domingo, 29 de novembro de 2015

The Binding of Isaac (ou voce será tratado como gente grande quando se comportar como gente grande)

The Binding of Isaac: Rebirth é o remake de um jogo de 2011 e pode fechar 2015 como dos jogos mais vendidos na Steam, não tenho os números aqui para dizer se é "O" mais vendido, mas com certeza entra no TOP 5 fácil fácil. Entretanto, alguma coisa me incomodou a respeito desse jogo.


Depois de jogar várias partidas eu realmente sentia cada vez menos e menos vontade de continuar jogando.

E não era porque o jogo não é mecanicamente divertido ou porque tem alguma falha intrínseca no gameplay ou bug que inviabilize o jogo, nada disso. O que realmente me incomoda nesse jogo é que ele representa muito do que existe de errado com os videogames hoje em dia.

Para começar eu tenho que reiterar que o jogo é bom. Muito bom, excelente se levarmos em consideração o preço e a duração, não é nem de perto o problema. Ele é um roguelike (ou seja, gera uma nova dungeon a cada gameplay) rápido, com milhões de itens que é o que modificam cada experiência de jogo (impossível você ter duas partidas iguais mesmo em termos de jogabilidade mesmo) e extremamente viciante na sua proposta

Considerando sua execução e faixa de preço, não tem nada que eu não recomendaria nesse jogo. Exceto que ele se esforça muito para ser uma versão religiosa de Ren e Stimpy. Pois é.

Eu me considero um cara razoavelmente vivido em relação a desenhos animados. Já assisti centenas de pérolas da animação ao longo da minha vida, desde obras de qualidade inquestionável como A Bela e a Fera e Akira, até horrores como Heavy Metal 2000 e Apocalypse Zero.

Diga-se de passagem, Apocalypse Zero é uma animação onde uma mulher gigante e obesa de 900 quilos que não depila a virilha e anda por aí vestindo apenas faixas de couro, agarra uma ninfeta e a espreme até a menina expelir os intestinos pela boca.Em outras palavras, não existe muita coisa capaz de me chocar em um desenho animado.Pois bem,

Ren e Stimpy... eu não consigo assistir a maioria dos episódios até o final. Só pra citar um exemplo, há uma cena em que todos os dentes de Ren caem e ele começa a puxar os nervos expostos com uma Pinça. A série é cheia de momentos assim.


The Binding of Isaac conta a "história" de uma mulher que se torna maníaca religiosa a lá Carrie e depois de arruinar a vida do seu filho como podia para "salva-lo do pecado" ouve de Deus na sua cabeça que ela deve sacrifica-lo ao Senhor. Como boa crente que é então ela tenta faze-lo e seu filho Isaac foge por sua vida e entra para o porão da casa onde existe um labirinto de tuneis repletos de bosta, fetos abortados mutantes e vaginas.



E quando eu digo bosta não é um cocozinho fofinho, é um monte de bosta asquerosa com milho no qual você tem que "estourar" para conseguir itens e moedas. Não há um único efeito sonoro (nem nada na verdade) no jogo que não se esforce para ser o mais asqueroso e nojento possível.

Sim, o jogo é imaturo e doentio. Eu não tenho problema com imaturo e doentio, desde que tenha um propósito ou uma mensagem. The Binding of Isaac não tem nenhum destes dois, ele quer apenas ofender por ofender como os cartoons da Nick dos anos 90 forçavam a barra só pelo prazer de ver até onde podiam se safar com isso.

Um típico item do jogo.
Veja, eu não teria problema se fosse uma critica a religião de verdade. Eu  seria um dos primeiros a aplaudir de pé. Mas não é. O tema é estranhamente alienígena ao jogo, na verdade a mecânica é completamente destituída da temática e isso é design ruim, exatamente o oposto de como um jogo deve funcionar.

Se o jogo fosse sobre um castelo, uma nave espacial ou compras no Walmart não mudaria nada. Regra do dedão pra cima: se você puder apenas mudar a skin do jogo e ele continuar a mesma coisa com outro tema, você está fazendo algo errado.

A "história" do jogo se resume a animação de abertura  que vai encher o saco da religião apenas porque é considerado cool chutar o cristianismo, em nenhum outro momento do jogo isso mencionado novamente ou relevante. Eu não sei como definir "gratuito" mais claramente.

Mais ou menos o equivalente de um adolescente que acabou de se dar conta que Deus não existe e revoltadinho resolve cagar numa Biblía. Esse é Binding of Isaac.

Só que nem é a treta com a religião o maior problema aqui, esse é até pequeno porque se resume a cena de abertura, e sim o quão nojento é todo o resto.

O real problema é a necessidade que o jogo parece ter em chocar seu público. Um cenário escatológico desnecessário usado, ali apenas para quem está jogando o jogo dizer "uau, como sou transgressor, eu sou mesmo muito diferente". Parece existir uma fixação em mostrar pessoas se urinando, ou fetos abortados cagando, em sequências que não fazem diferença alguma no todo. Chocar, apenas por chocar, nunca é interessante. Ser “perturbador” é completamente diferente de “chocar apenas por chocar”.

Ah, e piadas de peido. Muitas piadas de peido.

Mas eles fizeram isso só por infantilidade mesmo? Será?

