domingo, 27 de dezembro de 2015

Shenmue (ou o "The Homer" dos videogames)

Os Simpsons tem um dom muito único de olhar dentro da própria essência de nossas almas de classe média ocidentais e fazer piada com verdades que todos sabemos que estão lá, mas ninguém comenta sobre o assunto (faz tempo que não acompanho a série, não sei se ainda faz isso). O episódio da Malibu Stacy é um destes casos, mas hoje venho aqui vos falar de outro caso bastante interessante: o "Homer".

Em 1991, logo, na segunda temporada da série, tem o episódio "Oh Brother Where Art Thou" em que Homer descobre que tem um meio-irmão perdido Herbert Powell (dublado por Danny Devito) que por um acaso é um magnata da indústria automobilística.

Herbert sente que seus engenheiros perderam o contato com o cidadão comum e decide dar carta branca a seu irmão Homer para projetar o carro dos sonhos do homem cotidiano. O resultado é um desastre: Homer vai apenas empilhando ideias aleatórias que ele tem sem pensar nas consequências e o resultado é um monstrengo nada funcional, caro demais, e que nem ele mesmo quer. Com o fracasso e os custos de produção, Herbert vai à falência.



Na internet é muito comum encontrar pessoas construindo o seu próprio "The Homer", criando monstrengos da boca pra fora nos quais elas nunca pensaram bem a respeito, mas apenas parecem legais a elas de primeira vista.

Separatismo, volta do regime militar, liberação da posse de armas de fogo na rua são todos pequenos "The Homer" nos quais ninguém quer realmente viver (nem o defensor da ideia), mas as pessoas falam mesmo assim porque nunca pararam para pensar direito no assunto. Em uma das melhores cenas da história da televisão, o Doutor toca nesse exato ponto: "Suponhamos que você vença, certo. E daí para frente, como vão ser as coisas? Como vai funcionar e quais serão as implicações disso? O que você está propondo é um mundo onde você realmente já parou para pensar se quer viver nele?".

Mas você sabia que os videogames já tiveram o seu "The Homer"? E que agora em 2015 o kickstarter arrecadou mais de SEIS MILHÕES DE DÓLARES para ser trazido de volta?


Oh no, todos esses videogamu bosta encalhado, né?
Se ao menos pudesse transformar em colegial catgirl, né?
ENQUANTO ISSO, NO ANO DE 199X ...

Era 1999 e a SEGA enfrentava uma sangria desatada (nunca entendi realmente o que isso significa, imagino que tenha algo a ver com receber pontos, enfim) em suas finanças e nada do que eles faziam dava retorno suficiente. Bem, em grande parte era porque eles não faziam muitas coisas direito, mas outra parte era porque  eles estavam brigando com cachorros grandes demais.

No começo dos anos 90, a SEGA conseguiu tirar algumas cartas da manga e apelou para muita publicidade para lutar contra a Nintendo mesmo sem ter bons jogos. Sonic, sua grande arma, era um fracasso como jogo, mas havia sido carregado nas costas pelo marketing.

Mas sabem o que eles dizem: o mesmo golpe não funciona duas vezes contra um cavaleiro (apesar de ser assim que eles lutam, repetindo o mesmo golpe de novo e de novo). Naquela época, a marca SEGA ainda não carregava nostalgia nenhuma, estava muito quente na paleta de todos o quão desapontador era ter um Mega Drive e não um Super Nintendo.

Para piorar as coisas para o lado da empresa, entrou no jogo uma concorrente do tamanho de um paquidermessauro: a Sony. A Sony era tão grande, tão mais imensamente maior do que a SEGA e a Nintendo JUNTAS que apenas a divisão de games da Sony (uma fração pequena da empresa aquela altura) colocava as duas no bolso.

Vendo a campanha de marketing da SEGA, fica um pouco
mais fácil não sentir pena do fracasso deles.
A Nintendo usou muito talento e criatividade com seu Nintendo 64 (e, posteriormente, o Gamecube) para se manter viva contra o bicho-papão que era o Playstation. A SEGA não tinha nenhum dos dois.

Para adicionar insulto à injúria, programar para seu SEGA Saturn (o sucessor do Mega Drive e competidor contra o Playstation e o Nintendo 64) era difícil de programar como arrancar um dente usando hashis.

