segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Star Wars IV: Uma Nova Esperança (ou o melhor filme que pouca gente assistiu)

Existem alguns livros que são tão absurdamente populares no cotidiano da cultura moderna que você não tem como ficar surpreso sobre quão pouca gente efetivamente os leu.

Quer dizer, todo mundo já ouviu de Lolita, certo? Aquele livro sobre uma novinha seduzente e a tentação do desejo proibido por uma menor de idade com muita sexualidade e sedução, certo? Quem nunca ouviu falar disso?

Apenas que qualquer um que já tenha lido o livro, eu suponho. Lolita tem tanta sensualidade nele quanto uma declaração de imposto de renda: na verdade é um livro bem pesado e depressivo sobre uma menina que se torna escrava sexual de um cara com mais problemas do que a medicina moderna pode explicar. 

E "O Médico e o Monstro"? Classicão, certo? Quer dizer, o livro que inspirou o Incrível Hulk sobre um homem gentil e bom que vira um bichão enorme esmagador de coisas! Ora, certamente você o viu na Liga Extraordinária e teve até um desenho do Frajola e Piu-Piu sobre isso, como esquecer?

Exceto, claro, que o Dr. Jekyll não vira monstro nenhum. Não fisicamente. Sim, toda a coisa do monstro é puramente sobre o psicológico do que ele se torna após tomar o coquetel de drogas e a maior mudança física que acontece com ele é descrita como "passa a sensação de ter algo errado com ele, embora não se possa dizer exatamente o que". Eu sei, bummer, cade o monstrão?

Como vê, não é incomum pilares da cultura pop serem tão famosos, mas tão famosos e tão infundidos na mente das pessoas ... que ninguém faz a menor ideia do que estão falando. Parece chocante dizer, mas veja a opinião das pessoas e verá que pouca gente realmente assistiu Star Wars alguma vez na vida.

O que é uma pena realmente, porque o filme é ótimo!

O que eu mais gosto nessa cena é que o cara de branco ali
é o superior do Darth Vader e faz uma cara de "de novo..."
A MUITO TEMPO ATRÁS, NUMA SESSÃO DA TARDE MUITO DISTANTE...

"Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança" é o filme de sessão da tarde definitivo. Tem tudo que um filme precisa ter para você sentar com a família numa tarde nublada e apenas se divertir.

A história é o paragon da jornada do herói: um garoto nos cafundós do judas recebe um chamado a aventura caindo no seu colo, hesita, encontra um mestre, supera dificuldades, vai ao coração do perigo, triunfa sobre o mal e retorna como um herói. Essa é a história mais antiga da humanidade e pode ser vista desde a epopeia de Gilgamesh até Harry Potter, George Lucas não foi o primeiro a coloca-la na tela grande do cinema.

O que ele foi o primeiro a fazer foi conta-la com espadas lasers, naves espaciais, tiros, aliens  e um vilão carismático para ser referencia até hoje. Tem tantas coisas certas que o episódio IV faz então pouco tempo que realmente impressiona.

Sempre que te disserem que Star Wars é uma série madura e
séria sobre temas profundos, mostre essa cena.
Por exemplo, Luke é um moleque que quer ir pra "cidade grande" mas esta preso com os tios em um deserto e toda a motivação e personalidade do garoto em querer algo mais, em querer ser um herói é transmitida tão bem em tão poucas falas. Mesmo hoje, quase 40 anos depois, eu não vejo como poderia ser deixado tão claro em tão poucas falas de forma tão marcante. O tipo de coisa que você tem que carimbar "Porra, é assim que se faz!".

O filme todo é repleto de momentos assim que parece que o cinema de blockbusters desaprendeu: diga uma vez bem claro da forma mais sucinta possível, e depois trabalhe como se fosse uma verdade estabelecida. Isso é narrativa em sua melhor forma.

Outra coisa que Star Wars faz é estabelecer muito bem um universo muito grande: o filme dá a entender que existem (ou existiram) coisas epicamente fodas nesse universo mas não dá em miúdos sobre isso. Quem foram os jedi? O que é o Império e porque ele é ruim? O que foram as Guerras Clônicas?

Melhor fala do filme: qualquer uma dita pelo Tripio
Nenhuma dessas coisas é explicada realmente ao mesmo tempo que o filme te dá informação suficiente para se importar com isso. "Ok, os jedi eram tipo paladinos com alguns poderes mentais." "Certo, o Império é mau como um pica-pau." "Hm, eu não sei o que foram as Guerras Clônicas  mas o pai do Luke morreu nelas e para a história é isso que importa.". Novamente, seguindo a regra de fazer isso com a menor quantidade de falas possível.