QUANDO A POLÊMICA GRATUITA ACABA SAINDO UM ÓTIMO NEGÓCIO

 The Binding of Isaac ganhou a maior parte da sua publicidade (e por tabela seu sucesso de vendas) quando a Nintendo se recusou a publicar o jogo em suas lojas virtuais para o 3DS e o WiiU. Você deve estar pensando que a Nintendo tem uma política puritana infantil Mortal Kombat no Super Nintendo com sangue de farinha e blablabla, mas isso não poderia estar mais longe da verdade.

A Nintendo não liga para violência e gore a muitos anos. Eles tem jogos como Manhunt e Dementium, não é esse o problema. O problema é que o jogo dá cabeçada na religião e no aborto (se alguma coisa esse jogo ganha o premio por maior quantidade de fetos malformados por segundo de jogo) e a Nintendo decidiu que não queria esse rojão embaixo do seu capacho. E sejamos honestos, passe dois minutos na internet e você vai concordar que não vale a incomodação.

O que era EXATAMENTE a reação que os criadores do jogo estavam esperando (depois ela reviu essa postura, mas a headline já estava feita). Agora eles tinham a manchete que precisavam e assim transformaram um jogo que de outra forma seria apenas mediano em vendas em um dos maiores fenomenos de venda do ano.

Aí dá pra entender porque a "temática" do jogo é tão desconexa da sua mecanica: ela foi adicionada depois, em um movimento cuidadosamente planejado para levantar a maior publicidade possível. Foi uma jogada de marketing cuidadosamente planejada.

SUA MÃE ODEIA ESSE JOGO

Em 2011 a EA lançou uma campanha para o jogo Dead Space 2 chamada "Sua mãe odeia esse jogo", que para surpresa de ninguém causou uma enorme repercussão negativa para a campanha e um enorme número de vendas para o jogo.



Dead Space 2, como a maioria dos jogos voltados para os jogadores entusiastas dos consoles HD de última geração, foi classificado pelo ESRB, órgão americano da própria indústria de games, como rated M – a categoria mais alta, que significa “recomendado para maiores de 17 anos”. Isto é, adultos.
(...) O que eu quero dizer  com isso é que Dead Space 2, como um jogo rated M, é recomendado em grande parte para quem não mora mais com os pais ou está se preparando para sair – e, se tiver um pingo de maturidade, tem mais o que fazer do que mostrar o jogo para a mãe, por qualquer motivo.

A campanha da EA não se alinha a essa lógica. De acordo com a propaganda, o fato de fazer uma mãe odiar o jogo o torna bom e adequado para o filho. Quem costuma usar esta lógica simplista? Crianças, claro. Quem mais? Adolescentes na fase crítica de rebeldia eu-não-pedi-pra-nascer-porra!E quem mais… Ah. Adultos que ainda moram com os pais e sentem algum prazer em ver sua mãe assustada/enojada? Que espécie de adulto é esse? Que estereótipo isso invoca?…

… Oh. Nerds gordos sebentos que vivem no porão da casa dos pais?


A campanha da EA, que não aconteceu por acaso e sim depois de um longo estudo (estamos falando de uma das maiores empresas do mundo no ramo), deixou bem claro o seu publico alvo: adultos que tem a mentalidade de aborrescentes que acham o máximo chocar o papai e a mamãe. Só que a campanha cometeu um erro estratégico: deixou bem claro que estava chamando os jogadores de moleques imaturos e isso gerou muita animosidade contra a empresa.

The Binding of Isaac refinou essa arte a níveis épicos, mantendo a mesma engrenagem mas polindo qualquer aresta que poderia ofender seus consumidores. A chamada do jogo é clara: "Hey você marmanjão que se acha muito darki e du mau, super radical e alternativo, esse jogo é pra alguém cool como você" porque The Binding of Isaac sabe que o mercado de jogos é composto por moleques imaturos de 30 anos como a EA já sabia em 2011.

A temática do jogo foi comercialmente talhada a dedo, porque seus criadores sabiam EXATAMENTE para quem estavam vendendo. Assim o Cauê Moura faz vídeos gritando porque ele sabe EXATAMENTE quem está lhe dando views.

Se você tem mais de 16 anos e não entende porque qualquer um adulto acharia qualquer uma dessas coisas legal, então claramente você não é o publico alvo. O "publico alvo" é para quem os portais de games enchem de fotos de cosplay de gostosas seminuas, o "publico alvo" é para quem são feitas listas Top 10 dia-sim dia-não (poucas coisas são mais adolescentes do que isso).

Esse é o truque aqui: entender as regras do jogo, nunca as mencionar abertamente (porque consumidores ofendidos gastam menos, e poucas coisas ofendem mais que a verdade), e explorar isso com a maior frieza possível.

Todo mundo que trabalha com isso sabe exatamente de quem eles tentando tirar dinheiro, os próprios gamers sabem exatamente  quem eles são. E Binding of Isaac elevou a um status de arte o oficio de explorar os jogadores nas fraquezas de sua imaturidade.

E em resposta o publico alvo tornou o remake desse jogo um dos jogos mais vendidos de 2015 em não pouca monta devido a exclusivamente a estes fatores,  eis o real problema.

Eu não tenho nada contra esse jogo ser feito, alias eu não quero viver em um mundo onde esse jogo não possa ser feito, o que me incomoda é que os gamers estão votando maciçamente com suas carteiras que eles são esse tipo de publico e é esse o tipo de jogo que eles querem - o único tipo de voto que vale no fim das contas.

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