Diante disso a SEGA tentou uma última cartada desesperada: mandou o Saturn para o cemitério mais cedo e adiantou o seu sucessor, o Dreamcast. Diante disso, a SEGA agora tinha uma máquina no nível do Playstation 2 competindo contra o Playstation 1. Uau, o que poderia dar errado? Quer dizer, o que o Dreamcast não tinha para lavar o chão com o PS1?

Jogos. O Dreamcast não tinha jogos...

"I have a dream... cast" - Martin Luther King Jr.
E é aqui que entra o "The Homer". A SEGA quebrou o seu cofrinho e enfiou mais de cem milhões de dólares (nos valores de hoje) nas mãos de Yu Suzuki para criar uma pérola que salvasse o Dreamcast e a própria SEGA, que aquela altura sangrava aos borbotões gamisticamente. A SEGA queria que Yoshimoto fizesse por ela o que Shigeru Miyamoto fez pela Nintendo nos anos 80 com sua santíssima trindade Mario-Zelda-Metroid.

Mas quem era Yu Suzuki? Ora, ninguém menos do que o responsável por OutRun, After Burner e Virtua Fighter. Não, a SEGA não tinha um Miyamoto dando sopa, mas esse era o melhor que eles tinham. Então eles abriram as burras de dinheiro e disseram a Suzuki: "nos faça um jogo que faça as pessoas quererem comprar um Dreamcast apenas para jogá-lo!".

Mal sabiam eles que haviam acabado de encomendar o seu "The Homer". Shenmue.

UM JOGO DE CAIR O QUEIXO. LITERALMENTE.

Em suas 20 a 30 horas de gameplay, é garantido que na maior parte delas você ficará de queixo caído. Perplexo diante do que é esse jogo. Sem mentira.

Shenmue tinha um objetivo muito ambicioso: criar uma cidade virtual onde você pudesse viver nela. Ter um emprego. Os NPCs (mais de 300) tem suas próprias agendas em função da hora do dia (o sr. Miyagi passa o dia no banco da praça da das 14h as 18h, por exemplo). O objetivo era construir um jogo que você pudesse "viver" a realidade dele.

Sabe Second Life? Pois é, provavelmente não, mas então, a ideia era essa. Em uma época que os jogos pareciam com isso, era uma ideia muito ambiciosa MESMO.

 

Para adicionar profundidade a sua cidade, a Yu criou o então chamado sistema FREE (Full Reactive Eyes Entertainment), em que você tem liberdade quase total para xeretar todas as coisas da cidade. Tá vendo aquela gaveta? Você pode abri-la. Tá vendo aquele interruptor ali? Você pode ligar/desligar. Tá vendo aquele cesto? Você pode abri-lo.

O jogo se passa na cidade de Yokosuka em dezembro de 1986 e tomou o cuidado de replicar exatamente o clima de cada um dos dias do mês de dezembro daquele ano. Se choveu em 10 de dezembro de 1986 em Yokosuka (a cidade real), vai chover no dia 10 de dezembro no jogo, e por aí vai. O jogo tem uma quantidade de detalhes impressionantes para a época, até mesmo para os padrões de hoje.

Mas não foi isso que me fez cair o queixo.

Yu Suzuki tinha uma missão: torrar 100 milhões
de dólares como se não fosse da conta de ninguém.
O TIOZINHO JAPONÊS DOS ANOS 80 SIMULATOR

Se tem algo que Shenmue faz bem é construir a atmosfera do jogo. Eu nunca estive em Yokosuka em 1986, mas me arrisco a dizer que a sensação deve ser bem essa mesmo. O clima pacato, a sensação de estar na ala de geriatria de um asilo de luxo, a tranquilidade da vida na região metropolitana de Tóquio dos anos 80.

A trilha sonora, a tranquilidade, tudo te faz entrar no clima e sentir pontadas de artrite enquanto tem vontade de preparar um chá para tomar no banco da praça assistindo os pombos.

Mas hey, enquanto ser um idoso japonês pode ser a experiência de vida que faltava para muitos, não é isso exatamente que faria a SEGA sair da M em que estava e se tornar um dos maiores jogos de todos os tempos, certo?

