sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Star Wars III: A Vingança dos Sith (ou o filme que George Lucas esperou 30 anos para fazer)

Seguindo nosso flashback sobre as origens de Darth Vader e do Império Galáctico antes de retornar a conclusão da saga, hoje falaremos sobre o último filme da trilogia nova.

Eu já repeti algumas vezes que o George Lucas é um diretor bastante limitado: ele sabe fazer um único tipo de filme. No episódio II, Lucas tentou sair da sua zona de conforto para agradar os fãs "adultos" da série  e o resultado foi mais feio que encoxar a mãe no tanque.

Pelo seu conteúdo o episódio III teria que ser o mais sombrio de toda a série de modo que poderíamos esperar outro acidente de percurso de duas horas de duração. Surpreendentemente, no entanto, o filme deu certo.

Espera, o que? Como isso aconteceu? Como pode ter dado certo? Como George Lucas fez um filme bom fora da sua zona de conforto?

A resposta, meu jovem padawan, é que na verdade ele começou a fazer esse filme 40 anos atrás.

- A gente não devia ter avisado ao projetista que apesar de
imprático, um jedi consegue usar a força para fazer o míssil
fazer uma curva de 90o e acertar o reator?
- Tolice, meu aprendiz
KURUMADIZAR É VIVER

George Lucas é um forte adepto da "Kurumadização" (ato de inserir algo na história do nada apenas porque achou que ficaria legal) e fez isso com quase todos os elementos importantes de Star Wars. Darth Vader é pai de Luke? Kurumadizado. Luke e Leia são irmãos? Muito Kurumadizado. O lado da luz e o lado negro da Força não são sobre bem e mal, e sim sobre disciplina e impulsividade? Mega Kurumadizado.

Existem algumas coisas em Star Wars que George Lucas não inventou na hora porque "parecia legal" e sim estão lá desde o começo, desde os primeiros minutos do primeiro filme em 1977. A saber, a trágica história de Anakin Skywalker de mais promissor e brilhante jedi da Republica a um estranho pedaço de maquinário que nem respirar sozinho consegue.

Isso significa que Lucas passou trinta anos cozinhando essa  história na sua cabeça, aparando as arestas, polindo, deixando mais legal, fazendo funcionar.

Esse é o truque mais manjado de todo velho: na hora que ele
quer alguma coisa sua (tipo seu lugar no ônibus ou furar a fila)
é "ai, estou velho e frágil, coitadinho de mim, ai"
mas na hora de passar 8 horas de pé no muro cuidando da
vida dos outros ou virar a noite no bingo é "UNLIMITED
POWEEEEEEEEEERR!!!"
UNLIMITED PAUAAAAAAAAAAAAAA!

De um modo resumido, o episódio III segue as mesmas premissas do episódio VI porém tudo que o episódio VI faz o III faz melhor (embora o VI faça algumas coisas que o III não faça). Isso quer dizer que é um filme mais focado, mais denso.

Um dos objetivos do episódio VI é mostrar o Imperador como o grande vilão da série e embora ele faça isso bem, é aqui realmente que a figura sombria de Palpatine brilha (ou não brilha, pq é sombria... ba-tum-dss!) como um dos grandes vilões da história do cinema.

Como Palpatine manipulou brilhantemente o senado da Republica, jogando dos dois lados, para que eles por vontade própria lhe dessem poderes ilimitados como Pica das Galaxias governamental já seria o suficiente para lhe render uma salva de palmas, mas  não parou por aí.

O segundo passo de Palpatine foi corromper e trazer para sob o seu manto o mais talentoso e promissor jedi do conselho, o que o faz com sucesso.

Você poderia imaginar que apenas a fala mansa e a falsa inocência do futuro imperador já seriam suficientes para a corrupção de Anakin Skywalker e a verdade que apenas com isso já teríamos um bom filme. Para grande felicidade de todos, o roteiro é muito mais bem encaixado que isso.

