sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Scott Pilgrim vs The World (ou o filme que é um jogo sobre um filme)

Ah, a história mais antiga do mundo. Garoto conhece garota. Garoto se apaixona por garota. Garoto termina com sua namorada colegial asiática menor de idade para ficar com a garota mas descobre que tem que enfrentar a liga dos sete ex-namorados malignos da garota. Como eu disse, a história mais antiga do mundo. Um clássico.

Como eu costumo dizer, se alguma coisa tem uma ideia inovadora bem executada então merece atenção. Se tem mais de uma ideia nova bem executada, então realmente temos algo muito interessante aqui e esse é o caso das desventuras de Scott Peregrino.


FASE 1-1: Mundo comum

A pegadinha aqui é que Scott Pilgrim é como as cebolas, ou os ogros: dividido em camadas. Ou fases. Fases, sacaram? Hã? Hã? Viram o que eu fiz aqui? Viram? Desculpe, é manhã de natal e estou um pouco carente. Caham, prosseguindo...

Scott não é apenas um nerd qualquer: ele é o uber paragon de todos os nerds, aquele cara cuja vida eu, voce e todos nós perdedores acabaríamos escorregando para ter "ao natural". Ele não tem emprego (provavelmente é sustentado pelos pais, que moram do outro lado da rua), divide o quitinete com um colega de quarto gay espaçoso, toca numa banda ruim, tem um namoro bem meia boca com uma colegial asiática menor de idade (acredite, soa mais legal na teoria do que na prática), e sua maior habilidade é falar trívias aleatórias sobre videogames.

Enfim, se a vida não desse uns bicudos de vez em quando Scott Pilgrim seria o perdedor ao qual todos nós flutuaríamos naturalmente para nos tornar.

As coisas mudam de figura quando o manezão Scott conhece Ramona Flowers e se apaixona por ela. Ok, fica conhece ela e fica stalkeando ela até ela decidir sair com ele por pena - a técnica recorrente clássica dos geeks. Só que tudo na vida tem um preço, e para namorar Ramona o lento Scott deve enfrentar a Liga formada por seus sete ex-namorados malignos em batalhas até a morte (ou até o continue, sabe como é).

Um dos passatempos favoritos dos manauaras é assistir uma
besta da selva enfrentar um obeso mórbido voador diante de
uma anaconda tão grande que é considerada sua
própria espécie. Super normal.
FASE 1-2: Mundo das referencias

Scott Pilgrim é um filme contado através de um jogo. Scott e as pessoas do seu mundo são personagens de videogame acostumados a todas as realidades e clichês implícitas de se viver em uma videogame dos anos 90.

- Ei cara, soube que o Mark foi derrotado e virou uma pilha de moedas brilhantes?
- Vou sentir falta daquele cara, ele tinha as melhores duas frases da cidade. Ei, olha um latão de lixo, chuta ele para ver se sai um peru assado dele.

Pode parecer estranho mas o filme trata isso com tanta naturalidade que sequer explica o ponto. Se você entendeu, entendeu. Se não entendeu então se fode aí, não-nerdão. Brigas de VS começam no meio de lugares lotados - pq é assim que os cenários de luta são nos jogos - e Scott sobe de nível, ganhando uma vida extra quando completa 10 mil pontos.

Desnecessário dizer que além de tornar o melhor filme baseado em videogames (apesar de não ser baseado em um jogo especifico), o filme é apinhado de referencias nerds. Eu sei, quando se fala em referencias nerds logo se imagina meia dúzia de clichês baratos que dá para encontrar em menos de um minuto procurando no Google, mas não, não é disso que estou falando.

Estou falando de referencias massas mesmo que arrepiam quem cresceu conhecendo mais o mapa de Hyrule do que o próprio bairro, coisas desse nível:


Se você reconhece esse tema, parabéns. Você dificilmente perdeu a virgindade
antes dos 20, se é que aconteceu.

Assistindo esse filme eu tive mais ou menos a mesma sensação que tive quando a Max menciona Final Fantasy: Spirits Within em Life is Strange. Ok, voce não é um poserzinho de merda, voce é um de nós e sabe do que está falando. Respeito.
Tivesse parado por aí, já seria uma grande coisa. Mas o filme não é só sobre a cultura nerd, é sobre fazer piadas também com a cultura hipster/indie.