Ah não, senhor, e por isso a pasmaceira de Yokosuka é quebrada num dia chuvoso quando  um chinês misterioso chamado Lan Di e seus homens invadem a academia Hazuki perguntando pelo "Espelho do Dragão". Para proteger a sua família dos invasores, o pai de Ryo Hazuki revela a localização do espelho para o estranho, para então ser morto do mesmo jeito por golpes de kung fu diante do olhar impotente de seu filho.

Ryo então está determinado a desvendar o que aconteceu, quem é Lan Di, o que é o "Espelho do Dragão" e porque ele assassinou seu pai para então ter sua vingança. Se isso parece um roteiro genérico de filme de kung fu que passaria na Band na "Sessão wuchuuuu" ou algo que o valha, é porque é mesmo.

Ok, pode não ser a ideia mais original do mundo, mas originalidade é o de menos quando você pode sair por aí e dizer "Seu kung fu é fraco, agora terei minha vingança", certo? Até onde os videogames vão, é uma proposta muito válida.



Quer dizer, muito legal, certo? Mas ainda não foi isso que me fez cair o queixo.

O JOGO MAIS REALISTA DE TODOS OS TEMPOS

Shenmue é, sem medo de errar, o jogo mais realista de todos os tempos. Foi isso que realmente me fez cair o queixo durante vinte horas, eu simplesmente não conseguia acreditar no que estava vendo. Só que talvez não da forma que você esteja imaginando


Como já especificado, o objetivo primário de Ryo é descobrir a identidade e o paradeiro do assassino de seu pai. E como ele faz isso? Ora, ele faz da mesmíssima forma que você faria: sai perguntando pela vizinhança se alguém viu algo estranho no dia do assassinato.

Depois de dar um rolê pela vizinhança perguntando, encontra uma menininha cuidando de um gatinho orfão cuja mãe foi atropelada por um carro fugindo em alta velocidade no dia do assassinato. Mais um rolê pelo bairro e algumas pessoas te dizem para falar com dona Fukushima, que passa o dia na varanda vendo o movimento. Dona Fukushima diz que naquele dia não viu nada porque estava chovendo, mas quem sabe o dono da peixaria (que estava aberta) tenha visto algo. O dono da peixaria diz que realmente viu um carro preto dirigindo muito suspeito e atropelando a gata no dia do assassinato. Então, você toca a sair pela cidade perguntando pelo tal carro preto e alguém te indica alguém que ouviu falar de alguém que viu alguém conversando com alguém... ok, me perdi, mas a 15a pessoa da cadeia de pessoas viu que o motorista do carro era um chinês (porque asiáticos conseguem se diferenciar entre suas etnias, é um dom impressionante).

Aí você toca a perguntar pela cidade se alguém viu um chinês e...

Entendeu o ponto aqui?
ESSE é o jogo.
TODO o jogo.

Sem mentira, sem exagero, sem hipérbole é isso. De verdade. Se parece que eu estou debochando do jogo ou fazendo troça, parabéns. Você conseguiu entender minha verdadeira reação ao "jogar" esse jogo. Quer dizer, quê? Como? ESSE é o blockbuster de cem milhões de dólares que salvaria a SEGA? Quer dizer, alguém colocou cem milhões de dólares NISSO? Uat? Como? Por quê? Shenmue mal é um jogo, quiçá um jogo BOM. Daí para ser um blockbuster de cem milhões de dólares, eu devo estar em algum tipo de realidade paralela que ninguém previu isso como uma péssima ideia.

Eu, eu, eu... eu estou sem palavras. Eu não sei nem por onde começar.
Eu estou quebrado. Fui derrotado em meu próprio jogo. Shenmue sequer tem uma classificação como jogo. Ele não é um adventure porque não tem puzzle nenhum ou qualquer desafio intelectual, não é um RPG porque não tem nenhum sistema de combate (até tem, mas é como se não tivesse, já chego nisso), não é um jogo de ação... não é nada! NADA! Apenas um "walking simulator" e deu. E DEU.

Meu único consolo real é que pelo menos não pode ficar pior que isso. Quer dizer, não pode, não é? Diga que não pode, por favor, diga que não, eu nunca te pedi nada, apenas diga que não fica pior que isso!

...

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E FICA PIOR QUE ISSO

Como eu disse, Shenmue prima pelo realismo em seu jogo. Verdade que se fosse eu, você ou Ryo que precisasse fazer uma investigação não seria muito diferente disso. Ok, eu entendi essa parte, mas só porque é realista não quer dizer que seja legal ou minimamente divertido.