Otimizado é um bom termo em questões narrativas.

Mas ao mesmo tempo que sua narrativa é excelente e enxuta, o filme gasta muita energia em não se vender como uma coisa séria. Várias cenas longas são dedicadas mostrando pouco mais do que muppets fazendo trapalhadas e quando a ação engrena as trapalhadas resolvem as cenas de ação.



Star Wars não tem vergonha de passar vergonha e suas melhores cenas de ação parecem ter saído de um filme B (ou da primeira temporada de Doctor Who com o Eccleston) e isso é lindo, isso é divertido. Dá pra sentir o quanto os atores se divertiram fazendo aquilo - e quantas vezes tiveram que regravar as cenas devido a interrupções de risos - e daí que vem o imenso carisma de seus personagens.

Han Solo só é um grande personagem porque não tem como imaginar que o Henrison Ford não rachava de rir lendo o script daquela canastrice toda e a princesa Leia funciona porque a Carrie Fisher não tinha vergonha de mandar o decoro feminino as patavinas e "daqui essa arma que eu mesma me salvo, bando de enrolões!".

Essa rodadinha não faz nenhum sentido,
justamente por isso é genial
Pelo mesmo motivo o vencedor do Oscar, Alec Guiness (Obi Wan Kenobi) é o pior ator do filme porque ele parece estar lamentando a dignidade perdida ao ter que fazer uma pelicula de tão pouca seriedade para pagar as contas do mês.

A mesma dedicação pode ser notada em George Lucas e na equipe de efeitos visuais que parece claramente ter virado noites em claro preparando os props para os aliens, robôs absolutamente nada funcionais e para as batalhas espaciais mesmo que ficassem um pouco toscas eram engraçadinhas de se olhar.

Essa é a coisa mais importante sobre Star Wars: saporra não é séria, ela é divertida! A cidade porto de Mos Eisley é descrita como "o pior antro de vilania e escória da galaxia" e se não fosse o Obi-Wan dizendo isso eu esperaria que a frase fosse completada com um "seus patifes sujos" e uma cuspida no chão. A cena da cantina em seguida não deixou minhas expectativas serem frustradas.

Foi por isso, inclusive, que na versão remasterizada do filme George Lucas alterou para Han Solo não atirar em Gredo primeiro. Porque não é esse o espirito da coisa, não é esse o clima que o filme quer passar e eu concordo 100% com essa alteração.

Admita que você também ouviu o "Uh! Uh uh uuuuuuuh!
na sua cabeça
E essa é a parte em que parece que pouca gente viu realmente Star Wars. Star Wars é simples em sua essência (o Império é descrito como "mau" na abertura, não tem como ser mais simples que isso), mas acima de tudo é absurdamente ruim e ridículo. JUSTAMENTE essa é a graça da coisa toda, o quão ridícula e entretenimento a coisa toda é.

I imagined that A New Hope would revolve around the noble young hero Luke Skywalker, defending the galaxy from his evil (unbeknownst to him) dad, all while sporting a feathered haircut and martial arts outfit. But instead, Luke is an angsty, restless teenage boy. Luke whines about having to do his chores before going out with his friends. Luke sulks at the dinner table when his aunt and uncle nag him. Luke storms off and stares longingly into the wind at a binary sunset. Our hero has a curfew! Throughout A New Hope, Luke is a sweet, well-intentioned, overeager kid play-acting at being a hero, and I love it. When Leia asks him, “Aren’t you a little short to be a stormtrooper?” he responds, “I’m Luke Skywalker, and I’m here to rescue you!” Aww, Luke!

Quando você inspirou o poderoso Satan Goss (que tem o
poder de enfurecer os monstros e torna-los em seres
incontroláveis), algo certo você fez.
As atuações são medonhas (das grandes injustiças da história do Oscar, o elenco de Star Wars não ser premiado não é uma delas), a trama beira o non-sense (não preciso entrar em maiores detalhes de como a Estrela da Morte foi derrotada) e 3/4 do elenco são anões vestindo fantasias de borracha (houve uma recessão de anões desempregados sem precedentes quando a trilogia clássica terminou de ser filmada).

Até hoje eu não entendo como cada raça fala na sua língua e todo mundo se entende, mas está tudo bem, eu amo ridículo e divertido.

A história é agradavelmente despretenciosa e despida de qualquer tipo de "mensagem"
No fim o bem vence o mal, espanta o temporal e todos ganham medalhas! Yay!



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