segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

[C&P] Comentamos a escolha de Chibnall para showrunner de Doctor Who (ou we are doomed)

De um lado temos um ser abominável,
de outro um dalek.
Vimos pessoas comemorando a saída de Steven Moffat como showrunner de Doctor Who como se ele fosse a pior coisa que tivesse acontecido a série do menino Basil. Pessoas que não viram a última temporada, presumo. Pessoas que pularam Don’t blink.

Claro que Moffat também teve seus episódios ruins e errou nas companions: Amy, a moça bela ruiva que não se agradava com nada (Não é o Rio de Janeiro. Que droga! “Ei, mas veja só um lagarto humano?!” Ai, ainda não é o Rio. Sem graça!) e tinha tanta empatia quanto um bule de chá, se importando, no máximo, com o Doutor, o Rory e ela mesma, óbvio. Clara, depois de sua antecessora já foi uma melhora, porém ainda faltava mais, o que nos foi dado depois. Parabéns aos envolvidos na evolução e no acerto. Como humanos, sabemos que errar, acontece, ficar lá é que não dá.

Sim, Moffat tem uma grande capacidade de dirigir os caminhos da série. Sério, depois da inhaca que é a Clara na 7a temporada parecia humanamente impossível fazer com que nos importássemos com a personagem dentro de uma curva de evolução crível (em outras palavras, nada menos do que um alien possuiu o
corpo da Clara e agora ela é a Claraborg, um ser inteiramente diferente). E, embora Moffat não soubesse exatamente desenvolver o momentum (estamos falando de quando a série teve mais episódios sobre a carne artificial da Amy do que as consequências de um paradoxo), suas direções em geral eram boas. Because… bananas!!!

Pois bem, aqueles que após uma brilhante temporada cospem na cara de Moffat, se alegram que o escolhido para ser o novo showrunner seja Chris Chibnall. CHIBNALL! (guardem minhas palavras: daqui a dois anos, veremos estas mesmas pessoas pisando no agora adorado Chibnall).

Ok, o nome não lhe é familiar? Não lembra?

Pois bem, ele já escreveu alguns episódios e mini-episódios para Doutor Quem e para Torchwood também. Vamos a eles!

42: Esse é um daqueles episódios “presos em uma base/labirinto com limite de tempo”. Aqui, uma nave está caindo para um sol e eles tem 42 minutos para consertar a nave, sair de lá, salvar o dia e/ou comer torradas antes de virarem eles as torradas (ãh!). O mais espetacular aqui é que Chibnall consegue fazer TUDO errado. Em nenhum momento fica muito claro o que está em jogo (se eles estão em perigo ninguém avisou a Freema, porque ela está se divertindo pra caramba - e não no sentido “estou em perigo e me divertindo” de Doctor Who, e sim o personagem não está transmitindo o que está em jogo aqui).

Os aliens são os mais genéricos e desinspirados possíveis e os coadjuvantes são abusivamente esquecíveis. Nada funciona nesse episódio, nada. Esse episódio é tão ruim que a ideia dele foi reaproveitada na cara dura logo ali como se ele nunca tivesse acontecido e ninguém reclamou, porque 42 é um episódio ruim desse tipo. Caso você não lembre, “Waters of Mars” é 42 refeito da forma certa e é um dos melhores episódios do Tennant como Doutor.

Não é desse episódio, claro. É a fofura do Hartnell
aparentemente fazendo 'shii' para mini daleks.
Seu argumento é inválido.
The Hungry Earth/ Cold Blood: com o 11º, Amy e Rory. Dividido em duas partes, é aquele em que estão perfurando a terra até o fim em busca do satanás. O que encontram? Silurians! Que dizem ser os primeiros habitantes legítimos da Terra (perderam, índios!): tem a lagarta louca que quer conquistar de volta e exterminar os humanos, tem também o senhor pacífico que só quer se aposentar. Enfim, não é ruim, ruim. Mas também não é bom. A parte ruim é que é totalmente desnecessário ter duas partes, dava para apurar em uma e não se perder grandes coisas.

Dinosaurs on a spaceship: o episódio que apresenta o pai do Rory, o Sr. Weasley! Tem também Sr. Filch. É, pois é. Detalhes preciosos que o recomendam, de fato, bom. Esse é o melhor episódio escrito pelo Chibnall, mas na boa, não tinha muito como errar. Quando você coloca no mesmo saco o Sr. Weasley, o sr. Filch, a rainha Nefertiti do Egito e o primo menos famoso do Alan Quarterman em uma nave cheia de dinossauros não tem muito como errar.

Foi uma das poucas vezes que eu senti que um vilão de Doctor Who era mau mesmo - o que não é necessariamente uma coisa boa, mas funcionou no episódio. Os robôs patetas do sr. Filch são geniais e se tem algo de bom que podemos esperar do Chibnall como chefe dessa bagaçada é o que demonstrou nesse episódio: uma capacidade de conseguir participações de atores famosos assim como empilhar ideias incríveis juntas.

