quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Macross (ou de boas ideias é pavimentada a estrada para o inferno)

Desnecessário explicar a relevância de Cavaleiros do Zodíaco (e seu estrondoso sucesso na época) para a televisão brasileira, mas você sabia que nos anos 80 houve um anime com um efeito tão importante quanto nos Estados Unidos? Trata-se de Robotech, o Cavaleiros do Zodíaco deles.

Mas o que é Robotech? Ora, nos anos 80 a distribuidora Harmony Gold adquiriu o direito de três animes completamente diferentes e decidiu redubla-los e edita-los como se fosse uma única grande saga (não muito diferente, em essência, ao que a Saban fez anos depois com os Super Sentai japoneses dando origem aos Power Rangers), nascia aí Robotech. -Macross, Southern Cross, e Mospeada não tem  nada em comum entre si até a magia da edição ocidental entrar em ação.

Na opinião de muitos, Robotech é de muitas formas melhor como saga do que a soma individual de suas partes. Considerando que desses três animes apenas Macross foi um sucesso no Japão, e considerando que mesmo Macross tem sua cota enorme de falhas, não é difícil acreditar. Sobre isso eu falarei hoje.


Todas as coisas consideradas, pode-se dizer que Macross é uma comédia de erros com excelentes ideias (mesmo para os padrões de hoje) mas de uma execução sofrível devido a baixo orçamento, direção equivocada e puro mau gosto dos japoneses mesmo.

DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO

No ano de 1999, como você deve muito bem lembrar, uma nave alienígena caiu na Terra. Isso foi logo após a guerra da unificação mundial, talvez os mais novos entre vocês não lembrem que isso aconteceu durante os anos 90. Seja como for, o governo mundial pegou aquela nave que caiu no Pacífico Sul e usou engenharia reversa para reforma-la, batizando-a de Macross. A lógica era bastante simples: "essa nave pertencia a alguém, daqui a pouco aparece um alien querendo ela de volta e talvez isso não acabe muito bem pra gente".


O que é uma boa ideia na teoria, não tão boa na execução. Acontece que sim, 10 anos depois aparecem aliens querendo levar a nave de volta e apenas porque sim já chegam sentando o sarrafo sem nem dar bom dia. Qual o problema disso? O problema é que a série é mal escrita e confusa, leva algum bom tempo para entender que os Zentradi - os aliens gigantes que surgem sentando a bota - não construíram a Macross.

Quem construiu a Macross (bem, a nave original que viria a ser reformada pelos humanos para ser a Macross) foi o Exercito de Supervisão, um inimigo dos Zentradi que nunca aparece no anime e é citado acho que duas ou três vezes no máximo.

Porque isso é tão importante entender? Porque essa é a motivação dos antagonistas do anime: eles não querem destruir a humanidade nem mesmo a Macross, eles querem apenas recuperar tecnologia inimiga no meio da guerra. Só que o anime é confuso e mal escrito, com diálogos que beiram o nonsense, e é realmente difícil entender isso, por tabela entender o que está acontecendo e por conseguinte conseguir se importar.

Uma nave com porta-aviões no lugar de braços.
SEU ARGUMENTO É INVÁLIDO!
E olha que esse é o pilar de sustentação do anime, é a espinha dorsal da coisa toda, e é tratado com esse nível de descaso, dá pra imaginar o padrão de qualidade das subtramas e de todo o resto. Como eu disse todo o anime é tão mal escrito e mal animado que em boa parte do tempo diverte mais pela comédia involuntária do que qualquer outra coisa.

Por exemplo quando a Terra é atacada pelos Zentradi a Macross salta acidentalmente para a órbita de Plutão levando consigo o espaço ao seu redor (incluindo a cidade que se formou ao redor da grande empreitada que era reformar a Macross). Qual o problema disso? O problema é que depois que a cidade estava lá flutuando em pedaços no espaço (que é uma cena bem legal, alias) alguém foi e colocou a cidade dentro da Macross e ela é completamente funcional.