I lesbian you
Sabe porque os vegans são tão chatos? Pq se eles saírem da linha a polícia vegan aparece e confisca seus poderes veganicos que o tornam melhor do que os outros seres humanos. Duh, todo mundo sabe disso, nem precisava ter que explicar.

Também é muito legal como o filme é irônico sobre o comportamento da cena indie e pop, expondo certos absurdos com muito humor sério. “Você tem que vê-los ao vivo. Eles são muito melhores ao vivo”, diz um dos personagens logo após um show ao vivo. Ou “O primeiro álbum é, basicamente, melhor que o primeiro álbum”, sim, essa frase não faz sentido. Mas não é difícil ver esse tipo de comportamento pretensioso na cena musical indie e pop de praticamente qualquer país, seja em famosos ou em anônimos.

E como eu disse, o filme não te segura pela mão e joga seguro para agradar uma audiencia maior. Entendeu, entendeu. Não entendeu, tomate cru... sua prima tem telefone?

FASE 1-3: Mundo do filme bom 

Tivesse feito todas estas coisas apenas, Scott Peregrino seria um filme de referencias divertidinho mas nada muito além disso. Só que a grande diferença de Scott Pilgrim para Superbad, por exemplo, é que Scott Pilgrim é um bom filme a nivel de filme mesmo.

O truque aqui é que ele usa essa estrutura de videogame não como finalidade em si (o maior erro dos filmes de "referencia" e que se tornam esquecíveis), mas como um meio para contar uma metafora que só poderia ser contada  usando uma estrutura de videogame.

Pq ela é April Fucking Ludgate, voce esperava menos
da díscipula do grande mito Ron Swanson?
Como nos videogames, cada ex-namorado é uma fase a ser superada. Como na vida real, cada memória do outro é uma bagagem a ser compreendida pelo par. E Scott parte de sua "vidinha preciosa e simples", de moleque sem ambição, em direção à superação, ao amadurecimento. O prêmio óbvio, a princesa, é a própria Ramona. A vida adulta é a consequência dos pontos de experiência coletados pelo caminho.

O filme usa a metafora de vencer os ex-namorados para falar de uma jornada sobre amadurecimento e relacionamentos com um qualidade e sinceridade poucas vezes vistas no cinema (claro, é estranho falar sobre maturidade em um filme que o cara dá um shouryuken de 5 metros, mas o cenário não precisa ser realista se os personagens são).

O filme poderia ser simplista e deixar Ramona como uma princesinha lixando as unhas enquanto o manezão tem que foder correndo atrás dela para "conquista-la". E assim que a maior parte dos filme é e é assim que as pessoas pensam que a vida é.

Pessoalmente eu detesto a expressão favorita dos machos alfa de plantão: "conquistar" alguém. Parece que voce tem que ralar seu rabo para agradar alguém sem sentimento nenhum que está pouco se lixando em uma piscina de tédio até que ela diga "hmm, é, tá, esse vai ter a grande honra de ter uma chance de tentar me agradar".

Quando seu amigo gay diz pra você parar
de viadagem, está na hora de repensar suas
escolhas de vida.
Eu não sei como é tentar "conquistar" um cara, mas posso dizer que no que tange as mulheres já estive em mais encontros que pareciam entrevistas de emprego do que eu gosto de lembrar. E apenas não é assim que um relacionamento funciona, não um relacionamento adulto e verdadeiro. Um relacionamento de verdade é aquele em que nenhuma das duas partes não tenta "conquistar" nada, ele funciona de forma simbiótica, não hierarquica.

O filme fala disso muito bem, em determinada fase ele te leva a pensar (através da narrativa) que porra, a Ramona é uma vadia mimada que apenas vai fazendo o que quer e indo embora sem ligar a minima e foda-se ela. Só não, na realidade ela é só uma pessoa e faz as mesmas coisas que voce fez.