Sabe por que Hollywood exagera e mente tanto sobre investigações policiais? Sabe por que você nunca vê os heróis comprando suprimentos em um filme de aventura e negociando detalhes irrelevantes? Sabe por que os programadores em filmes sempre digitam furiosamente em uma batalha virtual ao invés de passarem a noite acordados lendo códigos fonte procurando erros?

Porque todas essas coisas são chatas, maçantes e desinteressantes. Por que eu iria querer um jogo de 30 horas sobre falar com o milésimo senhor Fumido? Apenas por quê?

Não me entenda errado, eu não tenho problema com ritmo lento. Eu adoro slice of life e gosto de visual novels. Eu posso assistir um anime sobre jogar conversa fora ou ler um jogo 20 horas sobre o cotiadiano na escola, mas existe um limite do quão "comum" o comum pode ser. Eu posso lidar com uma série sobre uma maid estabanada servindo seus clientes em um maid café, mas não me faça assistir 5 horas dela descascando batatas em silêncio toda manhã.

Se vai me fazer ficar trinta horas andando nessa cidade, me atire um osso. Me dê algo para aliviar a dor. Me dê uma boa história, me dê personagens interessantes, me dê diálogos bem escritos, me dê um gameplay divertido, QUALQUER COISA. Shenmue não te oferece sequer um copo  d'água.

Existe um limite sobre o quão real o realismo pode ser. Existe uma tolerância sobre o quanto o "comum" pode ser comum e ainda ser considerado entretenimento e Shenmue avança essa linha como um motorista brasileiro que viu um sinal amarelo.

Mas bem, ao menos, não é como se o jogo quisesse que você tenha um emprego de verdade nem nada, certo? Certo...? Quer dizer... certo?!?

Em determinado ponto (pouco depois da metade do jogo) você precisa viajar para continuar suas investigações, e para viajar você precisa de dinheiro. E como você consegue dinheiro neste universo uber realista? Trabalhando, é claro.

Não, não, não, não. Não um "mini game" sobre trabalhar como em Mass Effect, não senhor. Isso já seria chato como o cão, mas não seria realista, certo? Bem, o que poderia ser pior que escanear planetas em Mass Effect? Que tal um emprego nas docas de 8 horas por dia movimentando caixas, heim?

Ok, eu entendo que a sensação de ter um emprego que você detesta e não vê as horas passar, mas está nele porque precisa da grana é bastante realista, eu inclusive faço isso para poder comprar jogos. Então porque eu iria querer isso em um jogo? E não como um evento, mas como um compromisso de tempo real? Por quê? Sério, em que momento alguém decidiu que ser um estivador 8 horas por dia era a saída perfeita para tornar esse jogo interessante?



QUAL É O MALDITO PROBLEMA DE VOCÊS? O QUE TEM DE ERRADO COM ESSA GENTE? NO QUE ELES ESTAVAM PENSANDO? SÉRIO, APENAS ALGUÉM ME DIGA QUE ISSO NÃO É REAL!

Ok... sério... eu não tenho palavras para descrever isso. Eu não sei porque tem um jogo sobre o tédio de ser um trabalhador assalariado, mas aqui está ele. Ele apenas existe. Eu vivo em um mundo em que existe um jogo em que metade dele é sobre ter um emprego chato. Sinceramente, eu não sei mais como continuar, não tenho mais forças.

Minha única esperança é que agora é o fundo do poço, certo? Chegamos tão baixo onde dá para chegar, correto? Não, sério, tem que ser o fim da linha, não é?

...

...

Mas é claro que não é. Óbvio que não é. Porque seria, não é mesmo?

WALKING SIMULATOR 99

Quando você não está tendo um tedioso trabalho braçal diário, sua vida no jogo se resume a andar por aí e falar com as pessoas. Bem, isso é TODO o jogo, ao menos essa parte eles fizeram direito, certo?

Se você acredita nisso então claramente não percebeu um padrão por aqui.

Em primeiro lugar, "andar" é uma dor tangível nesse jogo. O jogo mistura o sistema de "tanque" de Resident Evil com a movimentação livre  o resultado é que não é nenhum nem outro e cantos são seu maior nêmesis nesse jogo. Sem mentira, após dezenas de horas de jogo, controlar Ryo não se torna nem um pouco mais natural ou agradável, no máximo suportável. Eu já joguei videogame o bastante para saber que enroscar o seu bonequinho na parede depois de 20 horas de jogo é sinal de que tem algo fundamentalmente errado com esse jogo.

