sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

My Little Pony: Friendship is Magic [5a temporada] (ou é hora de tirar os poneizinhos da chuva?)

Fazem cinco anos que Lauren Faust conseguiu a verdadeira magia de transformar um desenho animado pelo qual ninguém dava meia pataca furada (nem mesmo as menininhas) em um dos desenhos animados mais inteligentes, bem construídos e divertidos da televisão.

Eu já escrevi um artigo falando das qualidades do desenho aqui (e embore eu devesse ter escrito menos como fã, mantenho os argumentos). E se tudo mais falhar, um guia de referencias nerds nesse desenho pra afro-descendente nenhum botar defeito. Não pretendo falar sobre isso novamente. 

O que eu pretendo falar é sobre a quinta temporada que terminou esse fim de semana e a pergunta que talvez não seja a hora de procurar pastos mais verdes para os cavalinhos coloridos mais amigaveis da televisão.

NEM TANTO AO PEGASUS, NEM TANTO AO PONEI TERRESTRE

Se tem uma palavra com a qual eu poderia definir essa temporada seria "irregular". Eu sei que os roteiristas tem que sambar fininho para conseguir colocar alguma personalidade no desenho já que a Hasbro tem uma equipe dia e noite trabalhando em dizer "As criancinhas! Alguém pense nas criancinhas!"

Só que apesar disso, ou talvez até mesmo por causa disso, eles conseguem fazer chover quando as estrelas se alinham direito. Os dois episódios que abrem a temporada, "The Cutie Map parte 1 e 2" são uma aula sobre como o comunismo funciona de modo que George Orwell levantaria do tumulo e bateria palmas.

Tank for the Memories é o melhor episódio sobre lidar com a morte que eu já vi em um desenho animado desde O Fantástico Mundo de Bob (e se algo pode ser comparado com O Fantastico Mundo de Bob é porque está fazendo algo muito certo). 

E de igual maneira eu posso citar mais uns cinco episódios que eu vou carregar pra sempre comigo. Porque ver o Doutor jogando boliche com o Dude é algo que você leva pra sempre na sua vida.

No seu melhor, My Little Pony ainda brilha como um dos grandes desenhos animados da televisão mesmo esse ano Gravity Falls e principalmente Steven Universe terem lavado o chão.

O problema é que "em seu melhor" não é tanta coisa assim e não me lembro de uma temporada com tantos episódios não tão "em seu melhor". Mais da metade dos episódios da temporada são apenas "meh" e alguns três ou quatro são pavorosos de tão mal feitos. Porque quando você faz um episódio ruim do Discórdia é sinal de que algo esta errado na vida.

Ao ponto que devemos começar a nos perguntar se não está na hora de começar a aposentar esse trem. O que vimos em profusão foram episódios desinspirados com exatamente as pessoas imaginam que My Little Pony seria: um problema banal resolvido com a magia da amizade de uma forma preguiçosa.

Nem todo dia os roteiristas estão de aniversário, e essa temporada foi bem mais menos do que mais.

Era uma terça-feira chuvosa em Canterlot, a cidade que nunca
dorme. Sempre chove em Canterlot, e a amizade escorria pelas
vielas como o lodo pela sarjeta.
A TAREFA HERCULEA QUE É ESCREVER PARA MENININHAS

Eu entendo que escrever um episódio de My Little Pony é uma das tarefas mais dificeis da televisão nos dias de hoje. Primeiro porque você tem a dificuldade por si só de escrever algo bom, como qualquer roteirista de qualquer série ou desenho animado tem. Mas o que você tem escrevendo para My Little Pony são três problemas intrinsecos que arrastam a qualidade do desenho para baixo, a saber:

A) A toda poderosa HASBRO: Essa temporada teve um episódio chamado "Princesas sonham com ovelhas mágicas?" que deveria receber por si só uns 20 premios como melhor titulo de episódio de todos os tempos. Seja como for, originalmente o episódio deveria se centrar em contar a história da Princesa Luna, antes dela se tornar a Nightmare Moon.

O que é ótimo, a série fala tão pouco sobre os alicórnios (da onde vieram? Porque foram quase extintos? Qual sua relação com a Arvore da Harmonia? Como se comportam em raves? Sexta, no Globo Reporter) que seria algo formidável.

Em resposta a isso a Hasbro apenas disse "não, não pretendemos lançar uma linha de bonecas da jovem Luna agora, façam outra coisa". E foi assim que aconteceu. Simples assim.