Depois de Star Wars, Palpatine usou seu currículo para
ser líder de uma religião que faz tanto sentido quanto
os filmes do George Lucas
Vê, não é apenas Palpatine sussurrando no ouvido de Anakin, é toda uma conjectura de eventos que se alinham para criar a figura de Darth Vader. São os jedi sendo tomados pela arrogância, é Obi Wan tendo o jogo de cintura de um paladino medieval, é toda cultura jedi ter sido construída sobre uma mentira simplificante, é sobre Anakin ter sido obrigado a fazer uma escolha quando não estava pronto ainda e ter que abraçar a escolha precipitada que fez. Diversas coisas funcionam em harmonia para empurrar Anakin para o lado negro.

Se você for comparar, é um trabalho muito mais elaborado e bem feito do que o Língua de Cobra em Senhor dos Anéis, que usou a coisa da influencia de forma fácil e simplista. Sim, esse foi o dia que George Lucas foi melhor que Tolkien, turn down for what

A começar a própria definição de lado negro: os jedi basicamente dizem "é o mal, não vá lá, nem pergunte muito sobre isso!" e essa não é a verdade sobre o lado negro. Muito do que Palpatine diz a Anakin sobre o lado negro é verdade e aqui está um dos pontos fortes da trama: Anakin é seduzido com meias verdades, não com mentiras.

Se você cria seu filho apenas dizendo "nunca faça sexo, seus olhos vão cair e você vai para o inferno" os resultados serão bem mais catastróficos do que se você for sincero, explicar o que é a as consequências disso.

E essa foi a última vez que Padmé pediu 50 reais
para ir na manicure.
Então sim, o orgulho dos jedi que tinham suas verdades como verdades tão absolutas que sequer precisavam ser explicadas contribuiu muito com isso.

You see Star Wars has always been about binary, black-and-white morality. In the Original Trilogy, that works just fine. The good guys are plucky underdogs, and the bad guys are a fascist galactic empire who think nothing of blowing up a populated planet for shits and giggles. In the wider, more complicated world of the pre-Empire days though, things are, and should be, more nuanced.
While they might be merry old samurai hippies in the Original Trilogy, the organised, prolific, altogether more militarised Jedi of the prequel period are a hardcore conservative faction, incredibly rigid in their doctrine, code and methods. They are ubiquitous, unchallenged, and if anything, slightly too powerful. They have restrictions on sexuality, a strict religious code, make free use of mind control for ‘the greater good’, and enforce stoicism to the point of detachment. They demand utter devotion, are run by an oligarchy, and almost entirely cut themselves off from the outside world. Sound a bit cultish? It is.

The Sith, on the other hand, are staunch libertarians. They accept no oversight or control from the state, practice a self-centred philosophy, and value personal freedom over social responsibility. Both sides are arguably problematic in their own ways, their extremist attitudes to their own philosophies making all elements of their conduct potentially rather dangerous. Suddenly the simple, unambiguous lines between the Light and Dark sides are rather blurred. They’re binary opposites in terms of ostensible alignment, but in practice, neither is entirely good or bad. Wherever it stems from, extremism always tends to boil down the same way. And that really raises questions about ‘balance in the Force’.


Também ajudou muito Obi Wan que por mais bem intencionado que fosse em relação a Anakin, tinha a falta de tato e falta de jogo de cintura que mais atrapalhavam do que ajudavam. Se você já jogou RPG com um paladino no grupo sabe como as coisas tendem a serem mais difíceis do que precisam ser.

Darth Sidious... does he looks like a bitch?
O falecido mestre de Obi Wan, Qui Gon Jin, possuía a sabedoria necessária para treinar adequadamente Anakin como um jedi. Como isso nunca aconteceu (e Darth Maul acaba se provando um vilão mais importante para a série do que se supunha, afinal), Anakin foi treinado por Obi Wan que é um excelente guerreiro e... bem, termina por aí. Se Obi Wan tivesse mais tato, tivesse mais sabedoria e mais bom senso, nada disso teria acontecido. Mas ele não tinha e isso é uma das poucas coisas na qual o episódio II tem sucesso em deixar clara. 