The power of three: aquele dos cubos pretos que todos levam para casa porque né, que fofura (a humanidade se esforça pra ser invadida). Agora, se tem algo com o que você não pode errar em Doctor Who é o Matt Smith tentando ser “normal”. O fato desse episódio ser menos do que um dos melhores da série (como “O inquilino” é, por exemplo) diz muito sobre a forma do Chibnall conduzir as coisas. A ideia da “invasão lenta” também é ótima, porém executada de uma forma “meh”. É um episódio ok, que deveria ter sido lendário quando você pensa sobre ele na teoria (sim, porque pensar tem que ser na teoria, né coisa linda?). Também é o episódio em que o doutor tem ataque de um coração (viram o que foi feito?). 



Agora, Torchwood!

Parece que Pako voltou, hein
Day One: o episódio em que um alien púrpura gasoso toma o corpo das novinhas (tomou de algum novinho?) e as coloca desejosas para mandar ver, o alvo também. O pequeno incoveniente é que o gás mata o parceiro quando este alcança o orgasmo (died hard) deixando só uma pilha de pó.

Cyberwoman: Yanto tem uma namorada! "Eeee, felicidades, cara!" Ela é uma cyberlady. “Pow, que chato. Mas, gostosa?” Sim. “Ah, então tá valendo”. Não, cara. Parece que gostosura não é o suficiente quando alguém quer te matar (tecnicamente, aperfeiçoar), e matar seus amigos...e todos da Terra... É, acho que dá pra melhorar, Yanto (como de fato aconteceu). Esse episódio, como Torchwood se permite ser, é tenso e triste. Bem triste.

Ambos os episódios mostram bem qual é a proposta de Torchwood como série e são bem amarradinhos. Não serve para dizer muita coisa a respeito de Doctor Who porque a proposta da série é diferente. A forma com que o Chibnall escreve combina perfeitamente com Torchwood (como eu citei, o Sr. Filch é um vilão num patamar muito deslocado em relação a DW), o que nos leva a...

Countryside: O PIOR! De Torchwood! Do mundo! De todas as linhas temporais! É um episódio em que estão sumindo pessoas perto de uma estrada/vilazinha do nada e estão aparecendo corpos despelados, descarnados e desvicerados. No final, as pessoas estão morrendo porque o pessoal de um lugarzinho estão fazendo o que eles chamam de “a colheita”. Todo ano tem. Há um bom tempo. É uma tradição simpática deles. Matam as pessoas para ter carne e órgãos para fazer comida. Ué.

Já foi ruim o suficiente assistir essa merda, então
nada de pesquisar imagens. Deixamos vocês com
uma foto do Chibnall novinho. Igualmente
assustador.
Durante o episódio, temos que ver várias carnes por aí, vísceras e pacotes embrulhados, facões. Torchwood se permite ser mais sombrio e sério. Entendido. Mas, esse extrapola, é bem terror, desagradável e desnecessário. No final, você só fica se sentindo mal pelo que viu (e não de um jeito positivo, catártico). Para completar, a Gwen quer entender por que esse pessoal faz isso e pergunta pro cara “Por quê? Tem alguma razão que me ajude a conviver com isso melhor? Você foi estuprado, torturado, viu toda sua família e amigos morrerem 30 vezes na infância?” Resposta: Não. Eu faço porque me faz feliz. HAHA

Sério? Mesmo? Ok, imagino que o objetivo foi mostrar que as vezes não raras os humanos são maus também e sem motivo algum, apenas são. Válido. Mas, existem tantas formas de alcançar melhor esse objetivo. Ou vai, faz isso, mas num filme de terror, numa série sobre isso. Torchwood tinha suas bizarrices, mas essa extrapolou tudo. Chibnall fumou o crack com cancer e necrose.

Esse é o episódio que mais preocupa em ter o Chibnall como showrunner da série. Não só porque ele é de terrível mau gosto (mesmo para os padrões flexíveis de Torchwood), é bem mais sério do que isso. Nesse episódio, ele pegou a proposta da série e defecou nela com tanta fúria que a taxa de natalidade no Japão voltou a ficar positiva. Ele queria escrever um episódio dark sobre o mundo cão e tal (parece que ele adora fazer isso), mas Torchwood não era o lugar para ESSE tipo de episódio. O que ele fez? Tocou o foda-se, o episódio está lá mesmo assim.

Não é necessário justificar uma imagem da
Catherine Tate.  
E, isso é um problema muito sério quando você é o showrunner da coisa. Porque o papel de um showrunner não é escrever roteiros (embora o Moffat faça isso pacas e o Russell também fazia), o papel dele é ser o fiel da balança e decidir que rumos os roteiros da série vão tomar. E se ele não pode respeitar o que uma série é apenas porque deu vontade de fazer as coisas daquele jeito, então nós temos um problema em dar a chave do cofre para essa pessoa.