Não, eles não acomodaram os sobreviventes e adaptaram a nave para ser uma cidade, eles literalmente recolheram a cidade prédio por prédio do espaço e reconstruíram dentro da Macross com as casas exatamente do jeito que eram e até com sinaleiras de transito. Quer dizer, COMO? QUEM? POR QUE? WHYYYYYYYY?

A série não perde tempo com detalhes banais como a lógica, se uma coisa parece legal então é isso e deu. Ok, ter uma cidade dentro de uma nave realmente é muito legal, mas não tinha um jeito menos porco de executar?

Tudo bem, "tá, foi assim e nunca mais vamos falar sobre isso" era uma prática bastante comum nos animes dos anos 80 (né Cavaleiros de Aço? Cavaleiro de Cristal?), mas não dá pra evitar a sensação que boa parte de Macross foi feita de qualquer jeito apenas porque ninguém liga mesmo.

Mas aí é que entra a parte interessante: entre as patetadas e buracos de roteiro, Macross tem algumas ideias genuinamente boas perdidas aí no meio. Por mais que eu ache que uma nave que vira um semi-robô gigante e usa dois porta-aviões como braços seja muito legal, o grande trunfo de Macross vem de sua abordagem da guerra entre humanos e Zentradi.

Normalmente como funciona um anime de mecha: a humanidade esta apanhando mais do que cachorro que roubou linguiça, aí o protagonista surge com um mecha especial que desequilibra a guerra em favor dos humanos até que o inimigo começa a mandar "pilotos especiais " para enfrenta-lo. Pense bem: Neon Genesis Evangelion é assim, Gundam é assim, até Attack on Titan é assim (porque aquilo virou um anime de mecha esta alem da minha compreensão, no entanto). Macross não é assim.

Hikaru Ichijo não é um piloto superdotado com uma nave irada que desequilibra a guerra. Não, ele é um piloto comum que acaba sendo promovido na hierarquia militar porque as pessoas acima dele morreram e ele ficou vivo então foi promovido, porque é EXATAMENTE ASSIM QUE ACONTECE NA GUERRA. A valkyrie (os caças que se transformam em robôs) dele também é bastante especial, mas não porque tenha algum supor poder ou nada do tipo, mas sim porque tem um significado sentimental pra ele. Só isso. Fim. Acabou.

Da mesma forma, a humanidade não tem força para enfrentar os Zentradi. Na verdade o único motivo pelo qual a Macross não foi varrida do mapa é porque os aliens querem a nave inteira para estudar sua tecnologia. Então na hora do aperto eles tiram um super poder do olho do cu e vencem heroicamente em nome da amizade, certo? Não, nada disso.

O que destrói os Zentradi na verdade é o choque de culturas com os humanos que os faz questionar seus próprios valores e a necessidade de lutar. Muitos anos depois Battlestar Galactica (de 2004) aplicou essa ideia muito melhor executada, mas o cerne da coisa é o mesmo. Com efeito o foco do anime é mais nos protagonistas e sua vida pessoal com a guerra como pano de fundo.

Como eu disse existem diversas ideias boas no meio dessa coisa mesmo para os padrões de hoje. Parece que Shoji Kawamori quis aproveitar a modinha de mechas espaciais iniciada por Gundam três anos antes, só que antes disso ele sentou e absorveu ideias de Battlestar Galactica (a série de 78), Star Trek e Star Wars, criando uma obra unica disso tudo. Só que ele também criou a Lynn Minmay..

Macross funciona na dicotomia entre pontos de vista sobre a vida: aliens vs humanos, civis vs militares, homens vs mulheres. E Lynn Minmay é o pino que mantem esses tres eixos juntos. O que seria incrível, não fosse o fato de que a guria é completamente insuportável.

Fica realmente difícil ter qualquer tipo de empatia por ela quando ela parece que está participando de outro anime e por acidente colaram cenas dela em Macros. Ela acha genuinamente que a guerra é um tipo de esporte que as pessoas podem desligar a hora que quiser. De modo geral ela parece apenas mimada e inconsequente, como se ninguém nunca houvesse dito não para ela em toda sua vida, flutuando de um capricho para outro com leviandade.