Verdade seja dita, o episódio ainda é bem legal, mas não é tão legal quanto seria se fosse um daqueles raros momentos que os planetas se alinham e a série revela alguma coisa sobre os alicórnios. Tá mais fácil conseguir o CPF dos Timelords que isso.

B) O arco evolutivo dos personagens já deu o que tinha que dar: Um dos problemas de escrever para mai lirou poni é que ao final da quarta temporada todas as personagens protagonistas já haviam satisfatóriamente resolvido seus arcos evolutivos de personagens. Em termos simples, elas já chegaram onde tinham para chegar enquanto personagens.

Rarity já é uma diva conhecida no mundo da moda, Applejack é efetivamente a chefe da família, Rainbow Dash dá lição de moral para os wonderbolts e por aí vai. Na verdade o tema da quarta temporada foi que elas não só completaram seu percurso como se tornaram mestras em suas areas, ajudando outros ao invés de serem ajudadas. A Fluttershy tem questões a resolver ainda enquanto persona, não é coincidencia que os melhores episódios são os dela (e da Rarity, porque mesmo que não tenha mais nada a resolver ela é diva o bastante para lidar com isso).

De um ponto de vista narrativo, tivemos a passagem do arquétipo do herói para o mestre. Não tem mais muito o que tirar daí por mais criativo que você seja.

E mesmo que voce seja o mago da escrita, ainda tem um outro problema...

C) Lá se vão mais de cento e lá vai pedrada episódios: Na quinta temporada tivemos o (excelente) episódio de comemoração ao 100o episódio de My Little Pony, a primeira série da HASBRO a chegar a essa marca.

O que no papel é ótimo, na pratica fica a sensação de que eles já fizeram tudo que tinha para fazer. Simplesmente não tem como tirar mais tanto leite de pedra assim porque o cenário não acompanha o ritmo dessa evolução. O status quo ainda é genericamente o mesmo da primeira temporada e não existe cristão com tanta ideia para fazer ótimos episódios de "problemas de amizade".

Veja o final dessa temporada, por exemplo. Foi excelente a ideia de vermos futuros apocalipticos referentes aos vilões da série, show de bola. Daria pra fazer uma temporada inteira com esse tema (e se os planetas se alinharem, bem que poderia ser isso mesmo).Tivemos resistencia, guerra (que cena linda a Maud e a Pinkie lutando juntas e a Rainbow Dash com o cabelo curto e com armadura de asa), Nightmare Moon, changelings, tudo que se poderia esperar de melhor...

... e aí o episódio é resolvido com uma motivação ridicula para a vilã e uma solução que já aconteceu na série pelo menos cinco vezes (basicamente é uma versão mal feita de Equestria Girls, que não é lá essa coca-cola toda não). A maior parte das coisas que se pensasse para resolver o episódio já foi feita (e algumas vezes bem feita) pelo menos duas vezes, porque a série já passa DOS CEM EPISÓDIOS.

Não é dificil entender isso,  mas é estremamente dificil escapar dessa vala quando você se compromete a alterar dramaticamente o cenário.

QUO VADIS, CAVALINHOS?

A solução mais simples seria simplesmente encaminhar a série para o seu final. Como choverão chouriços de algodão antes que a HASBRO tome uma decisão dessas (para manter a qualidade de algo que está dando dinheiro), existe outra saída. A mesma que a BBC vem empregando a mais de 50 anos com sucesso: o bom e velho wibly-wobly reset maluco.

Doctor Who é a série mais antiga da televisão e isso se deve ao formato da série: a cada três ou quatro anos o pau canta e a série muda completamente. Muda o protagonista, o elenco, as tramas, vão tudo pro reset e começa de novo. Diferente, com outro foco, com outra pegada.

My Little Pony poderia fazer isso. Promovam as Cutie Mark Crusaders a protagonistas e deixem o elenco principal como figuras fodas no cenário. Deixe a Twilight no lugar da Celestia para fazer participações especiais, a Rainbow Dash como líder dos Wonderbolts, a Applejack como prefeita de Ponyville, por aí.

Não só abre espaço para um novo crescimento de novos personagens com um arco a se desenvolver como dá aquela sensação de evolução e nostalgia como quando o Zuko ou a Toph apareciam em A Lenda de Korra. As pessoas gostam disso, daria certo.

Embora eu não seja muito otimista em relação a acontecer, seria o melhor que poderia ocorrer.


O episódio não foi grande coisa, mas a participação da Lena Hall como equivalente ponei da Lady Gaga valeu cada segundo





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