Why wasn't it successful? For starters, many gamers were turned off by the glacial and deliberate pace. As mentioned above, there's a fantastic world to explore, but it very quickly runs out of interesting things to do. Another huge turn-off were the controls. Ryo moves around clumsily like a robot. And whose brilliant idea was to control him with the digital pad only? The analog stick would've been the ideal choice, but it just makes the protagonist look around. The L trigger makes him run, even without using the pad, which only makes it more awkward. Sure, it isn't unplayable, but one have to master the art of walking around to avoid falling in Ryo's most dangerous enemy: a corner. Moving a character, being one of the most basic things in almost every game, shouldn't be that difficult.

Por algum motivo usar o analógico para andar e sim o direcional digital pareceu, sei lá, não realista o suficiente para os criadores e mesmo que a resposta dos controles fosse boa, isso já seria um cu. Para surpresa de ninguém, a resposta dos controles não é boa.

No mínimo, três horas andando a noite perguntando onde
encontrar marinheiros de bobeira. Esse jogo é sobre um fetiche
muito específico para dizer o mínimo.
Eu não tenho palavras para explicar o quão desagradável andar é nesse jogo, apenas que falar com as pessoas é pior que isso (o que também é muito realista, falar com as pessoas realmente é uma das atividades mais desagradáveis possíveis).

Para começar, a população de Yokosuke e o próprio Ryo tem a personalidade de uma caixa de papelão molhado do tipo que os NPCs de RPG do NES dos anos 80 se sentiriam ofendidos. Sabe o bonequinho que fica parado na entrada da cidade e diz "Bem-vindos à cidade X" não importa quantas vezes você fale com ele? Shenmue é sobre estar preso com 300 desses bonequinhos.

Alguns são até involuntariamente engraçados porque está em seu script não falar com Ryo em determinadas horas do dia, então ele apenas diz "não posso falar com você, estou muito ocupado agora" e fica ali parado, olhando para o nada. Com efeito ele diz isso, por exemplo, se você falar com ele das 13h as 17:59. A partir das 18h ele magicamente fica desocupado.

Sério, esse jogo tem tanta falta de personalidade em seus NPCs de duas falas que faz os lançamentos anuais de Assassin's Creed parecerem tratados sobre a existência humana.


Se você chegou ao final do vídeo sem pegar no sono, um médico deverá ser consultado.

Você deve ter notado no vídeo acima também que a dublagem se esforça muito para ser a mais tediosa e genérica possível. Com efeito, acredito que apenas colocar um aluno do ensino médio brasileiro lendo teria resultados piores.

Andar e falar. Apenas duas coisas, duas coisas apenas esse jogo faz e ainda consegue fazer errado e frustrantemente. Sério, gente, não tem explicação um negócio desses. Cem milhões de dólares e nem isso eles fizeram direito. Nem andar e falar. Cem milhões de dólares.

Quer dizer, tipo Fallout 4. Fallout 4 tenta fazer duas coisas (ser RPG e um FPS) e faz ambas muito mal, mas, ao menos, o que Fallout 4 tenta fazer são coisas complexas. Shenmue falha no básico do básico do básico, tipo respirar e piscar. Como isso é sequer possível?

"Novinha, não importa o que o Kuwabara aqui fez, eu não
tenho personalidade o suficiente para dizer algo legal nessa
cena."

ACHO QUE VOCÊ JÁ NOTOU UM PADRÃO AQUI, MAS...

Desnecessário dizer que a história, com o tesão de ser redigido pelo serviço público brasileiro com a qual é contada, não vai a lugar nenhum também. Ryo levanta alguma informação básica sobre a máfia chinesa a qual Lin pertence e vai embora de Yokosuke... e o jogo termina. Não tem confrontação, não tem clímax, não tem epílogo, não tem sensação de progressão ou de ter atingido nada, nem sequer um gancho para o próximo episódio.

It doesn’t sound too interesting and it never gets very interesting because even at the end of the game, the plot isn’t resolved, since Shenmue will have sequels continuing the story. I find that argument unacceptable; after putting in hours of work, I got an ending that made Legacy of Kain: Soul Reaver’s look good (considering it was a better playing game). The plot never takes off the ground and it seems Mr. Suzuki thought gamers would rather have a billion “mini-games” rather than real plot progression or gameplay. All in all, a poor plot with no real climax.