Tem outros episódios de Torchwood escritos por ele ainda por ver. Por hora, nada a ser dito.

Que o Silencio nos ajude

Certo. Pesando tudo isso na balança. Chibnall não conta com episódios de peso em Doctor Who que o recomendem (apenas Dinosaurs on a spaceship chama mais atenção, sendo o melhor episódio dele), não conta com excelentes episódios em Torchwood também. Sendo assim, não sei como ele foi escolhido. Não sei se ele apresentou ideias incríveis que tocaram o mais empedernido dos corações, se ele mudou, se isso é um truque do Moffat, depois ele pensa melhor e O que a gente fez? 

Agora, como foi dito, escrever episódios não é tanto o problema aqui. Claro que ajuda escrever muito bem (antes de ser showrunner, Moffat tinha alguns dos melhores episódios da série sob o seu cinturão como Empty Child/The Doctor Dances e Blink). O problema mesmo é que ele parece ser de um mau gosto absurdo, isso sim é algo preocupante no showrunner da série.

De certa forma, ele lembra muito o Michael Bay: quando colocada uma coleirinha nele (ou seja, quando tem um produtor executivo de pulso firme podando as bizarrices dele) ele consegue ser um diretor decente. Armageddon e o primeiro Transformers são filmes bons. Não excelentes, não obras primas do cinema, mas competentes. Agora, quando ele tem carta branca para fazer a merda que dá vontade sem prestar contas a ninguém, temos o resto da franquia Transformers e No Pain No Gain. 

O Chibnall parece muito similar: ele pode ser competente (não genial ou brilhante) quando devidamente orientado, mas destrambelha de forma pavorosa (e meio juvenil até) quando tem liberdade irrestrita. E adivinha só: agora ele vai ser o chefe da coisa toda. Tirando alguns executivos da BBC, ele não tem que prestar contas a tanta gente assim e é exatamente o tipo de poder que você não quer ver na mão do Michael Bay ou do Chibnall. Isso não parece ter como dar certo.

"Ei, mas Broadchurch..."

Sobre a série em que ele é showrunner: Broadchurch. A que parece recomendá-lo mais. Basicamente, é aquele drama de família que mora numa pequena cidade (Broadchurch) e o filho mais novo, um belo dia, está morto. A morte do rapaz é investigada por Tennant e Olivia Colman que vão descobrindo segredos dos habitantes que não são tão pacatos e inocentes assim. Claro, né.

Um drama policial. Bacana. Lindo. E, dane-se! Isso mesmo. Dane-se! Chibnall pode ser a escada da Nazaré Tedesco dos dramas policiais, isso não quer dizer que ele é uma boa escolha para Doctor Who. Motivo muito simples: Doutor não é um drama policial. Não é. E, não vamos dar saltinhos de alegria porque o cara é maravilhoso numa série policial quando a que está em jogo aqui não é. Ser bom em cantar não te faz ser bom em dançar. Escrever um romance fantástico não é o mesmo que escrever um conto erótico (no caso, dos otakus devotos deve ser, mas isso não vem ao caso).

Pois é, Mark Gatiss escreve episódios ótimos de Sherlock, e escrevendo Doctor Who é de uma inhaca que até o contador do PT acha que essas contas não estão batendo (sério, ele conseguiu a façanha de escrever o ÚNICO episódio ruim da temporada de 2015, mas sabe o que é ser o aberrante ÚNICO episódio ruim?).

Entre outras coisas, Doctor Who é isto.
Adicionalmente, Hartnell ajudando o William
Russell a entrar num dalek
.
Mais uma vez: o que preocupa é o tema que ele parece preferir. Chibnall parece ter um fascínio pela coisa do mundo cão e de as pessoas serem piores por dentro do que elas são realmente. O que é exatamente o OPOSTO do que Doctor Who deve ser!

Sério, olhando o estilo do sujeito não dá para entender porque o escolheram justamente para Doctor Who. Eu consigo imaginar ele sendo responsável por, sei lá, Jéssica Jones ou até mesmo Sherlock, mas Doctor Who NÃO É ISSO.

Não sei o que a BBC está pensando, não sei o que o Moffat está pensando. Mas bem, suponho que eles saibam o que estão fazendo afinal eles tocam esse jogo (nem sempre bem, verdade) há mais de cinquenta anos e a série vem da melhor temporada de New Who até o momento. Claro, podemos nos consolar no fato que a BBC também já achou um dia uma boa ideia o Dalek humano e é extremamente provável que o Capaldi saia junto com o Moffat. Não, espera, todas essas coisas são horríveis! Isso é o oposto de consolar!

Agora que caiu a ficha de que o Chibnall vai ser voz vital para escolher o/a proximo Doutor? DAFUQ? WE ARE DOOMED! DOOMED!




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