quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Pan (ou quando o Cirque Du Soleil tentou contar Piratas do Caribe imitando Mad Max)

Quando de suas grandes produções Hollywood costuma fazer audiências teste com o público antes do lançamento para perceber alguns problemas e aparar algumas arestas. Saber o que as pessoas comuns acharam e tirar algumas lições. 

E quando a maior impressão que o filme deixa é "eu não entendi o que eles pretendiam com esse filme além de iniciar uma franquia goela abaixo usando todos os clichês conhecidos pelo ser humano", talvez tivesse ficado a dica de que algo errado tem com esse filme.

Pan tem uma premissa bastante interessante e (algo raro no cinema hoje em dia) nunca executada: mostrar as origens do garoto que não queria crescer (não, não Michael Jackson) e para deixar as coisas mais interessantes, como ele e James Hook foram besties um dia para se tornarem inimigos mortais.



Quanto a esse último, eu vou adiantar um pouco as coisas e contar como o filme resolve essa interessante questão: ele sobe em cima da mesa, olha bem nos seus olhos e grita com toda a força de seus pulmões "PAU NO SEU CU, OTÁRIO!".

Estava no trailer, está na premissa que abre o filme (literalmente é a primeira frase do filme) mas a única coisa que o filme tem a dizer sobre aquilo que seria a coisa mais interessante da película é "Agora que tu já comprou o ingresso, e sei que provavelmente comprou em grande parte por causa disso, te fode aí. Assiste os outros filmes da franquia, babaca."

Você pode se perguntar porque a minha versão antropomorfizada do filme xinga tanto e tem tanta raiva assim. Bem, se esse filme fosse uma pessoa certamente ele teria síndrome de Tourette e mais outros quinze distúrbios psiquiátricos (nove deles nunca catalogados pela medicina) porque esse filme não tem a mais vaga ideia do que quer ser ou como vai executa-la.

A impressão que dá é que o brainstorm do roteiro foi feito com o Chris Traeger na mesa e ao final da sessão ele inspirou fundo, apontou para as pessoas e disse *[nome e sobrenome da pessoa], essas são, literalmente, as melhores ideias que eu já ouvi na minha vida. Vamos fazer todas elas."

Pan começa como uma história Dickenseniana sobre um órfão abandonado por sua mãe ginasta olímpica que consegue saltar uma grade de dois metros carregando um bebê e o seu berço de madeira maciça. O jovem Pedro é criado então em um orfanato pelos mais aberrantes e cruéis seres da face da Terra: cristãos (como eu já citei aqui, chutar o cristianismo é a forma mais rápida de fazer você parecer cool e descolado, coroa!).

Alias  Pedro e seu amigo Juquinha. Ok, talvez não seja esse o nome dele mas de qualquer o arco "Charles Dickens" do filme demora uma meia hora, introduz uma subtrama das freiras serem corruptas e más e então o abandona para nunca mais ser minimamente relevante ao filme. Anotem esse padrão, porque é assim que as coisas vão rolar por aqui.

Eu pago o Cirque du Soleil vendendo miçangas
na praia e aplaudindo o Sol
Então começa uma cena teatral do Cirque Du Soleil sequestrando crianças (responde onde eles conseguem seus integrantes) e uma batalha contra spitfires britânicos, para virar um musical de novas roupagens de músicas modernas (a lá Moulin Rouge) para se tornar uma jornada do herói sobre o escolhido, para se tornar um romance agua com açúcar, para se tornar um plágio de Piratas do Caribe... e assim vai indo. 

O filme vai saltando de um estilo para o outro sem nenhuma consequência senão deixar uma trilha de clichês espalhados pelo caminho. Você nunca sabe de que filme a próxima cena será roubada (dica: tente Mad Max ou Piratas do Caribe interpretados pelo Cirque du Soleil, é a deixa recorrente favorita do filme), mas sabe EXATAMENTE o que vai acontecer. Outra dica: tirando repetir alguma coisa que você já viu a exaustão (e melhor feito) em outros filmes, cada cena se esforça muito em abrir uma nova subtrama que não vai levar a lugar nenhum ou ter importância alguma.

Ah, olha lá, Gancho no fundo tem um bom coração está sendo um pirata egoísta e indo embora, quer apostar cincão que ele volta para salvar o dia ao bom e velho estilo Han Solo? Ih, Peter descobriu que é o escolhido mas não aceita isso, valendo um xis morte-lenta, duvida que ele vai aceitar isso no último momento para salvar a vida de alguém? Opa, a mãe do Peter morreu dramaticamente, duvidas que ela vai dar uma Mufasa e voltar para dar uma mensagem formadora de caráter nas nuvens ou algo do tipo? Ih, olha a mocinha branca no  meio dos figurantes, quer apostar que... já deu pra entender, né?