Quando Obi-Wan faz o discurso clássico no final da batalha com Anakin, ele claramente não faz a menor ideia do que deu errado. Toda essa construção, todo esse momentum da sequencia de erros não veio do nada e sim foi montada de forma muito orgânica e inteligente nesse filme.

NOOOOOOOOOOOOOOO!!!

A maior dificuldade que Anakin tinha para superer neste filme, em termos cinematográficos, eram as limitações do ator Hayden Christiensen. Em nenhum momento da série até então nos havia sido dado muito para nos importarmos com o Anakin Skywalker dele e para sua sorte o roteiro é forte o suficiente para carrega-lo nas costas até os momentos decisivos do filme quando então uma coisa impressionante acontece: a atuação dele encaixa.

Um ator em uma tarde mais infelizmente simplesmente faria parecer que em algum momento Anakin apertou um botão e do nada virou um cara mau como um pica-pau. Para grande alegria do filme, não é isso que acontece.

Quando Anakin se torna um lord Sith e jura lealdade a Palpatine não é como se fosse "ok, virei mal, agora foda-se". Não. Ele parece terrivelmente assustado e desesperado, e ele só seguiu aquele caminho porque já que tava no inferno tinha que abraçar o capeta.

Isso é bom, isso é interessante, isso é humano. A maior parte dos fãs queria um Darth Vader (em sua forma ainda humana) terrivelmente malvadão e chutando bebes focas apenas porque sim, mas George Lucas e Hayden Christiensen entregaram algo muito melhor: um Darth Vader humano e confuso, jogado em um caminho que ele escolheu (e teve que tomar uma decisão final precipitadamente, no susto) mas que não ignora que tem consequências que vão contra tudo o que ele aprendeu e acreditou a vida toda.

Verdade seja dita, com dois bebes para criar eu não posso
condenar alguém que resolveu dar ragequit
Claro, não tem como negar que os estragos do Episódio II permanecem e tudo teria fluído muito melhor se a série tivesse nos dado alguma coisa para gostar ou nos importarmos no Anakin esse tempo todo. Como eu disse, o roteiro carrega toda a força que o personagem precisa mas se no lugar do Anakin tivesse um saco de batatas não faria muita diferença.

Foi bom, mas poderia ter sido brilhante.

AINDA TAUÓ, THO

O filme tem uma formatação estranha: ele tem um miolo sombrio e denso, sobre corrupção e descontrução de valores, mas começa e termina como a boa e velha comédia involuntária de ação que reconhecemos como Star Wars.

O filme começa com uma sequencia de ação que faz pouco ou nenhum sentido envolvendo um robô tuberculoso e R2D2 chutando bundas (tenho bastante impressão que tem outras coisas envolvidas, mas o R2 é quem importa de verdade).

Ok, ISSO é Star Wars. Com efeito, muitas das cenas de ação são impressionantes de um jeito bobo (você achou que tinha me derrotado mas AHA! Eu tenho mais braços!) e entretém em seu nonsense tradicional.

Agora a grande surpresa vem das cenas finais do filme em que todo o clima pesado e denso (a cena que os Jedi são traídos é pesada e linda) se mistura com o clima de trapalhadas de Star Wars com uma quantidade de acerto que poucas vezes Lucas acertou na vida.

O duelo de Anakin e Obi Wan é, de alguma forma, épico e bobo ao mesmo tempo. Enquanto exibem o melhor duelo de sabres de luz da série em uma luta carregada de emoção, pisam na cabeça de robôs que só estavam fazendo o trabalho deles e parecem muito confusos com o que está acontecendo ali.

E então chegamos a cena mais importante do filme, a cena que George Lucas e os fãs esperaram 30 anos para assistir: quando Anakin se transforma em Darth Vader do jeito que o conhecemos. Devo dizer que ninguém ficou decepcionado. O discurso de Obi Wan, a resolução da luta, a morte sem sentido de Padmé, tudo carregado de non sense sci-fi mas com muito peso emocional ao mesmo tempo.