Sim, próximo episódio, porque Shenmue era para ser uma série originalmente prevista para ser contada em DEZESSEIS jogos. Eu não estou de zoeira, não estou de sacanagem, embora o criador dessa porra sem nenhum contato com a realidade certamente estivesse.

Imagine outros QUINZE jogos dessa série para contar uma história de "Sessão Kickboxing". Um jogo só com essa historinha mequetrefe já seria forçar a amizade, mas DEZESSEIS?

Watch out! We've got a kung fu badass over here!
Nem Peter Jackson é tão sem noção assim e a esse ponto eu já desisti de entender que problemas mentais acometem o Yu. A boa notícia é que como Shenmue foi um fracasso nas vendas (apenas para PAGAR A PRÓPRIA PRODUÇÃO CADA DONO DE DREAMCAST DEVERIA COMPRAR DOIS JOGOS) e, ao invés, de 16 jogos a SEGA mandou apurar o passo e Shenmue 2 engloba os episódios 3-6 (o episódio 2 ficou de fora, mas como Ryo começa o jogo chegando em Hong Kong, imagino que a ideia era fazer um jogo inteiro só passeando no barco).

Novamente eu não posso estressar o bastante se acho mais maluca essa ideia estúpida (que facilmente compete para pior ideia da história dos videojogos) ou quem enfiou cem pacotes de grana na mão desse cara no mínimo deveria pintar as paredes com fezes (e nem eram as próprias).

OK, AGORA ACABOU, AO MENOS PIOR QUE ISSO... NÃO... QUER DIZER... NÃO...

Sério, eu vou parar de dizer "ao menos não fica pior que isso" porque sempre fica. Eu não sei como eles conseguiram, mas fica. Em algumas ocasiões bem raras, tem alguma ação no jogo porque Ryo vai em um beco muito barra pesada ou porque uma criancinha vai ser atropelada por um carro.

E por ação eu quero dizer QUICK TIME EVENTS. Aham. Isso mesmo. Sabe um dos cânceres mais irritantes que apodrece os videogames desde Resident Evil 4 ou God of War? Pois é, essa desgraça foi aqui que se popularizou. Em termos de jogos, Shenmue é o paciente zero que espalhou um vírus que tornou os jogos muito piores até os dias de hoje.



Certo, porque esse jogo já não era ruim o bastante e como se não tivesse meios desse jogo ficar pior. Eles elevam isso a um status de arte. Desafia a lógica, a capacidade humana, desafia as próprias leis da física esse jogo!

Sabe o que é pior? O que é pior MESMO? Shenmue tem algumas lutas de verdade, e são divertidas. O jogo usa a engine de Virtua Fighter, as lutas do jogo são ok... mas foco aqui é em ALGUMAS. Algumas do tipo UMA em CINCO HORAS de jogo. Porque é claro que se o jogo faz alguma coisa certa, e a luta é um desses raros momentos (durante todos os 5 segundos que elas duram), é claro que ele vai acontecer tipo no máximo 5 vezes durante trinta horas de jogo.

Ao menos dez milhões do orçamento do jogo foram para
formar o comite "Hm, como podemos deixar esse jogo pior?"
Claro, óbvio, naturalmente.
Claro que tinha que ser assim, óbvio que tinha que ser assim! Que dúvida que seria assim!!! PUTA QUE PARIU! VAI TOMAR NO CU DE BURRO COM PIMENTA!

A NOBRE VIRTUDE DE ESPERAR O NADA

Muito da cultura japonesa é sobre paciência. Yu Suzuki quis demonstrar isso enchendo o jogo de absolutamente nada acontecendo e mais uma vez eu não estou sendo hiperbólico aqui.

Lembra que eu disse que o jogo tem seu próprio horário e os NPCs seguem suas agendas. Digamos que você queira falar com o tatuador, mas o estúdio de tatuagem só abre a partir das 19h. Só que agora são tipo 10h da manhã, o que fazer até lá?

