sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Xenoblade Chronicles (ou o dia em que eu fiquei velho demais pra isso)

Existem muita analogias que podem ser feitas quanto ao processo de amadurecimento e porque não dizer, de envelhecimento. Dentre todas elas, uma das minhas favoritas é comparar com o clássico Máquina Mortífera.

Quando você é jovem, seu sonho é ser como o Righs: impetuoso, não segue regras, faz o que dá vontade e ninguém pode para-lo. Eu, no entanto, estou numa fase em que me identifico muito mais com o Murtaugh: eu estou velho demais pra essa merda.

E por "essa merda" entenda diversas coisas da vida como assistir TV aberta, discutir na internet e jogar jRPGs. Xenoblade Chronicles foi o jogo que me ajudou a entender isso.

O MELHOR JRPG DA GERAÇÃO PASSADA OU WHATEVER

Xenoblade Chronicles é um jogo lançado para o Wii e adaptado posteriormente para o 3DS e é aclamado por muitos como o melhor jRPG da geração passada. Eu discordo (acho Ni no Kuni o melhor) mas completamente consigo entender o ponto de vista das pessoas já que Xenoblade Chronicles faz muitas coisas certas. Muitas.

Para começar, Xenoblade nasceu do mesmo escritor que redigiu a melhor trama em um RPG de todos os tempos: Xenogears. Só isso já merece respeito. 

O começo do jogo ajuda a manter esse respeito: no inicio dos tempos haviam dois seres, Mechonis e Bionis, que lutavam porque é o que seres no inicio dos tempos fazem. Após incontáveis eras e a luta entre os dois acabou chegando a um empate, onde os dois permaneceram paralisados ali indefinidamente. Isso é importante porque Bionis é o MUNDO ONDE SE PASSA O JOGO.

Sim, o MUNDO INTEIRO é o monstro gigante e com efeito você começa numa vilazinha que fica na canela de Bionis e sua primeira missão é subir montanhas e encostas para chegar até uma cidade que fica no joelho dele. Se isso não é a definição de épico,  não sei mais o que seria. Puta que o pariu.

Para complementar o mundo do jogo é absurdamente grande, do tipo que você abre um mapa e diz "puta que o pariu com ameixas fritas como essa porra é grande". Bota grande nisso. Neste mundo imenso você também tem um zilhão de quests distribuídas entre dia e noite, ou seja você passa uma hora pegando quests durante o dia e aí anoitece - entram outro conjunto de moradores porque cada NPC tem o seu itinerário conforme a hora do dia - e você pega outro zilhão de quests.

Adicionando recheio a torta de cereja, o sistema de combate é bastante dinâmico mas fácil de entender - atacar o monstro pelo lado ou por trás faz diferença - emulando um MMO com o papel de tanque, DPS e healer.

Como eu poderia não achar isso a vigésima oitava maravilha de Plutão?
Resposta simples: eu estou ficando velho.



Se eu tivesse 14 anos certamente esse seria o jogo da minha vida e eu compraria umas cinco cópias para morrer cremado com elas e começar uma polêmica no Facebook. Como eu não tenho mais essa idade, no entanto, ao começar a jogar o jogo me ocorreu que simplesmente eu não tenho mais saco para isso.

UMA EXCELENTE HISTÓRIA... EU ACHO... DEPOIS QUE VOCÊ COLECIONAR 58 ODANGOS DROPADOS DE MACACOS SALTITANTES ROXOS

Após mais de trinta horas de jogo eu posso dizer que Xenoblade tem realmente um cenário muito foda (sério, a coisa dos gigantes realmente me pegou) e... e... bem, é isso. O resto da história é o seu bom e velho clichê de "o escolhido recebe a arma magica que só funciona com ele e enfrenta um exercito de maquinas malvadas - para poder matar sem remorsos já que não são pessoas".

Para reconstruir a zona residencial da cidade,
você precisa coletar 5 babas de sapo do pântano
e 3 chumações de lã de ovelha elétrica.
Espera, o que?

Enfim, absolutamente nada que qualquer um já não tenha visto no sábado de manhã ou em animes pelo menos oito bilhões de vezes. Mas ok, uma história simples contada de uma forma cativante ainda vale, certo?

Não, porque a "história" é interrompida por sidequests irrelevantes cuja única função é encher linguiça e agradar fãs de anime. "Ah, precisamos chegar no lugar X, mas ele é guardado pela criatura Y, então temos que fazer uma sidequest para Z para ganhar um item que não vai fazer diferença na luta e blablabla". Repita isso indefinidamente.

