segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Danganronpa (ou Battle Royale Phoenix Wright)

Videogames não costumam me surpreender muito porque a grosso modo é uma media bastante conservadora. Novas ideias pipocam todos os dias em todos os cantos do mundo, mas até chegarem em uma telinha para você apertar botões de um controle já foram compactadas, empacotadas e embrulhadas em formulas bastante seguras.

A grossa maioria das categorias de jogos nasceu no Nintendinho nos anos 80 (algumas são até mais antigas que isso) e permanecem em vigor até hoje apenas com updates gráficos. Então como eu disse, é muito difícil um jogo me surpreender.

Posto isso, em 2005 (o jogo foi lançado pra GBA em 2001 mas eu só joguei a versão do DS) eu fiquei realmente surpreso com aquele joguinho de "simulador de advogado". Quer dizer, o jogo é sobre você ser um advogado, um videogame sobre isso, quão bom poderia ser? Para minha surpresa, muito. Phoenix Wright: Ace Attourney não é só  um baita jogo como tem uma das batalhas contra chefe final mais épicas que eu consigo lembrar. Tai algo que eu definitivamente não esperava.

Apesar de todo sucesso da série, surpreendentemente poucos títulos se arriscaram a imitar sua formula no ocidente (e o cosmo de Athena me proteja de saber o que rola no Japão). Em certa parte é compreensível, Phoenix Wright não é tipo God of War que você pode substituir o semideus grego por um caçador de vampiros cristão e tá tudo certo... né Castlevania?

Você não pode usar o esqueleto do jogo apenas substituindo os personagens sem ganhar um selo xing-ling de falta de vergonha na cara, não facilmente pelo menos.

Corta pra 2010, entre uma rodada de heroína e saque feito a base de sangue de camponesas virgens (que é o café da manhã dos desenvolvedores de jogos japoneses) alguém teve uma ideia na Spikesoft: 

- E se a gente usasse o esqueleto de Phoenix Wright para um jogo tipo Battle Royale?
- Ah tá, e vai ser o que? "O caso dos dez negrinhos" com sessões de julgamento entre as pessoas?
- ...
- ...
- Nós vamos ficar ricos.
- Muito.

E foi assim que nasceu Danganronpa.

A flor tem que ser de cerejeira e o homem tem que ser
Kazuma Kuwabara!
A ESPERANÇA EM MEIO AO DESESPERO - ACADEMIA COLEGIAL PICO DA ESPERANÇA

A Academia Pico da Esperança é o melhor colegial do Japão, tão bom de fato que você só entra se for convidado pela escola. E qual o critério de seleção do colégio? Você tem que ser o melhor do país em alguma coisa, QUALQUER coisa.

Presumivelmente temos alguns alunos óbvios como a melhor atleta juvenil do país, a melhor programadora do país e a melhor artista marcial nesta faixa etária. Porém temos também alunos bem menos ortodoxos, como o melhor monitor de classe, o melhor líder de gangue, a melhor ídola pop. Quando eu disse que era QUALQUER coisa, era QUALQUER coisa mesmo.

Onde seu personagem entra nessa história? Makoto Naegi foi parar lá porque seu nome foi sorteado aleatoriamente entre todos os alunos do Japão, fazendo dele o sortudo supremo! Tá, né? Prossigamos.

Ao entrar no colégio Naegi desmaia e acorda em uma sala de aula vazia apenas para descobrir que haviam apenas outros 14 alunos presos com ele no colégio. A estes alunos é dito através de um urso animatronico bem bizarro que eles passariam o resto da vida ali dentro... a menos que participassem de um "jogo" bastante bizarro.

As regras do jogo são as seguintes: se um dos alunos matar um dos coleguinhas e ninguém descobrir quem foi, essa pessoa esta "graduada" e pode ir embora mas todos os outros serão executados. Se ele for descoberto (ou seja, no julgamento após o assassinato ele for acusado pela maioria e for mesmo o culpado) então apenas o assassino é executado.

Simples, direto e reto. Que comece a matança!

... SÓ QUE NÃO

A primeira coisa que chama atenção é o contraste entre o visual escrachado animesco dos personagens e o desenvolvimento realista das suas personalidades. Ou seja, embora olhando essa turminha parece ter fugido de diversos animes muito loucos, na hora que as letrinhas rolam suas personalidades são bastante plausíveis para jovens daquela faixa etária. Certo, adolescentes japoneses, mas ainda sim adolescentes.

Você fica sabendo disso porque no começo do jogo nada acontece e o seu personagem não faz muito a não ser andar pelo colégio e conversar com as pessoas, em um tipo de school simulator. Pode parecer estranho para um jogo com essa premissa - e pelo que o mercado ensina como se deve fazer um jogo - mas pense bem: numa situação assim nenhuma pessoa normal ia pegar uma peixeira e sair degolando geral em menos de uma hora apenas porque um rejeito de Five Nights at Freddie disse.

