terça-feira, 10 de novembro de 2015

Life is Strange (1a temporada - Cap 1 a 5)

Doctor Who é minha série de TV favorita por diversas razões, e uma destas razões é que de tempos em tempos, uma vez a cada um milhão de dias, quando o vento sopra favorável e o Doutor vem ajudar, temos discursos lindos que te fazem realmente pensar. O da semana passada (The Zygon Inversion, s09e08) foi de uma precisão que exorcizou algo que eu (e muita gente, pela repercussão do episódio) precisava colocar pra fora. E claro, a atuação da vida do Peter Capaldi também ajudou muito.

Mas um dos meus discursos favoritos da série é de um episódio que o Doutor aparece muito pouco, quase nem aparece na verdade. "Love and Monsters" (s02e10), que na minha opinião é um dos grandes episódios da série. Isso é relevante porque eu lembrei muito desse discurso enquanto jogava "Life is Strange".

"Quando você é criança, eles te dizem que a vida é apenas...
Cresça. Consiga um emprego. Compre uma casa. Tenha um filho.
E é isso.
Mas a verdade é, que o mundo é tão mais estranho do que isso.
é muito mais sombrio.
E tão mais insano. 
E tão mais... melhor!"

 Porque a vida é estranha.

DONTNOD APRESENTA SUA NOVA NOVELA INTERATIVA

Novelas interativas não são games exatamente na definição tradicional da palavra: você ainda controla seu bonequinho do ponto A ao ponto B, mas o grosso do jogo gira em torno de assistir animações e fazer escolhas. Mais para um filme interativo do que um videogame.

A produtora Dontnot estreou no mundo dos games com o mediano "Remember Me". Verdade que o jogo tinha uma temática fantástica e um cenário inspiradaço, mas o jogo em si não tinha nada de especial e a narração era qualquer coisa de previsível.

Explicado isso, vamos ao jogo per se.

QUANDO EFEITO BORBOLETA ENCONTRA GONE HOME

Maxine Caulfield é uma jovem geek hipster nascida e criada na cidadezinha de merda de Arcadia Bay. Aos treze anos de idade sua familia se mudou para a cidade grande, Seattle,  e agora cinco anos depois ela retorna a Arcadia Bay para fazer um curso de fotografia no colegial Blackwell porque acontecia de um fotografo picaroso hipster dar aulas lá.

Pra começar que me foi muito complicado entender o que a Academia Blackwell é porque ela não é uma faculdade ao mesmo tempo que não é segundo grau (até porque todos os personagens tem, no minimo, 18 anos). Ela é uma coisa que não existe no Brasil: uma "Senior Highschool" (SHS). A SHS é uma continuação do colegial onde o aluno tem aulas optativas de matérias que o interessem profissionalmente antes de entrar na faculdade (no caso de Max, é a fotografia).

A parte de Max retornar para a cidade de sua infância é extremamente importante para a narrativa e transpira a sensação de nostalgia que permeia o jogo, lembrando muito Gone Home. Dá pra dizer que é quase um "anos 90 simulator" e as memórias de Max principalmente quando ela esta na casa da sua melhor amiga de infância são de uma sinceridade com a qual não tem como não se conectar.

Não sei se você já morou longe da cidade onde cresceu, mas posso dizer que nestes casos cada pequeno detalhe conta muito na hora de visitar sua terra natal, e Life is Strange capturou essa sensação muito bem. A ambientação é perfeita e esparrama saudades da infância de uma forma bem feita.

Claro que a trilha sonora indie e o clima de permanente por do sol ajudam bastante, foi o mais perto que eu tive a sensação de estar jogando um jogo de Juno. Sim, aquele da guria gravida, acho que passa bem o espirito da coisa.



Só nisso o jogo já te ganha completamente. Ajuda muito também que Max é uma nerdzinha muito relacionável. Eu sei, eu sei, você ergueu uma sobrancelha e bufou "aham, ela deve soltar uma ou duas referencias pops para pagar de nerd", porque foi a exata reação que eu tive quando ela se descreve como nerd da primeira vez.

Mas não, Max menciona (e isso é relevante ao jogo em um ponto) que Holocausto Canibal é um de seus filmes favoritos e que ela acha que Final Fantasy: Spirit Within é uma boa ficção cientifica. Discorde ou concorde com ela, não tem como negar que nenhum "poser" de nerd jamais citaria Final Fantasy: Spirits Within.

MAS E A TAL DA VIDA ESTRANHA?

Fosse só isso, Life is Strange seria apenas um "Nostalgia Simulator" sem nenhum proposito como Gone Home mas então a Dontnod deu um passo afrente e colocou um jogo no seu emulador de feelings. Acontece que Max descobre que ela tem o poder de "rebobinar" o tempo. Nostalgia com viagem no tempo, esse jogo foi feito por gente nerd pra caralho MESMO.