Cenas que emocionam pelo peso de seu legado e pela qualidade do roteiro ao mesmo tempo que nos querem fazer rir pelo absurdo e non sense da cena. O momento em que Anakin coloca a mascara de Darth Vader pela primeira vez é épica e profunda, seguida por uma patuscada de dar risada. Epico e ridículo ao mesmo tempo, isso é Star Wars em seu melhor.



Infelizmente se o roteiro se esforçou para carregar a saga de Anakin com toda a força que essa merece até o final, o mesmo não pode ser dito de Padmé que por algum motivo virou uma completa banana nesse filme.

Nos episódios I e II ela é mostrada como uma mulher forte e independente, nos mesmos moldes que sua filha Leia, que prefere pegar a arma e arma e salvar a si mesma. Mas nesse filme tudo que ela faz é ser um objeto decorativo com pijamas pouco funcionais.

Eu entendi, ela esta gravida (em uma galaxia que possui viagens a velocidade da luz mas não ultrassom) e não pode sair por aí balançando em pilares. Mas quando Palpatine anuncia que democracia de cú é rola e agora saporra é o Império, tudo que ela faz é choramingar ao invés de gritar "Tomate cru é vitamina, como tu e tua prima!"

Ok, talvez não tivesse ajudado muito mas meu ponto é que a Padmé mostrada nos outros filmes teria feito ALGUMA coisa. Basicamente tudo que ela é faz da vida agora é choramingar "oh, Anakin, não". Alias já que estamos nisso, não tinha algo um pouco menos tosco para o Anakin surtar do que aqueles "sonhos proféticos" com a mulher? Não? Nadinha? Mesmo?

De toda forma, se trocassem ela por um saco de batatas com um bilhete colado ":wub do Ani" o efeito seria o mesmo.

Sim, eu sou um grande entusiasta das batatas no cinema.

Vindo de alguém cuja ideia de "esconder a relação" é agarrar
o cara a menos de 10 passos de todo mundo, não me
surpreende realmente
As for Padme? Imagine that relationship written plausibly. Imagine that Anakin isn’t a generically angry creep, and that Padme is an intelligent, but pragmatic human being, rather than a flighty robot-woman. Rather than repeatedly blowing hot and cold, and arbitrarily throwing out ‘But I’m a senator!’ (like that explains anything), Padme follows her heart, but the weight of Jedi disapproval weighs heavy on the relationship. Until, that is, the Jedi act to end it. Forget the nonsensical contrivance of Anakin’s ‘prophetic’ dream of Padme’s death. With oppressive Jedi disapproval clearly apparent, there’s already a much more sensible and meaningful catalyst for Anakin’s ultimate desertion. 

Em termos gerais o mesmo pode ser dito do Yoda. Ok, ele não venceu o Imperador quando teve a chance, mas aí simplesmente largar tudo e se meter no pântano indefinidamente? Ficou meio vago porque ele simplesmente desistiu, até um "estou velho demais pra isso" teria servido mas parece simplesmente que do nada ele parou de se importar.

Claramente tanto os arcos do Yoda quanto da Padmé não foram muito (para não dizer nada) pensados. Não durante 30 anos, pelo menos, e o ponto aqui é que George Lucas precisou de décadas de processamento para fazer algo bom fora da sua especialidade. Quando ele tentou o resultado foi esse (e todo o episódio II).

O episódio III de Star Wars é, tecnicamente, o melhor filme da nova trilogia embora eu ache o episódio I mais divertido (mais ou menos a mesma relação entre o episódio IV e V). De qualquer forma é um ótimo filme que entrega tudo que poderia se esperar de um prequel. George Lucas superou suas limitações técnicas através de anos remoendo as ideia em sua cabeça e o resultado foi glorioso.

PS: a legenda/dublagem brasileira cagou numa coisa muito importante. No final é dito para apagar a memória do dróide de protocolo e não dos dois, como ficou na versão nacional. O que quer dizer que RD (o verdadeiro herói da saga) sabia de tudo o tempo todo. 

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