Scott então pensa "Que absurdo, eu não larguei um rastro de relacionamentos fracassados sem dar a minima", fui sempre um pobre perdedor coitadinho que sempre fez o melhor que pode. Mesmo? De verdade, Scott? Olhe bem para trás e diga se foi REALMENTE isso que aconteceu. Ou será que a seu próprio modo voce não é uma pessoa exatamente como ela porque, adivinha só, somos todos apenas pessoas!

- Ramona, o Capitão América esteve congelado nos últimos
70 anos, como foi que vocês namoraram?
- Foi uma fase.
Salvar a princesa do castelo, das garras do Bowser ou do Ganondorf parece muito romântico na teoria mas na prática não é assim que um relacionamento de verdade funciona. Nunca vai funcionar enquanto você não acreditar que os dois estão no mesmo nível e que um precisa "salvar" o outro como se fosse um objeto ou um objetivo da história (ou do jogo).

Vai funcionar a partir do momento que voce entender que relacionamentos são uma partida cooperativa e que voce ajuda com as barras dela tanto quanto ela te ajuda com as suas. Nada de princesas a serem salvas, apenas dois dudes detonando a gangue de punks da cidade

(para vocês mais novinhos, punks nos videogames dos anos 90 eram o equivalente aos zumbis de hoje: não seres humanos de verdade, apenas criatura para você encher de porrada sem nenhum peso na consciência).

Let’s back up. What’s the biggest in most romances? It’s, usually, the moment where the guy decides to throw it all away and go after the girl. Harry runs through New York to find Sally. Tom Hanks and Meg Ryan meet. Lloyd Dobler holds the boombox over his head (although, wonderfully, this isn’t the climax, but you get the idea). It’s that Big Moment of Love.


Tecnicamente não foi uma mentira
Scott Pilgrim, being at its heart a romance, plays this trope straight. Having lost Ramona to Gideon, Scott decides to set out to the Chaos Theatre to win her back by fighting Gideon. He arrives, fights his way in, and tells Gideon he wants to fight him for Ramona. When asked why, Scott responds that he’s in love with her. Scott thus earns The Power of Love and is awarded a flaming sword (from his chest!) with which he duels Gideon.

Great! That’s our Big Moment of Love! If there’s anything years of movie-watching should have taught us, know that Scott knows he’s in love with Ramona, he’ll beat Gideon and live happily ever after.

Only that’s not what happens here. Instead Scott gets himself killed.
Fortunately, however, Scott got a 1-Up earlier in the film and, after some brief soul-searching, uses said 1-Up to confront Gideon again. Again, Gideon asks him if he’s fighting him for her. Scott’s reply is different: “No, I wanna fight you for me.” And this time Scott earns the Power of Self Respect, gets a purple flaming sword, duels Gideon, settles things with Knives and Ramona, and fights Gideon again. With the Power of Self Respect.

Herein Scott Pilgrim vs The World suddenly does something that most romances don’t. Love isn’t enough.
Scott Pilgrim vs The World é um filme em muitas camadas, ou fases para usar o tema do filme, e usa a metáfora narrativa para falar de uma forma dinâmica e divertida sobre relacionamentos de uma forma profunda. Realmente impressiona o equilíbrio alcançado pelo diretor Edgar Wright (Shaun of the Dead) em manter o ritmo pop divertido ao mesmo tempo que faz um filme profundo e sincero sobre relacionamentos.

Confunde-se a história simples e bem-humorada com "infantilizada". Preguiça, desconhecimento ou puro preconceito, não importa. Os sentimentos e as metafóricas situações em Scott Pilgrim são absolutamente reais, algo que o cinema de gêneros com apelo pop teima recentemente em deixar em segundo plano. E daí se o protagonista é capaz de feitos incríveis e trafega por mundos fantásticos? Se o amor que ele diz sentir não é demonstrado na tela, corre-se o risco de parecer tão empolgante quanto uma cópia em alta definição da Mona Lisa.

Scott Pilgrim Contra o Mundo é, assim, um épico pós-moderno para a geração criada dentro de casa. Uma imperdível celebração da cultura pop e dos relacionamentos complicados.

 O filme poderia ter jogado fácil e se apoiado preguiçosamente no oceano de referencias. Ao invés disso foi além e usou essas referencias para contar uma história de verdade e dizer alguma coisa. Assim que os épicos são feitos. CONQUISTA DESBLOQUEADA.









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