E cada "desvio" na história é uma facada de 4, 5, SEIS horas. Ah sério, eu não tenho mais paciência pra isso. Seis horas pra chegar numa cutscene que eu podia ter visto igualzinha em um anime ruim em 15 minutos é demais pra mim.

A coisa é: eu costumava adorar esse tipo de coisa. De verdade. Eu aprendi inglês jogando RPGs, eu virava a madrugada com RPGs no PS2 tão obscuros que tem até cotas pra eles na universidade e meio que esse é o ponto: eu já fiz isso, eu já vi isso, dezenas e dezenas de vezes. Não tenho mais paciência pra fazer de novo.

Talvez Xenoblade tenha uma grande história por detrás da aparência de anime genérico, eu não duvido. Certamente o jogo tem cutscenes com potencial narrativo emocionantes mesmo no começo do jogo, mas só que se houver eles estão diluídas em tanta porcaria, tanto filler que eu me senti apto a tirar um alvará de homeopata jogando isso. E isso que Xenoblade é um dos bons, eu tentei jogar Tales of Zestiria e tive câimbra de revirar os olhos com tanto clichê de anime - mesmo que a mecânica do jogo seja boa.

Eu simplesmente não tenho mais em mim o ímpeto de passar horas fazendo uma tarefa mentalmente vazia para uma recompensa irrelevante. Até porque eu já faço isso diariamente: chama-se EMPREGO.

Deus, pq eu ando com essas
pessoas mesmo?
NÃO É PARA ONDE VOCÊ VAI, MAS COM QUEM

Mas digamos que Xenoblade tenha realmente uma boa história perdida em horas de bobagens irrelevantes. Suponhamos isso para o bem da discussão.

Ora, alguns jogos, como Final Fantasy XIII, tem de fato histórias muito boas. Tudo que há para haver em uma boa história está em Final Fantasy XIII: monstros, um destino trágico, magia, religião, uma sociedade complexa governada pelo medo, um mundo antigo e esquecido com uma história riquíssima, um estado que criou uma mentira da qual ninguém questiona... por qualquer angulo que você olhe, está lá uma puta história.

E ela chega até você através de um bando de adolescentes andróginos depressivos aprendo a lidar com uma grande perda ou algo do tipo, ou então descobrindo quem são no mundo (ou qualquer bobagem que você entenda como metafora para a adolescencia).

Longa história curta, RPGs japoneses usualmente lidam sobre os clichês de anime com  pouca ou nenhuma evolução de personagem. O protagonista incorruptível de nobre coração, o amigo grande forte e meio lentinho, a loli que estranhamente tem uma certa tensão sexual com o protagonista, o bichinho fofinho que não faz sentido numa luta contra demônios do poço da dor e por aí vai. E certamente Xenoblade não é exceção a essa regra.

Em outras palavras, é apenas anime ruim. E por mais que eu não duvide que possa haver uma evolução de personagem, voltamos ao mesmo problema anterior: evolução de personagem diluída em 80 horas de jogo, simplesmente não dá mais pra mim.

Se um anime tem 24 episódios (ao contrário de 13) eu já penso duas vezes antes de assistir porque é improvável que vá valer a pena, imagine 80 horas!

RPGs japoneses em particular tem um conjunto de problemas bastante típicos aos quais Xenoblade Chronicles não faz nada para consertar, pelo contrário os exalta como qualidades:

Nosso herói e seu bravo melhor amigo forte porém não
tão esperto (fazendo cosplay de XBOX por algum motivo)
1. Garoto de 14 anos vestido como se tivesse 7 e escolhido as próprias roupas que pode destruir exércitos inteiros sozinho
2. Alias todo mundo se veste como se tivesse sido obrigado a viver com os esboços rejeitados do Joãozinho 30, que porra é essa? Quem se veste assim? Por que?
3. O protagonista órfão sem memórias do passado que tem um lado sensível em lembrar disso.
4. Personagens assexuados. Por que relacionamentos sempre são tratados com a maturidade de uma criança da terceira série? Eu não preciso ver dezenas de horas de personagens supostamente adultos que não passam da desenvoltura emocional de "gostar" de uma criança de 10 anos
5. Monstros que não fazem nenhum sentido. Como esse cactus gigante chegou nessa caverna? Do que ele se alimenta aqui? Porque ele tem que ter um chapéu engraçado e gemer como uma colegial de hentai?

