quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Metroid Prime (ou o último Metroid ainda não está em cativeiro)

Imagine que estamos no ano 2000. De alguma forma você ainda esta surpreso que o mundo não acabou no ano novo de 1999 nem as máquinas se rebelaram. Trata-se de um mundo louco no qual Doctor Who não voltaria a televisão por pelo menos mais cinco anos e rede social era só a rede que o ambulante nordestino vendia na praia.

Então você está lá, cuidando da sua vida, se metendo com suas proprias coisas quando alguém bate na sua porta domingo de manhã enquanto você está escovando os dentes. "Malditas Testemunhas de Jeová", você pensa, mas vai atender mesmo assim.

Para sua surpresa não é um crente safadão e sim ninguém menos que Shigueru Miyamoto,
apenas o maior nome da história dos videogames. Na verdade videogames só existe hoje, após o fracasso da Atari, graças a este homem. O homem que inventou Donkey Kong, Zelda e isso:


Eu já disse mas não me custa repetir: a fase 1-1 de Super Mario Bros. é uma das grandes composições da história da humanidade, ao lado da 9a sinfonia de Beethoven, o gol de Maradona contra a Inglaterra na copa de 86 e basicamente qualquer coisa que George Orwell tenha escrito.

Imagine um mundo em que as pessoas tem desprezo por música e alguém dissesse a Beethoven (bem alto, pq ele era meio surdo): "Certo chucrute, você tem uma introdução para fazer as pessoas gostarem de música novamente". Ou dissessem a Van Gogh: "Ta bom orelhinha, você tem um único quadro para fazer as pessoas gostarem de pinturas novamente. E... vai!". Foi exatamente esse o desafio que Miyamoto teve ao transformar a aversão que as pessoas tinham a palavra videogame após o fim lastimavel da Atari em uma paixão novamente. E ele tinha apenas uma única fase de um minuto para fazer isso. Homens menores teriam desmoronado sobre essa pressão. O simples fato de que eu estou escrevendo sobre videogames hoje mostra que alguma coisa ele fez certo.

Agora voltemos a nossa história, agora que você entende quem Shigueru Miyamoto é. Lembre-se: é domingo de manhã do ano 2000, você está escovando os dentes, vai atender a porta com a escova ainda na boca e esta lá parado o cara que criou o que nós entendemos hoje por videogames. E ele te diz a seguinte coisa:

- Olá, bom dia. Eu estou tentando criar uma continuação em 3D para o melhor jogo de todos os tempos mas honestamente, já se passaram oito anos e eu não consegui pensar em absolutamente nada. Você poderia fazer isso pra mim?

Homens menores teriam desmoronado e chorado. No entanto, essa é a história da Retro Games.

Vamos começar deixando uma coisa bastante clara: Super Metroid é o melhor jogo de todos os tempos. O melhor. Mais de vinte anos depois eu não consigo pensar em uma única coisa que eu mudaria naquele jogo. Super Metroid é o equivalente em videogames aos monologos do Matt Smith como Doutor, foi quando os planetas se alinharam e disseram "é, não fica melhor que isso". Da trilha sonora ao gameplay, da sensação de solidão a respeitar a inteligencia do jogador, Super Metroid faz tudo certo.

Super Metroid é tão bom, mas tão bom que mesmo um genio como Miyamoto passou oito anos coçando a cabeça e chegou a conclusão "é, não tenho nada, caras". Como eu havia dito antes, adaptar um jogo para o 3D não é adaptação porcaria nenhuma e sim fazer outra obra prima começando do zero. Miyamoto fez isso com Mario 64 e acertou a lua com Ocarina of Time. Mas pra Metroid ele não tinha nenhuma grande ideia no bolso.

Por sorte, a Retro Games tinha algumas boas ideias na sua manga sim.

A GENIALIDADE DOS PIORES CONTROLES DO MUNDO

A primeira coisa que me chamou a atenção ao jogar Metroid Prime foi o quanto seus controles são desnecessariamente complicados. Por que os controles não podiam ser apenas uma extensão do seu corpo como em Halo? Por que não podiam ser leves e naturais? Céus, eu tinha que operar tantos mecanismos laterais para fazer as coisas simples que parecia que eu não estava movimento meu personagem e sim operando uma armadura!

... hey, espera aí.... espere um momento aí... o que foi que eu acabei de dizer?

Foi só então que eu me dei conta do que eles fizeram aqui. Os controles do jogo te passam a sensação de que você está operando uma armadura desnecessariamente complicada porque, adivinha o que, você ESTÁ operando uma armadura desnecessariamente complicada. O jogo não é sobre Samus Aran, o Rambo do agreste. O jogo é sobre a caçadora de recompensas em sua iconica armadura alienígena amarela.

Em todos estes anos nesta industria vital eu nunca realmente havia sentido essa sensação de estar operando uma armadura! E quer saber? Foi legal pra caralho quando eu finalmente entendi isso! Eu me senti como eu me sentia quando era criança e o Jaspion usava o sensor ótico, eu achava tão infinitamente legal aquilo. Aqui a armadura é parte fundamental da experiencia de certa forma sua única companhia durante o jogo, mas não uma sem preço. O computador de mira da armadura te ajuda atirar, mas em nenhum momento voce tem a sensação de que é automatizado ou que você nao é parte importante daquilo, apenas que você está suando em bicas apertando botões para fazer o equipamento funcionar.