Existe um sistema de "encontros" (nada necessariamente romântico) para você administrar o seu tempo livre e escolher um membro daquela turminha para conhecer melhor. E como em qualquer grupo de pessoas, seja sua turma ou a galera que está com você no BBB, você vai formando afinidades e panelinhas de acordo com as pessoas que você gosta mais ou menos.

Pode parecer meio devagar no começo, mas funciona maravilhas narrativamente porque quando alguém morre isso te afeta não só por alguém que você gostava morrer  mas principalmente por você inconscientemente querer aliviar para o lado dos seus favoritos na hora da investigação. Esse efeito é fantástico e mais de uma vez eu me vi tentando distorcer minha linha de raciocínio para não acusar um personagem que eu gostava mais do que os outros.

SANGUE NOS ZOIO, TRIPA NO CHÃO

No começo não há nenhum assassinato, obviamente, pq ninguém faria isso. Mas com o passar do tempo Monokuma (o tal urso animatronico de satã) fica entediado e começa a colocar pilha e pressão nos confinados até que alguém surte e meta a faca no coleguinha, que é onde o ambiente escolar começa a ficar pesado.

Sabendo que não foi você o assassino, só resta investigar para descobrir quem foi do contrário o criminoso vai embora livre e todo o resto da galera, incluindo você come capim pela raiz. A investigação é claramente uma das partes de Phoenix Wright que eles agilizaram, felizmente.

Se em PW era de longe a parte mais chata do jogo ter que ir em todos os cenários e clicar em tudo até que o jogo entenda que você já tem pistas o bastante, aqui o jogo é bem mais camarada com você: ele mostra no mapa os lugares do colégio pertinentes ao caso que você tem que visitar e não deixa você sair de uma cena até que tenha feito tudo que tinha para fazer nela.

Isso não soa tão legal dizendo assim, parece que o jogo está facilitando ou te guiando pela mão, mas a verdade é que poupa HORAS da sua paciência. Nada de ficar horas vagando sem saber o que você esqueceu de coletar como acontecia em PW, aleluia.

Mas mais importante que isso, os mistérios dos assassinatos são perfeitos como mistério: em nenhum caso eu fui para o julgamento sem ter uma boa noção do que tinha acontecido ao mesmo tempo em que nenhum eu sabia EXATAMENTE o que tinha acontecido - que é o que um bom mistério deve almejar quando chega a hora do tradicional esclarecimento de contas Agatha Christiano.

Ajuda que o jogo trate a parta da investigação de forma plausível também. Você não é o Sherlock Holmes Jr e não descobre o caso todo sozinho, seus colegas também fazem suas próprias investigações (até pq é a vida deles na linha também) e na hora do julgamento apresentam informações que você não possuía.

Isso ajuda aquela sensação irreal que passa em Phoenix Wright de que você é o único cidadão no mundo que está investigando o caso e tem que fazer absolutamente tudo sozinho.

Nessa cena voce tem que atirar na fala roxa com a mira,
selecionar a pista correta (segurando L) para depois atirar
na fala amarela SE for essa a contradição. Antes que a frase
termine.
DANCE DANCE OBJECTION REVOLUTION

Os julgamentos de classe são as partes mais importantes do jogo, mas também as mais chatas. Por um lado é satisfatório ver as peças do quebra-cabeça se encaixando e você acertar ou errar suas predições como detetive amador. O jogo tem 6 capítulos, de modo que são 6 assassinatos misteriosos ocorridos para resolver e salvar sua pele, que não ficam devendo em nada aos bons livros de  mistério.

Essa é a parte legal. A parte chata é como isso é feito.

Em nenhum momento Danganronpa esconde que é um jogo dessa década para jovens dessa década. Ou seja, ele presume que o jogador tem Transtorno de Déficit de Atenção e parece escrito na mesma levada que Jogos Vorazes: frases curtas e fortes.

Não espere longos diálogos porque aqui é sempre papum, sempre tem algo acontecendo, o jogo alterna entre dialogo e ter que andar pelo colégio, as cutscenes normalmente são de coisas que chamam atenção, não tem muito papo furado aqui não.

E o mesmo se reflete nos julgamentos, em que assim como Phoenix Wright as pistas tem que ser apresentadas no meio das frases das pessoas para contradize-las. Só que diferente de PW em que é só isso que você tem que fazer - e pode voltar o testemunho quantas vezes quiser para ver onde está a contradição e qual pista desmascara isso, aqui tudo acontece no meio de mini-games em um ritmo frenético.

