segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Soredemo Machi wa Mawatteiru (ou o anime sobre os pensamentos de um cachorro, poko)

Soredemo Machi wa Mawatteiru pode não ter um nome particularmente inspirador ("E no entanto, a cidade gira" parece nome de filme europeu de três horas e meia sobre a câmera parada em uma rua) ou mesmo a melhor premissa do mundo: uma adolescente muito louca que trabalha em um maid café e apronta altas confusões com sua turminha do barulho.

Mesmo sem minha descrição a lá sessão da tarde, a primeira coisa que vem à mente seria uma colegial histérica cheia de "personalidade" em um festival de fan service e moe. Se você é como eu, provavelmente está imaginando algo assim:


Oh, quanta fofura e quanta "atitude", quanto... zzzzzz

Ah, desculpe, você ainda está aí? Só de olhar a imagem acima me deu um sono desgraçado. Não, nada disso. Soredemo não é isso, Soredemo é ISSO:

Soredemo Machi Wa Matteiru Ending - HD (with english lyrics) from Teclas on Vimeo.

"Agir como tsundere é um sinal de inteligência"?
"Se você estiver gripada vai sentir dores no parto" ?!?

E ela está tocando... uma gaita? Mas que porra é essa, bátima?!

Agora que tenho sua atenção, podemos começar.

O PIOR MAID CAFÉ DO MUNDO

Em primeiro lugar, é importante explicar o que é um Maid Café: é um tipo de cafeteria japonesa onde as garçonetes se vestem e se comportam como empregadas submissas da era vitoriana. Pareceu meio erótico descrevendo assim, mas esse não é o ponto aqui, o ponto é a fofura.

As maids são atendentes alegres e gentis, sempre preocupadas com o bem-estar dos visitantes e sempre fazendo seu melhor para que todos tenham uma boa experiência durante a estadia no maid café. O principal objetivo das maids é que os visitantes possam viver um momento diferente do cotidiano, sentirem-se queridos, valorizados, e possam levar muitas lembranças felizes desse momento especial.

Caralho, adiantei uns dez anos minha diabetes escrevendo isso. Seja como for, esse vídeo explica bem a experiência:



Que. Porra. Foi. Essa.?!?.
Não o Maid Café, estou falando do canal. Me dão licença enquanto me arrasto até uma injeção de insulina, puta que o pariu...

Caham, continuando, dizia eu que... que... caralho, até perdi a linha de raciocínio agora. Ah sim, dizia eu que isso é um Maid Café, e Soredemo versa sobre o cotidiano da excêntrica Hotori Arashiyama que é possivelmente a pior maid do pior Maid Café do Japão.

Ao contrário do que você poderia esperar da premissa, não existe nada particularmente fofinho, kawaii ou moe nesse maid café ou na estabanice de Hotori. Com efeito, o cardápio do Café é quase irrelevante porque a proprietária (uma velha rabugenta vestida de maid) vai servir o que ela tiver vontade de cozinhar (provavelmente, arroz com curry porque é o que ela sabe fazer) e café, o seu pedido é solenemente ignorado.

Como se "usa" um gato, exatamente?
Agora, escrever personagens excêntricos é uma tarefa absurdamente complicada porque um errinho em uma linha muito tênue e você tem ou um paspalhão sem noção como o Jar Jar Binks ou uma Mary Sue intragável como a Clara Oswald na sua primeira temporada de Doctor Who ou a Rey em Force Awakens. Eu não consigo estressar o bastante o quanto é fácil errar nesse jogo.

Em campos de anime, então, vixi, de excêntrica para "tsundere gritona" é um suspiro.

Tenho que deixar isso bem claro para valorizar o quanto a Hotori é o "excêntrica" do jeito certo, memorável, divertido. O tipo de pessoa que você adoraria passar tempo com ela e ter como amiga porque de um jeito simples e bastante crível ela faz tudo ficar mais divertido.

Eu não canso em enfatizar o quanto animes não são engraçados porque humor é uma coisa muito contextual e específica a determinada cultura e momento histórico (na nossa sociedade mesmo, o que era hilário 20 anos atrás, hoje, é apenas imbecil quando não ofensivo - por mais que as imitações de "bichinha" do Costinha fossem inspiradas, o tempo disso já passou). Por esse motivo traduzir humor de uma cultura quase alienígena a nossa, a japonesa, é algo muito raro de acontecer.