Então diferente de outros jogos do genero onde sua armadura é só um floreio narrativo sem nenhum impacto no gameplay, e inclua-se até mesmo Halo nisso, aqui a armadura é parte essencial da sua experiencia de jogo. Experiencia que até hoje nenhum outro jogo conseguiu reproduzir.

FPA: FIRST PERSON ... ADVENTURE?

Jogos de tiro em primeira pessoa (First Person Shooter, FPS) são bem o que você poderia imaginar pelo nome: você entra em uma sala ou corredor, mete bala em tudo que se mexe, em muitas coisas que não se mexem, e vai para a próxima sala. Essa mecanica consagrada por Wolfenstein é usada até hoje a exaustão com poucas variações e mesmo jogos que pretendem fazer um mundo aberto de exploração como Borderlands ou Dead Island só te dão outras salas para você meter bala em tudo.

A Retro Games teve uma ideia diferente: um jogo de aventura e exploração que por acaso seria em primeira pessoa. Como todos os jogos da série Metroid a dificuldade aqui está em descobrir como chegar em determinado lugar, não tanto em pavimentar seu caminho com corpos até lá.

Então o jogo tem um passo mais lento, é mais de exploração, com saltos e uso de power-ups. E muito backtracking. O jogo ser em primeira pessoa é só uma ferramenta de imersão nessa narrativa e não a caracteristica chave que o define como acontece em um FPS.

Metroid Prime poderia perfeitamente ter sido um jogo de tiro em terceira pessoa (quando voce ve o seu bonequinho de fora) como Metroid: Other M é, mas perderia muito do seu charme. Eu diria que perderia inclusive o fator chave que define a franquia toda: a sensação de solidão.

NO ESPAÇO NINGUÉM PODE TE OUVIR GRITAR

Como todos os jogos da série até esse ponto, Metroid não tem dialogos. Basicamente porque Samus não tem com quem falar: ela não tem amigos, não tem reforços, não tem um plano de reserva. Apenas você contra o mundo.
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Metroid Prime apresenta uma alternativa a isso: você fica sabendo da história de Tallon IV através do que você consegue scanear com sua armadura passagens deixadas pelos Chozo (os antigos habitantes do Planeta) assim como hackear as comunicações dos Piratas Espaciais.

Tallon IV tem uma história interessante: no auge da sua civilização tecnologica e moralmente avançada, os Chozo sentiram que estavam perdendo o contato com a sua essencia espiritual e partiram pelo universo em busca de bolsões de paz onde poderiam se reencontrar com sua essencia xamãnistica. Tallon IV foi um desses mundos onde os Chozo encontraram paz e comunhão com a natureza.

Até o dia que o universo disse "FODA-SE!" e um meteoro carregado de uma substancia mutagenica venenosa caiu em Tallon IV. O veneno do meteoro (chamado de Phazon) se espalhou pelo mundo e o corrompeu, transformando Tallon IV num mundo hostil e predatório. Com muito esforço os Chozo conseguiram isolar o meteoro em um santuario, mas a corrupção venenosa do Phazon já havia se espalhado irremediavelmente.

Muitos anos depois os Piratas Espaciais encontraram esse mundo e cresceram o olho em cima do Phazon: uma substancia quimica que permite transformar geneticamente criaturas para serem super soldados ou armas biologicas? Já estão lá.

Assim Tallon IV passa bem essa sensação de ser um mundo construído em duas camadas: a civilização inicial dos Chozo e em cima disso os laboratórios e equipamento de guerra dos Piratas Espaciais. Trata-se de um design muito inteligente e único.

Metroid Prime se passa depois do primeiro Metroid e antes de Metroid 2. O que significa que a essa altura Samus já entrou na base dos Piratas Espaciais e matou seus lideres, chutou a bunda deles e apenas porque sim, explodiu o lugar todo. O que significa que enquanto reconstroem seus recursos, os Piratas Espaciais estão apavorados com "A Caçadora". Existem passagens muito interessantes sobre como os piratas estão tentando entender como a armadura e as habilidades de Samus funcionam (eles tentaram recriar o efeito da morphing ball com resultados tão desastrosos quanto voce poderia imaginar), assim como entender como os Metroids funcionam.


Netflix por favor, nunca te pedi nada

Essa é uma parte particularmente interessante ali, porque realmente parece que os Piratas Espaciais estão realmente tentando fazer ciencia de verdade ali e tentam entender como a habilidade de drenar energia dos Metroids funciona - apenas para descobrir que eles não sabem nem exatamente o que é a tal "força vital" que os Metroids drenam, não é fluido nem nenhum tipo de energia conhecida, o Metroid apenas suga "algo" do ser vivo e ela morre. Eles não entenderam sequer porque o ser vivo morre, a ciencia moderna não sabe sequer o que ela não está sabendo.