Esse mapa vai nos levar a encontrar a Arca da Aliança antes
dos nazistas ou que o rum acabe
Or something like that. Really, there are so many ideas being tossed around that even though some of director Joe Wright’s visuals are impressive, narrative-wise, “Pan” is a mess, and sadly, it’s far more of a hot mess than a glorious one. This isn’t a movie that feels fully considered or fleshed out, and much of it, I would think, will go straight over the heads of young children, though it’s hard to say exactly for whom this movie — which has moments of intense, yet cartoonish violence — actually was made (“Smells Like Teen Spirit” isn’t going to resonate with the under-10 set). 

Pensando bem, acho que tentar adivinhar qual clichê eles vão xinxar sem a menor vergonha a seguir é a maior diversão do filme. Potencialmente a única.

EU NÃO VOU TE MATAR, SUSPENSÃO DA DESCRENÇA. APENAS VOU TE MACHUCAR MUITO, MUITO, MUITO MESMO. É, E DEPOIS TE MATAR SIM.

Ir emendando um estilo aleatório no outro para depois abandona-lo poderia até funcionar, tivesse alguém tido o mínimo trabalho de reler o roteiro. Nem digo revisar, apenas ler por cima mesmo e perceber que nada daquilo faz o menor sentido quando colocado junto.

Soos acabou de assistir Pan
Ok, é um filme para crianças e crianças não ligam desde que seja fofinho e colorido - e é putamente colorido, as pessoas literalmente explodem em nuvens de fumaça colorida quando morrem - no qual esforço extra não significa aumento das vendas (curiosamente a mesma lógica que se aplica a crianças também tem sucesso com gamers e otakus, eu definitivamente preciso de hobbies melhores). Mas o bastante é o bastante.

O roteiro é uma bagunça aleatória tão grande quanto tudo no filme, só que quando você vê a única sensação que dá é "espera, isso não faz o MENOR sentido".

Por exemplo, o problema do pirata Barba Negra é que eles não conseguem mineirar os cristais de fada (em 2015 pó de fada poderia ser considerado uma apologia a cocaína, então apologia ao crack é muito melhor) da ilha de Avatar Terra do Nunca porque toda vez que eles colocam os pés na ilha voadora eles apanham dos nativos (a palavra "índio" do original nunca é utilizada sobre hipótese alguma) até embaixo da língua.

Ah, Barba Negra, se ao menos ele pudesse encontrar o acampamento dos nativos com sua frota de navios voadores, todos seus sonhos se realizariam. Mas espera, a primeira cena que aparece dos nativos mostra que eles são mais coloridos e barulhentos do que uma rave em que todo mundo tem címbalos amarrados nos pulsos!

Tem tanta cor e barulho nesse acampamento que o XBOX One
nem rodaria ele sem travar
Porra, como que eles não conseguem achar os nativos? Caralho, como assim? Se você morasse na mesma ilha que eles teria que procurar muito para achar um lugar em que conseguisse dormir por causa do barulho, quanto mais procurando por cima com navios voadores a ANOS!

Ah é, mas aí quando o roteiro quer uma cena do tipo então eles acham sem dificuldade NENHUMA porque GPS ou algo do tipo, sei lá.

Percebeu o nível de preguiça com que essa coisa foi escrita? Isso não se ensina, meu amigo!

Como se o dilema do vilão não fosse ruim o bastante, a do herói consegue ser pior ainda. Peter não quer aceitar nem que a vaca tussa de que a profecia é verdade e ele é o escolhido para liderar os nativos e derrotar o Barba Negra. Ele diz isso com todas as letras... para em seguida dizer que apesar de jamais cumprir a profecia - porque ele é totalmente contra ela por motivo nenhum - ele vai... liderar os nativos e derrotar o Barba Negra.

MAS ISSO É EXATAMENTE O QUE A PROFECIA DIZIA, SEU FILHO DE UMA PARIDEIRA MANCA! Puta que pariu, alguém em algum momento nesse roteiro LEU o que estava escrevendo? Um momentinho sequer que seja?

O filme é repleto de aberrações assim como a épica batalha final em que Peter dispara hadoukens de fadas... porque as fadas não podiam resolver elas mesmas os problemas... por ... motivo nenhum... sério, ainda não entendi a importância do Peter naquela cena além de fazer poses, ou toda a trama depender da flautinha de pan (sacaram, hã? hã?) que Peter carregava consigo desde bebê e nunca foi tirado dele no orfanato... apesar de ser obscenamente contra toda a caracterização dada para o lugar...