No final de cada julgamento voce tem que montar um mangá
do que aconteceu. O que é profundamente chato de fazer.
Então você ainda tem que encontrar a contradição, escolher a pista (o texto não para afim de você escolher a pista certa) enquanto tem que fazer um mini game de tiro na tela (sério). Esse é o modo principal de jogo no julgamento mas assim como o resto, o julgamento fica alternando entre diversos minigames diferentes.

Tem até um  modo de "bate boca" que você joga como aqueles jogos de música de apertar botões no ritmo.


Talvez seja porque eu sou autista e chato, mas só desvendar a trama já era desafio suficiente para mim. Não precisava ter que ficar jogando joguinhos de brickgame e sapateando enquanto faço isso (ao menos o jogo não foi lançado para wii ou kinect, bendito seja).

Dance Dance Revolution no meio de um julgamento,
pq não?
De qualquer forma, minigames a parte o interessante dos julgamentos é que como não há acusação e defesa e sim um bando de adolescentes querendo colocar a culpa em alguém, a bola fica quicando de um lado para o outro. Teve um julgamento em particular que a acusação de quem era o assassino mudou quatro vezes durante o curso do caso.

Adicione a isso que os personagens são realisticamente construídos e temos uma salada interessante aí. Enquanto um pequeno punhado de personagens tem uma cabeça em cima dos ombros e debatem o caso, outros agem como qualquer jurado agiria: decidem no calor do momento com base no primeiro achismo que vem na cabeça deles.

Converse com qualquer advogado especializado em casos de juri e vai ver que saber lidar com isso é mais importante do que o fato do cliente ser inocente ou culpado. Então sim, tem algumas pessoas imbecis que você sente um ímpeto de socar - mais ou menos como acontece quando você comete o erro de ler comentários na internet - mas isso é do jogo.


E te socar é tudo que eu quero.
Sério, essa desgraça não perde em nada para o Kyubei.
METAL GEAR SAW

Existe ainda um metaplot, uma grande imagem da história geral. Porque aquela escola-prisão foi construída, quem está controlando Monokuma e qual o propósito desse jogo de fazer os estudantes se matarem.

Nessa parte, no grande esquema das coisas, é necessário um pouco menos de realismo e um pouco mais de boa vontade para aceitar a história. Boa vontade no nível "as histórias do Hideo Kojima boa vontade".

A-há – você notou que eu disse “pelo menos em torno dos assassinatos”, né? É aqui que entra a minha impressão geral de influência de Metal Gear Solid. Embora a parte militar-política da série do Kojima seja, em grande parte, baseada em fatos reais, as extrapolações sempre beiraram o absurdo, e não apenas nos chefes sobre-humanos. Kojima não tem medo de levar as coisas às últimas consequências, mesmo que sejam improváveis, como uma “economia de guerra” totalmente baseada em milícias privadas (Metal Gear Solid 4). O importante é que se essa extrapolação serve ao tema que ele quer abordar, ótimo, vamos nessa. Em certa medida, Dangan Ronpa faz a mesma coisa quanto ao verdadeiro mistério principal: o da existência atual dessa escola-prisão. À medida que a trama avança, o tema principal – ou melhor, uma dicotomia – vai se revelando, “empurrado” pela descoberta dos eventos por trás da situação, por mais extremos que sejam. É algo esotérico? Realista? Surreal? Ficção científica? Místico? Desculpe, mas você precisa jogar para saber – mesmo que eu contasse agora, fora de contexto soaria apenas ridículo.

Pessoalmente achei a trama geral um pouco desapontante por ser mais puxado para lado de anime e termos discursos sobre poder da amizade e coisa e tal. Imagino que será mais desenvolvido nos outros jogos da série, mas ao menos posso parabenizar por ser uma ideia ambiciosa e grande.

Tenho que dizer também que a dublagem é ótima, normalmente eu não presto atenção em dublagem japonesa porque é só barulho pra mim, mas aqui está realmente impar. O "upupupupu" do Monokuma me dá vontade de socar a cara de pelúcia dele, e acho que esse era o objetivo aqui.


A música tema do Monokuma explica por si só o clima do jogo.
Espera, o que?

De modo geral Danganronpa reúne um elenco muito interessante de personagens em uma série de mistérios bastante interessantes e momentos slice-of-life na medida certa. Gostaria que os julgamentos fossem levados de uma forma mais leve o final é um pouco decepcionante, mas ainda sim é um grande jogo e um sopro de ideias nova em mercado que prima pela estagnação e apostas na mesmice.

Danganronpa também tem um anime que é basicamente uma versão resumida do jogo, copiado cena por cena. Assistir um torna desncessário jogar o outro e vice-versa.

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