Eu poderia continuar por  horas apontando coisas que Xenoblade Chronicles faz errado, mas acho que o meu ponto ficou claro. E nem estou pedindo que os RPGs sejam todos sérios e sombrios nem nenhuma idiotice do tipo, apenas que o conteúdo siga a proposta do tema - puta merda, isso é narrativa básica, eu nem sei porque eu teria que explicar isso.

Ni no Kuni, por exemplo, pode ter monstros narigudos de cartola e um protagonista de 8 anos porque a proposta básica é ser um jogo que parece um fucking filme do estúdio Gibhli! Está ótimo, tem que ser assim mesmo, essa é a proposta.

Xenoblade Chronicles se vende como um tipo de fantasia épica em que você tem que suar muito para achar alguma coisa que não seja puramente estupida ou não funcional.

Foi a essa altura que eu me dei conta da quantidade enorme de colher de chá que eu dou para os RPGs única e exclusivamente devido a memória afetiva do passado. Pense nisso, eu não teria esse tipo de paciência com um filme de mesmos defeitos, nem uma série ou um anime, porque eu dou tanta colher de chá para os jogos?

Quer dizer, jogos ainda se baseiam em mecânicas fundamentalmente desconfortáveis como te fazer ler toneladas de texto irrelevante na televisão. Não é segredo pra ninguém que ler em telas é desconfortável - o Kindle funciona exatamente porque alguém gastou  milhares de horas e dólares para NÃO SER uma tela - e qualquer outra mídia que falhasse em níveis tão fundamentais assim (imagine uma música que incomodasse os ouvidos, ou um filme que causasse epilepsia) já teria levado um pé na bunda a muito tempo. Então porque os jogos teriam algum tratamento diferente?

Eu entendo que fazer um jogo é absurdamente dificil. Você tem que escrever tão bem quanto um bom livro, exibir cenas e personagens tão bem quanto um bom filme e ainda por cima ser um bom jogo para se jogar, é algo realmente complicado. E dessas três coisas Xenoblade consegue ser bom (ou mediano, dependendo do seu humor) em apenas uma.

Tem tantas coisas erradas nessa imagem...
Como eu disse, fosse vinte anos atrás eu não teria tido nenhum tipo de problema com isso, teria adorado esse jogo como adorava quase qualquer RPG, quase qualquer anime e quase qualquer série/livro/filme que se encaixasse nos meus temas favoritos.

Pensando sobre isso agora, não é realmente tanta surpresa que eu não tenha paciência mais para esse tipo de coisa, como eu não tenho paciência para muitos outros tipos de coisas. Foi apenas a surpresa da revelação que RPGs não possuem tratamento especial, até o momento não tinha me ocorrido tal coisa.

Ficar velho talvez não seja tão ruim assim. Estou feliz que tivemos essa conversa.

MAIS UMA COISA

Sobre Xenoblade Chronicles em si eu não preciso entrar em muito mais detalhes, porque tudo que eu tinha para dizer sobre  o jogo já foi dito no link abaixo. A história é lenta, anêmica e previsível; a parte de equipamentos é uma desgraça; os menus são o menos otimizados possíveis; as quests foram boladas a um nível que você não consegue compreender porque alguém acharia isso divertido e o jogo tem o dobro, até o triplo de tamanho que deveria ter para seus defeitos serem toleráveis.

O plano de fazer U$60 e 80 horas da sua vida desaparecerem

The story is anemic, slow, and predictable

I have always believed JRPGs, moreso than most other genres, to live and die by their characters and story. By that metric, Xenoblade didn't do a lot for me.

The characters are fairly one-dimensional, and though I wanted to say “with exception”, I can't really think of a good one. Shulk is a standard quiet, determined hero with a mysterious past, special power, and desire for revenge that transitions into task to save the world. Fiora is the classic small-town love interest, catalyst for revenge, and to nobody's surprise, doesn't actually die. Reyn is his oafish but loyal and loveable friend. Sharla is the mother figure (except with crazy breast physics, so don't read that with too much of a Freudian lens). Riki is the earnest comic relief character. Melia is the awkward, high-class princess with magic powers and serves double-duty as the third wheel in a love triangle. Dunban is maybe the least stereotypical character, but he's still basically a father figure, and isn't really the subject of much storytelling. I'm obviously oversimplifying, but I don't think the characters have a lot of depth to them

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