A maior parte dos jogos modernos que lida com esse sistema tem ao menos um sistema de espera para passar o tempo, mas aqui sentimos Yu Suzuki nos cutucando nas costelas e dizendo "Mas a vida real não tem outra escolha senão esperar, isso é realismo, entendeu, realismo cara!". Sim, Suzuki, eu entendi.

Então, uma boa parte da sua já não divertida experiência em Shenmue não será andando, nem falando, nem fazendo QTE (graças, ao menos isso), mas sim apenas esperando o tempo passar. Como na vida real, eu sei Suzuki, eu sei.

Jogar um arcade dos anos 80 que entretém por 5 minutos é
um dos pontos altos do jogo. E se você bater o recorde, Ryo
ganha o jogo para levar para casa e jogar em seu Saturn...
... em 1986.
Os fãs mais exaltados de Shenmue nesse momento estão se contorcendo - não porque não tenham gostado do que eu disse, mas porque até agora não tinham nenhum argumento para revidar apenas fatos - para dizer que isso não é verdade, existem dezenas de coisas para fazer na cidade de Shenmue e gastar centenas de horas de diversão enquanto você espera pelo jogo não divertido continuar.

Sim, você pode gastar seu suado dinheirinho em alguns tipos de bobagens como minigames enfadonhos de dardos, bilhar, queda de braço e etc. Nada que já não tenha visto em GTA (sabe aquelas coisas que você absolutamente caga para elas no jogo? Essas mesmas) só que pior. E sim, também tem arcades de jogos antigos da SEGA do próprio Yu Suzuki como Hang On e Space Harrier.

Também tem uma miniquest sobre criar o tal gatinho órfão e colecionar bonequinhos da SEGA que vendem naquelas máquinas de cápsula que você coloca moeda, sabe? Nenhuma dessas atividades rendem nenhuma recompensa no jogo senão o ato de fazê-las. Sim, Yu Suzuki, eu sei. Igual a vida real.

Andar de moto parece divertido, então vamos limitar isso a
poucas quadras em uma única sessão curta do jogo.
E, basicamente, é isso. Se conseguir gastar uma hora com tudo que a cidade "viva e vibrante" de Shenmue tem a oferecer, parabéns. Você é uma pessoa melhor que eu. Se conseguir gastar mais que duas horas se divertindo com isso, um médico deverá ser consultado.

Boa sorte com as outras 28 horas de jogo, de qualquer forma.

F.R.E.E. SYSTEM E A LIBERDADE QUE TARDA MAS FALHA

Tá, mas e o tal sistema FREE em que você pode vasculhar todas as coisas da cidade? Bem, quanto a isso vou te dar um pequeno exercício. Vá até a cozinha e abra todas as gavetas e armários, olhe bem dentro deles e os feche. Pode ir, eu espero. Vou até colocar um pagodinho para ouvir enquanto te espero.



Opa, voltou já? E aí, se divertiu muito? Bom, bom. Agora tenho outra tarefa para você: vá até um quarto da casa e abra todas as portas e gavetas do cômodo. Depois olhe o que tem dentro e feche. Mais uma vez, pode ir sem medo que eu espero. Super de boas, vai lá.

Enquanto espero, outro pagodinho clássico para animar a solidão.



Opa, de volta? E aí, tirando muita diversão de sua exploração doméstica? Pois é, esse é o sistema FREE: uma mecânica altamente realista em que 95% dos armários, baús e gavetas do jogo não tem nada particularmente interessantes. Assim como na vida real.

Você vai achar uma textura de roupas (com a qual não pode interagir) ao abrir guarda roupas. Vai achar pastas (com os quais não pode interagir) ao abrir gavetas, vai achar uma textura de talheres (com a qual não pode interagir) ao abrir a gaveta da pia da cozinha. Porque assim como no mundo real, não tem nada particularmente interessante para ver nos cestos, gavetas e armários das pessoas. Tem o que esperaria ter e nada de remotamente interessante vem disso.

Todo dia pela manhã os trabalhadores das docas fazem uma
corrida de empilhadeiras. Para compensar essa indesejável
diversão, em seguida, o jogo te faz trabalhar oito horas por dia
porque ter um emprego de verdade deve ser o tipo de aventura
fora da realidade que Yu Suzuki só pode sonhar a respeito.
Esse é o sistema de "liberdade total", só esqueceram de colocar algo para que a liberdade fizesse alguma diferença. Mas hey, e esse não é o resumo do jogo todo?