Mas Soredemo e a Hotori, principalmente, são engraçados. Hilariamente engraçados porque eles são engraçados a um nível simples e profundamente humano não importando se você é japonês, russo ou um inca venusiano. Em seu melhor, Soredemo é engraçado a um nível bobo e pateta no mesmo sentido que Chaves é (repare que eu não disse "era", eu ainda dou risada dessa bobagem) engraçado em seu humor inocente. Dica de vida: se você está sendo comparado com Chaves, algo muito certo você está fazendo.

Isso é o que acontece quando voce entra no quarto de um
garoto sem aviso prévio de meia hora.
Os episódios com o professor de matemática de Hotori (por quem ela tem uma queda adolescente) tendo úlceras sobre o quão ruim ela é em matemática são o exemplo do quão bom esse anime é em ser engraçado em situações improváveis cotidianas, porém não inverossímeis.

The episode where Hotori's teacher brings her the mystery of the six portraits is a great example of this - a character that is often cringe worthy in her apathy towards the mundane comes to life in the face of something genuinely bizarre and, for a moment, is actually pretty damn cool. It is odd to see such thought and empathetic potential put into a comedy character but I am really thankful for it. It adds an extra dimension to the show that only makes it funnier. 


Se alguma coisa, Soredemo se esforça pela simplicidade e sinceridade - não consigo lembrar de ter visto um anime tão simples e honesto no que se propõe a fazer que tira muito das menores e mais mundanas coisas. Isso é slice-of-life em seu melhor.

Porque além de ser uma comédia hilária, Soredemo também é um slice-of-life. Aliás "um" não, é uma aula de como se faz slice-of-life misturada com comédia, ainda por cima, uma receita para o desastre em animes que aqui funciona organicamente.

Em um dos melhores episódios do anime, onde Hotori ajuda o seu irmãozinho a ter seu primeiro encontro com uma menina ("argh, meninas!" no melhor estilo "Os Batutinhas") tem uma cena em que ela toma banho com o irmão.

Isso soa completamente ecchi e em um anime menos inspirado envolveria bastante vapor, narizes sangrando e alguém gaguejando. Ao invés disso, temos isso:


Não tem nada de pervertido ou safadeeenho nessa cena, são apenas dois irmãos tomando banho como acontece no mundo real (ainda mais numa sociedade sem as viadagens dos fundamentos cristãos enraizados como é a japonesa). O humor da cena não está numa tensão sexual patética, o humor da cena está na qualidade do diálogo.

Por algum motivo, os planetas se alinharam e ocorreu que Soredemo é um anime com muito bom gosto, mas, acima de tudo, timing que é a coisa mais importante para o humor. O anime sabe quando é hora de comédia física, quando é hora de humor situacional, quando é hora de trocadilhos (que, infelizmente, se perdem na tradução, mas não se pode ter tudo) e quando se deve apelar para o nonsense.

O último episódio tem uma única piada, e uma bem simples na verdade, mas tem um timing e uma construção tão perfeita que fica simplesmente deliciosa.

NÃO É UM EXERCITO DE UMA MAID SÓ

Hotori é de longe a coisa mais interessante do anime, mas não quer dizer que seja a única. Soredemo não é nem de perto um filme do Thor (também conhecido por "não dá para pular direto para a parte onde o Loki aparece") e todo o elenco coadjuvante tem um equilíbrio incrível entre manter o anime crível e serem personagens interessantes por si mesmos.

Sua melhor amiga (e colega maid) Toshiko, por exemplo, faz uma escada fenomenal que deixaria Dedé Santana orgulhoso. "Escada" é um termo usado no teatro de comédia para definir um ator secundário que entrega a piada para o ator principal completar e ganhar os aplausos, ele não tem a função de ser engraçado e sim de preparar a piada.

O já citado Dedé Santana fazia isso de forma magistral para os outros Trapalhões, o Murtaugh de Danny Glover arrasa fazendo isso para o Riggs de Mel Gibson e Toshiko tem uma competência raras vezes vista em animes.