Se você tinha a curiosidade do que aconteceria se gritasse "vem pro x1, viadinho!" no meio de uma apresentação do Cirque du Soleil, esse filme responde.

Enfim, é ruim, é preguiçoso e com certeza só de ler esse texto você já colocou mais esforço pensando no roteiro do que qualquer um envolvido com a coisa toda.

ATUAÇÕES OK NO FILME ERRADO

Levi Muller não é um ator ruim, apenas não fazia a menor ideia do que estava fazendo no filme. O pai do Rumpelstiltskin é sobre ser o menino que se recusa a crescer e encarar as dificuldades da vida adulta. É uma metáfora e meio que sobre isso é o personagem. Aqui o moleque no entanto tem uma curva de amadurecimento bastante considerável.

Sim, Peter Pan é sobre o amadurecimento do personagem principal. A promotoria encerra, meritíssimo.

O quão difícil pode ser pilotar um navio voador?
Aparentemente, não muito. Gancho, que nunca havia pilotado
um navio voador antes, completamente sozinho pilota tão bem
quanto Barba Negra e sua tripulação de 50 negos - se não melhor.
Quer dizer, qual é exatamente a função da tripulação então?
Hugh Jackman, por outro lado, parece estar se divertindo muito fazendo esse filme. Talvez pensando no quanto estão lhe pagando por uma coisa tão idiota, eu certamente ficaria feliz. De qualquer forma sua atuação como Barba Negra está ok e as poucas referencias ao material base que funcionam vem dele - como quando ele faz as crianças andarem na prancha e "voarem" para se esborrachar abaixo diz "Tenha pensamentos felizes". Talvez porque ele realmente entenda o quão estúpido aquilo tudo é, não sei, mas o Wolverine está ok no filme.

O mesmo não pode ser dito do capitão Gancho, onde o ator Garrett Hedlund se esforça ao máximo para imitar Han Solo, Indiana Jones e Jack Sparrow o máximo que pode. Se ele ainda conseguisse misturar os três poderia ser interessante, mas infelizmente suas limitações como ator só permitem uma imitação por cena e talvez uma diversão que possa ser extraída desse filme é tentar adivinhar qual dos três o cara está imitando no momento.

Dica do dia: quando a sua releitura está apanhando muito
feio pra Once Upon a Time, talvez seja hora de parar e
repensar suas escolhas de vida.
However, I could have handled a weird origin story about a “Chosen One” saving Neverland to the tune of a bunch of children singing “Smells Like Teen Spirit” (I only wish I were joking!) if it was at least emotionally grounded. The biggest problem with “Pan” is that nobody was particularly likeable, or scary, or interesting in any way. The only character who was even fun to watch was Hugh Jackman as Blackbeard, who swished and pranced around being deliciously eeeeeevil. It was not a subtle performance, but at least it was an interesting one. Most of the other actors just spent the whole time mugging for the camera – Garrett Hedlund practically winked at the audience a few times.

Se alguém, ele deveria ter imitado o Senhor Smee. Po, taí uma atuação original e interessante... que depois de algumas cenas desaparece completamente do filme, já que o objetivo era queimar o maior número de idéias no menor espaço possível de tempo.

"Estamos em 1944, talvez eu devesse registrar a letra de
Smells Like a Teen Spirit para processar Kurt Kobain daqui
a 50 anos, parece um negócio mais lucrativo do que usar
crianças e não adultos fortes para minerar"
Também soube que houve alguma polêmica a respeito desse filme porque a princesa índia nativa foi interpretada pela atriz mais branca que se pode encontrar, mas honestamente não sei que do que estão reclamando. A princesa Tigrinha (esse nome fica muito mais idiota em português, haha) é tão esquecível, genérica e sem importancia que se eu fosse de outra etnia ficaria muito feliz em não ver minha raça associada com esse estereótipo molóide.

It’s really an accomplishment to make a movie that’s both a crazy mess and totally dull.
So, good job, I guess, to director Joe Wright and writer Jason Fuchs, for making “Pan” into a nearly incoherent, visually wild mess that was also so boring that I almost fell asleep.

A sensação que fica é mais ou menos a mesma que eu tive assistindo Malévola: poderia ter sido uma tomada interessante e uma boa oportunidade de contar a mesma história sob uma perspectiva inovadora, mas aí então alguém no estúdio gritou "Cara, as crianças já vão encher o saco dos pais para ver esse filme de qualquer jeito, esforço adicional não vai gerar nenhum lucro extra, relaxa aí e cheira essa carreira de coca aqui!"


Meu conselho: se o eu filho estiver enchendo o saco para ver uma história do Peter Pan, coloque a pipoca no micro-ondas e assista Hook. Você já cometeu um erro na vida tendo um filho, não cometa dois assistindo esse filme.




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