Fosse um personagem secundário não seria grande problema, só que o universo todo gira em torno dela. E enquanto é legal um cenário que a música pop vença a guerra (com um fundamento para porque isso acontece), é muito menos legal quando a coisa toda gira em torno do equivalente em anime do Justin Bieber. E não me faça começar sobre o primo/marido/agente (sério, a série é muito confusa em dar a entender qual é o relacionamento deles) dela, Lynn Kaifun...


Espero que você goste dessa música, porque por mais de dois anos é tudo que a Minmay vai cantar na Macross. Guerras civis já começaram por menos que isso.

E esse é o outro grande problema da série: ela é mal distribuída, mal planejada. Macross tem 36 episódios mas a história termina por volta do 27. Sério, o episódio 27 tem muito cara de series finalle, e teria sido muito bonito se encerrasse com a cena da Macross caindo em ruínas na Terra devastada ao por do Sol, tem FINAL estampada em toda cena. 

Adicionalmente, Cláudia era negra não pra provar um estereotipo,
defender bandeira ou colocar um tema. Ela apenas era um ser
humano que acontecia de ser negra. Levariam muitos anos até
vemos o assunto ser tratado com a naturalidade que merece em
uma animação.
Mas aí tem mais 9 episódios (ou seja, 1/4 da série) sobre a reconstrução da sociedade. E enquanto isso é legal na teoria, na prática não é sobre muita coisa em particular. Tem uma rebelião dos Zentradi que não aceitam viver entre os humanos que não dá em muita coisa, e a maior parte é uma novelinha sobre o triangulo amoroso de Hikaru, Minmay e Hayase. O que até poderia dar um bom tema, não fosse esticado muito além do ponto e fosse inserido durante a história, não como principal motivo dela. Tipo Shurato tem dois episódios depois que a história termina com a coisa do "day after", e isso esta aceitável, mas 1/4 da série sobre nada em particular foi um erro feio, um erro rude.

ENFIM...

Esta é uma série que vemos um bebê ser levado ao meio do combate e usado como arma psicológica, um robô 12 metros emboscar alguém em um vaso sanitário, várias naves espaciais sendo perfuradas até a morte, e, claro, o trio de espiões Zentradi. O episódio casamento é notavelmente bobo, e eu gostaria de destacar Max Jenius como um dos homens mais sortudos a terem pilotado um robô. 

Roy Focker. O homem, o mito, a lenda.
Os Zentradi são um ponto a favor do caso. Aliens guerreiros militaristas são comuns na ficção científica, mas como o anime usa estes gigantes é o que os torna especiais. Nos primeiros episódios a tripulação da Macross acredita esta ser uma luta desesperada mas os Zentradi estão muito mais confusos do que beligerantes, deliberadamente pegando leve para capturar a nave intacta por sua tecnologia perdida, e geralmente são confundidos pelas ações de sua tripulação. 

 Como a série progride, torna-se claro que eles não têm noção de uma vida para além da guerra, e o contato com a Macross tem um efeito poderoso e divisiva nos Zentradi. O "o que é essa coisa terrestre chamada beijar?". A brincadeira logo é usada em uma escala maciça, alguns Zentradi se convertem a "cultura" da terra, outros reagindo como fundamentalistas religiosos. As cenas que vê-los tentando entender ou se adaptar à vida humana são alguns dos mais interessantes e cativantes da série. De modo geral, Macross mantém a ideia recorrente de que existe na vida do que lutar. É uma boa ideia para um anime de ter.

E claro, ajuda a abertura ser um Enka. Enka é o que podemos chamar de "musica de samurai corno". Se Reginaldo Rossi fosse um samurai desempregado da era Meiji, Enka é o que ele cantaria. Como não amar?


Mesmo que Macross fosse uma série sem boas ideias e desenvolvimento de personagem (o que felizmente não é o caso), valeria a pena assistir comprovando a teoria da hipnose das aberturas do Amer

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