Isso dá a sensação de um mundo vivo, importante, que estava ali antes de você chegar  e não é um cenário construido apenas ao redor do jogador e isso faz toda diferença do mundo.

Em Vanquish existe uma ponte que desmorona quando voce atravessa. Apenas porque sim, você sabe que o unico motivo daquela ponte existir é para que ela desmorone enquanto voce atravessa ela. Voce sabe disso, e isso é muito broxante.

O mundo de Tallon IV parece existir por si próprio a milhares de anos e posteriormente os Piratas Espaciais estavam ocupados fazendo outra coisa, você estar ali só esta atrapalhando eles! Aquele mundo não existe em sua função do jogador, ele não poderia cagar mais se o jogador existe ou não. Durante o jogo voce escaneia muitas criaturas e plantas nativas de Tallon IV, e enquanto muitas delas te dão informações uteis para o jogo (como destrui-las, qual sua meta-função), outras simplesmente tem entradas biologicas comuns.

"O capim místico de Tallon IV se retrai para o chão quando ameaçado e imobiliza pequenas criaturas, mas nada que vá afetar alguém do seu tamanho.". Não te faz mais forte, mais rápido ou joga melhor. Na verdade a animação da plantinha recolhendo para o chão quando voce atira ou algo do tipo deu trabalho para fazer e praticamente não influencia em nada o jogo.

Só que é assim que se constrói um mundo de jogo memoravel, crianças. Metroid Prime acerta nos detalhezinhos, tudo foi feito com tanto cuidado para não parecer um jogo e sim uma exploração de verdade que não tem como não reconhecer o jogo por seus méritos. A armadura alien que a Samus usa parece uma armadura alien (mais importante, voce sente como se fosse), o mundo se esforça para parecer um mundo de verdade ainda com o layout de fases para ser um grande jogo de Metroid. Na verdade não existem duas salas iguais nesse jogo, cada sala foi desenhada uma a uma e o mapa geral do jogo foi muito bem pensado.


HÁ MALES QUE VEM PARA O BEM

Eu disse que não tem nada em Super Metroid que eu melhoraria mesmo 20 anos depois, mas isso não é verdade. Existem várias coisas que Metroid Prime faz melhor. O sistema de visores (visão termal, Raio-X, modo de scaneamento) funciona bem melhor e mais fluído do que Super Metroid. O sistema de misseis foi simplificado e o Grapple Beam ficou menos burocrático também. E por incrivel que pareça a animação da morph ball faz muito sentido.

Um dos grandes choques da infancia
Mas a melhor parte é que o combate com os piratas espaciais é praticamente um mini-game a parte. A maior parte dos monstros de Tallon IV é apenas travar a mira e atirar, mas os piratas espaciais exigem uma certa agilidade mental (mas não manual, felizmente). Então você tem que saber que tipo de visor usar para enfrenta-los e que tipo de armamento, e tudo flui tão bem no jogo que é uma experiencia muito satisfatória.

Outra coisa que fica muito melhor neste jogo são os Metroids. Sua habilidade de voar rapidamente em corredores apertados e drenar grandes quantidades de vida sempre foram sua marca registrada na série, mas aqui em primeira pessoa eles se tornam uma ameaça paupavel. E o jogo foi muito bem pensado nisso.

Quando você usa a visão termal você perde o radar, então em salas escuras voce pode ver de onde eles estão vindo OU ver o que esta acontecendo, mas não os dois ao mesmo tempo. E eles estão vindo pra cima de voce, é um pouco agoniante mas de uma forma controlada e divertida - não assustadora realmente.

Ou seja, é a melhor apresentação dos monstros iconicos da série que eu já vi até hoje.

E A BENS QUE VEM PARA O MAL

Metroid Prime foi feito para ser um jogo de exploração e aventura, e faz isso magnificamente bem. Quando foca no combate, no entanto, é menos do que excelente. Você se sente limitado nas batalhas contra chefes e na reta final do jogo, claramente fazendo algo para o qual o jogo não foi feito.

O maior defeito que eu posso apontar em Metroid Prime é não ser Super Metroid. A narrativa minimalista não é nem de perto tão elegante quanto a do SNES (que tem a melhor introdução a um jogo de todos os tempos). A batalha final não é tão épica ou divertida e certamente não tão emocionante (quando o único improvavel amigo que você teve sua vida toda se sacrifica para salvar sua vida). Ou sua trilha sonora não é tão inspirada. Com efeito, as melhores músicas do jogo são aquelas que são remix dos jogos do SNES, e isso é dizer alguma coisa.


Okay... porque ela não está usando a Gravity Suit mesmo? E definitivamente isso não é o hyper Beam, se querem usar minha nostalgia ao menos usem direito!

Eu lembro de quantas horas eu passei na infancia tentando imaginar como os lugares de Zebes fariam um mundo funcional, porque claramente aquilo havia sido um mundo muito tempo atrás em uma história que jamais será contada. Metroid Prime brinca com essa sensação, embora não com a mesma classe, por exemplo.

Mas quando seu maior defeito é apenas não ser tão bom quanto o melhor jogo de todos os tempos, eu diria que você sim fez um trabalho danado de bom




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