratado como uma força da natureza, um deus idiota que aparece, faz algo imbecil brilhante e então vai embora. Alguns dos meus episódios favoritos da série fazem isso de vez em quando (Love and Monsters, Blink e Flatline me vem a mente) e funciona maravilhosamente bem. Não é ele realmente nosso protagonista aqui, os holofotes ficam a cargo da Senhora do Tempo inexperiente e a dupla de vilões, o conde e a condessa.

E quer saber? Romana é uma excelente protagonista.
Ela é uma Senhora do Tempo do planeta Gallifrey assim como o Doutor, mas o Doutor (a essa altura dos acontecimentos) já tem alguns séculos de Terra nas costas e sabe como as coisas funcionam. Escolhe ignora-las, mas saber ele sabe.

Romana por sua vez é uma completa alienígena de uma civilização muito mais avançada e as coisas que ela não entende sobre a Terra, sobretudo sobre Paris, são puro ouro na hora da leitura.

Dando um exemplo, ela não entende o conceito humano de arte. Os Senhores do Tempo tem arte, é claro, o que ela não entende é essa coisa humana de preservar o original físico de um quadro e se impressionar o quanto mais ele resiste a passagem do tempo. Os Timelords possuem arte digitalizada feita por computadores que pode ser facilmente reproduzida, essa coisa de "tomara que não estrague, tomara que não estrague, tomara que não estrague" dos humanos é completamente sem sentido algum!

Porque tudo que precisávamos era uma alien (em todos os sentidos da palavra) como ferramenta para Douglas Adams expor os absurdos da nossa cultura. Romana é uma personagem muito interessante com um senso de personalidade e modo de pensar bastante único, em qualquer outra série uma personagem como ela carregaria a série nas costas com sobras. De certa forma é impressionante ver ver a fartura que era essa série, podendo se dar ao luxo de colocar uma personagem forte e independente como sidekick.

Se você está lendo isso e não olhando o sorriso dela, tem
algo muito errado com você
Ajuda muito também, mesmo para "visualizar" o livro, que Lalla Ward (a atriz que interpretou a segunda forma da Romana) é uma das mulheres mais lindas da história da televisão. Com efeito, Deus posteriormente pediu desculpas por tê-la feito com essa aparência porque colocou o padrão alto demais para reles mortais (mais posteriormente ainda a mensagem de Deus foi interpretada como "senta o sarrafo nos viado e nos macumbeiro", o que fez que Deus oficialmente desistir de tentar mandar qualquer mensagem e hoje só compartilha fotos de gatos no Instagram).

O relacionamento de Romana com o Doutor também é uma atração a parte no livro. Ela realmente se esforça muito para entender como ele consegue uma das mentes mais brilhantes de uma das civilizações mais avançadas do universo ao mesmo tempo que é um idiota. Nós também, Romana, nós também.

E se Romana é uma heróina bastante improvável, os seus algozes são vilões bastante prováveis. O conde e a condessa Scarlioni são o resultado de Douglas Adams ter juntado na sua cabeça tudo que ele conseguia compilar sob o termo "vilões elegantes ladrões de arte". O resultado, como já se pode imaginar, é delicioso.

O conde ofereceu um prato a Romana e indicou a mesa com um gesto. Ela decidiu se servir do doce mais ridículo que conseguiu encontrar. Com tantas opções, acabou escolhendo o que parecia ser um barco de massa com carga de creme e tripulação de frutas brilhantes. Era irritantemente maravilhoso.
 
- Minha querida - ronronou o conde, em um tom confidencial - acho que você pode ser muito útil para mim.
 
"Prossiga", pensou Romana. Podia estar presa no tempo vivendo uma aventura sozinha, mas não havia dúvida que seus vilões eram melhores do que os do Doutor. Davros por acaso servira um prato de frutas? Não mesmo.

Soma-se a eles o improvável companion de Romana, o detetive britânico Duggan. Porque o que é um Senhor do Tempo se aventurando sem ter cuidar um britânico se metendo em encrencas, não é mesmo? Duggan tem toda a imaginação e o jogo de cintura que você pode esperar de um inglês, e não surpreendentemente sua melhor qualidade é socar as coisas. Ou pessoas. De preferencia pessoas, mas coisas são ok também.

Duggan: "Posso socar a máquina agora?"
Doutor: "Espere até ver o branco dos olhos dela"
Duggan e Romana tem uma química poucas vezes vista que não exatamente prima pela eficiência, mas com certeza se complementam como banana com feijão. Eu gosto, tá? Me julgue.

Duggan pulou o muro e caiu bem no caminho de um cão policial que rosnava.
- Desculpe, Fido - disse, com  um suspiro, dando um soco no pescoço do animal.
O cachorro o encarou, ultrajado, ganiu e caiu no chão.
Um policial correu até Dugga,, sem duvida dizendo a versão francêsa de: "Mas, senhor, parece que você bateu no meu cachorro!".
Duggan bateu nele também e saiu correndo.
"Agora, sim", pensou.

O que mais eu posso dizer? "Cidade de Morte" não tem uma trama complexa e repleta de auto-referencias como Shada, é mais sobre Romana sofrendo com as placas de transito esquizofrênicas de Paris enquanto um alien pretende destruir toda história da Terra para reencontrar seus fragmentos perdidos no tempo  usando sete Monalisas originais e também envolve a origem da vida na Terra... hm, colocando assim talvez pareça realmente um pouco complicado. Mas não é, de verdade.

É divertido, é apenas um dia de folga despretensioso do Doutor capturado em sua essência por Douglas Adams, por sua vez capturado em sua essência por James Goss. Timey-wimey wibly wobly stuff, sacumé, né?

Essa imagem da Romana não tem relação alguma com o texto,
mas não é como se eu precisasse de motivo para colocar imagens da Romana :wub

reproduzido em Nerd Geek Feelings




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