The biggest problem with Shenmue is that not much actually happens - Ryo discovers his father's murderer is headed for Hong Kong, and then leaves to pursue. Then the credits roll. Sure, there's a lot to see and do, especially since the world seems so alive. But when you get down to it, there's only two real locations - Dobuita Street with the surrounding (small) neighborhoods, and the harbor, that's it. You don't uncover too much actual information either, which makes the whole ordeal rather anti-climatic. There are a handful of notable action scenes, including a stealth sequence where you sneak into a warehouse (which is a bit frustrating), a huge two-against-many rumble against the Mad Angels, and a motorcycle riding sequence as Ryo sets off to rescue Nozomi. Which, in turn, is one of the most frustrating things about the series - Ryo's relationship with Nozomi is supposed to be pretty important, but it's totally dropped by the second game, and it really has no consequences. There's also almost no real way to lose - the only way to get a Game Over is if you dawdle too long. You have several months in game time to complete Shenmue, at which point Lan Di just comes back and kills you, requiring you to start the whole thing over. You really have to screw up badly to get to this point, but it's still weird. In the end, aside from the actual gaming experience, there's little to tell about Shenmue's story that's worth telling.

Na época do lançamento do jogo, a SEGA lançou nos cinemas
japoneses um filme de uma hora e meia com as cutscenes do
jogo. Eu não sei como reagir a essa estratégia de marketing,
mas imagino que o Capitão Nascimento usará esse filme em
seu treinamento de resistência no BOPE.
O JOGO QUE MATOU A SEGA E A VOLTA DOS MORTOS VIVOS

Toda a história por detrás da produção do jogo e o simples fato dele existir parecem contos nonsense que deixariam Lovecraft impressionado. Apenas, no entanto, que nada disso se compara ao final dessa história. Não a história no jogo que não tem nada de impressionante, mas a história no mundo real.

Shenmue e seu sucessor, Shenmue 2, venderam bem para os padrões porcos do Dreamcast mas não conseguiram o feito de pagar sua produção, quanto mais o objetivo da SEGA que era tornar o jogo um atrativo de vendas para o Dreamcast. Se você leu até aqui, não é mistério nenhum.

A SEGA tinha um último tiro para dar e gastou em um Walking Simulator mais chato que sermão de padre gago. Bem pouco tempo depois a SEGA descontinuou sua produção de consoles, o que foi a melhor coisa que ela poderia ter feito.

O tamanho do estrago foi tão grande ao tentar construir o seu "The Homer" (e o resultado o mesmo de Herb Powell) que em 2014 a SEGA perdeu a patente da marca Shenmue porque não manifestou nenhum interesse  em utilizá-la novamente. Ela realmente não tentou lutar por isso. Compreensível.

Entretanto, a SEGA talvez não tenha observado que hoje Shenmue tem algo que não tinha em 1999: nostalgia. A maior parte dos gamers daquela época começa seus relatos sobre o jogo com "Eu tinha dez anos naquela época e era tão bom, como eu tenho saudade do tempo em que meus pais cuidavam de tudo e eu não tinha nenhuma responsabilidade, tudo daquela época  me associa com essa sensação de conforto e segurança. O jogo? Ah sim, era uma bosta radioativa, mas cara, aquela época era tão boa..."

Ligado nessa mamata, Yu Suzuki conseguiu os direitos da série de volta e lançou uma campanha no Kickstarter para fazer a terceira parte de um dos piores jogos já produzidos pela humanidade. O resultado? Seis milhões de dolares arrecadados.

 

A Sony viu aí uma bolona quicando na area e vai financiar o resto do jogo em troca da exclusividade para o PS4. Existe uma diferença entre o que a Sony está fazendo agora e o que a SEGA fez em 1999: a SONY não poderia se importar menos se o jogo é horrível e sério candidato a pior jogo de todo os tempos (eu já joguei muito jogo ruim e tenho que pensar mais sobre o assunto, mas este é um candidato seríssimo mesmo), o que ela sabe é que a nostalgia vai fazer ela vender o suficiente do "The Homer" que a SEGA criou.

Como disse Edmund Burke: "Aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la"
Como disse Bezerra da Silva: "Enquanto houver otário no mundo, malandro não morre de fome"

Essa foi a lição de hoje, crianças. 

E marinheiros. Porque achar marinheiros é muito importante.

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