Hoje eu estava lendo uma entrevista com Miguel Falabella que disse: "A dramaturgia do musical é bastante específica, possui cenas muito curtas, com piadas bem marcadas para entrar a música. Já a comédia permite alternâncias. Exige uma disciplina que o público nunca vai perceber, parece fácil, mas não é. Se você não entra no tempo certo sabe que perdeu a piada antes mesmo de fazê-la, assim como o jogador sabe que perdeu o gol antes da bola bater na trave. Fazer escada para outro ator é dificílimo e genial. Eu e Diogo fazemos isso o tempo todo em “A Gaiola das Loucas”. Tem que dar o tempo perfeito e se o jogo não for redondo, a gente dança."

Mas, antes mesmo disso, os coadjuvantes do anime são bem construídos nas mesmas premissas de honestidade e simplicidade, e sempre utilizados com parcimônia, nunca desgastando o personagem e sabendo a hora de parar.


Character interaction is everything in this show, and despite the often implausible events that occur in the series, the characters never feel implausible. Hotori and Toshiko as the funny/straight man combo is never boring. Sanada is very interesting and he could have been very well the star of his own show, Uki's dry wits, Hotori's lovely little brother, the clumsy owner of the antique shop etc., even Kon normality plays so well, chemistry is everywhere But there's nothing like the war of ideals between Hotori and her humorless Math teacher. Pure comedy gold in there.

MAS QUE PORRA FOI ESSA?

A característica mais questionável do anime é sua estrutura, que beira o nonsense. Funciona assim: cada episódio tem um "tema" citado poeticamente pelo narrador na abertura e seguido mais vagamente ainda pelo anime. Ênfase no "vagamente".

Cada episódio normalmente tem duas histórias curtas sobre o cotidiano que ronda o Seaside Café e o teor das histórias beira mais ou menos a aleatoriedade. Para firmar mais ainda sua bandeira na terra da aleatoriedade, o anime é entrecortado pelos pensamentos do que parece um guaxinim traumatizado (apenas depois da metade do anime descobrimos que o guaxinim na verdade é Josephine Joestar, a cadela da família Arashiyama).

E quando voce se acostuma com as interrupções aleatórias de Josephine, o anime a substitui por algo mais vago ainda como as mini piadas do Sr. Rico e do Sr. Pobre. Eu entendo que essa randomicidade tem como objetivo quebrar o ritmo e manter o espectador esperto, mas de toda forma eu me sentiria mais confortável se eles se esforçassem menos nesse aspecto.

O anime também não tem uma história macro e enquanto há evolução nos personagens, o conjunto de pequenas aventuras da galerinha do café não leva a lugar narrativamente nenhum mais do que tirinhas do jornal de domingo. O quanto assistir pequenos contos sem um objetivo maior vai te divertir é algo que varia inteiramente de pessoa para pessoa.

VAMOS AO CENTRO DA CIDADE SER FELIZES

Grande parte dos créditos da qualidade da série vão para sua competência visual não apenas por ser bonito, como ser usado para construir o ambiente. O anime sabe ser hilário ao ser intencionalmente dramático com coisas absolutamente triviais.

Em algumas cenas, é impossível distinguir se uma xícara de café será servida ou se uma batalha épica pelo destino derradeiro da humanidade está prestes a começar e, como quase tudo no anime, o tom e o timing são muito acertados para ser engraçado pelo exagero.

Isso faz um pouco mais de sentido quando vemos que o anime foi produzido pelo estúdio SHAFT e dirigido por Akiyuki Shinbo, a mesma parceria que criou o excelente Madoka Magica. Não deixa de ser realmente incrível ver o estúdio usar as mesmas pirotecnias visuais que usou para ilustrar uma batalha épica sobre desconstrução de conceitos e a entropia do universo... para ver Hotori formar uma banda de maids para o festival do colégio.

Faz parte da comicidade do anime. Como se o conceito visual de Interestelar fosse usado para contar "O Grande Lebowski", apenas de zoeira.


Esse anime faz tantas coisas certas que, com exceção de alguns problemas de ritmo e quando Soredemo se perde na sua aleatoriedade autista, não há como não recomendar o bastante esse anime que consegue te conquistar por sua simplicidade, te fazer rir como poucos animes fazem e te emocionar em seu episódio final mesmo não tendo uma "história" propriamente dita. Muitas séries e animes muito mais complexos e pretensiosos do que esse sequer chegaram perto.

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