Sei disso porque quando eu era criança sonhava muito em ter esse poder. Não de viajar no tempo, o poder de parar tudo e rebobinar na hora mesmo. Tipo você mandar seu chefe enfiar aquele trabalho extra (ou o professor, na época) lá onde o sol não bate até se satisfazer, então voltar e dar a resposta civilizada. Essa é uma daquelas coisas que a gente imagina que só nós pensamos quando somos crianças mas depois descobre que muita gente pensava isso também (tipo o homenzinho pulando em cima dos prédios que iam passando quando você ficava olhando pela janela em uma viagem de carro).

Max pode não só voltar alguns instantes no tempo como pode carregar objetos com ela quando faz isso. Tipo ela pode roubar a chave de alguém na cara dura, voltar o tempo antes de levar umas porradas, e apenas continuar com a chave em seu bolso. O que era EXATAMENTE o que eu imaginava quando tinha meus 13-14 anos. Foi meio sinistro até.

Na sua narrativa Max começa usando seus poderes para melhorar seu presente e ajudar as pessoas, e no fim dela ela tem que se dobrar em mil apenas para consertar os efeitos colaterais. Então ela volta no tempo para resolver uma coisa, e resolve. Mas isso gera dois outros problemas PIORES. Então ela resolve mais esses dois e surgem 4. E assim uma bola de neve que no fim das contas ela está só pedindo água para que as coisas sejam apenas como estavam no começo. Lembra muito, e isso é positivo, Steins;Gate em seu melhor.

A VIAGEM NO TEMPO É O DE MENOS

Como eu disse, misturar nostalgia com viagem no tempo é uma formula magica para fisgar qualquer nerd. Só que esse nem é o ponto forte do jogo: o jogo é mesmo sobre as pessoas e sobre o quanto a vida é estranha, sombria, confusa.

E isso se reflete nos personagens que são uma das representações mais fieis que eu já vi sobre o que é ser adolescente em qualquer mídia que eu consiga lembrar. Eles são irascíveis, impulsivos, passionais e não fazem sentido exatamente do mesmo jeito que eu e você eramos e não faziamos sentido naquela época. Apenas porque é assim que a vida é.

Por exemplo, quando Max deixou Arcadia Bay cinco anos atrás ela tinha uma melhor amiga de infância. Sabe o seu melhor amigo de infância? A pessoa que você dorme na casa dele, passa a noite acordado fazendo planos idiotas para o futuro ou que apenas fica lá fazendo nada? Max foi embora e nunca mais ligou, escreveu ou qualquer porra que seja para sua amiga por nenhum motivo em particular. Não houve nenhuma tragédia, não teve nenhuma briga épica, não teve nenhum motivo bobo. Ela não fez isso pq é assim que as pessoas são, as pessoas fazem isso, apenas isso. Se fosse um filme com certeza haveria pelo menos um motivo de briguinha bobo, mas não, Life is Strange não tenta jogar essa isca apenas porque Hollywood nos ensinou a esperar isso. Apenas é assim que a vida é.

E esse filtro de qualidade é aplicado a todos os personagens do jogo. Tipo a líder de torcida malvada do colegial que no fundo é uma boa pessoa, bem, ela não é exatamente malvada nem é exatamente uma boa pessoa de verdade. Ela faz muita merda, sim, mas ela é mais confusa e perdida do que boa ou ruim porque vou lhes contar um grande segredo: apenas não é tão simples assim.

A vida não se divide entre pessoas boas ou ruins não importa o que a sua rede social favorita tenha lhe dito. Apenas não é assim que funciona, é tudo baseado em tonalidades de cinza e quando se é adolescente o vidro de tintas ainda esta chacoalhando muito. Mas mesmo os adultos da história são mais complexos do que isso, tipo o traficante vileirinho da história que não hesitaria em te meter uma bala mas ao mesmo tempo é o cara que salvou vários cachorros de uma rinha ilegal, apenas porque ninguém é totalmente bom ou ruim.


AQUI O PROCESSO É LENTO E O SISTEMA É BRUTO

Justamente pelo fato dos personagens importarem e a ambientação ser tão imersiva, as escolhas e as coisas que acontecem com os personagens acabam importante muito. Por exemplo se você pegar qualquer personagem que eu nem lembro o nome de Assassin's Creed IV, pode fazer a pirotecnia que der vontade (tipo pode chover meteoros cavalgados por dinossauros nele) que eu não vou ligar a minima. Agora uma coisa infinitamente menor e mais intimista, como quando a Chloe leva um tapa do padrasto dela, me marcou muito mais.

E isso é algo que os videogames precisam urgentemente aprender: não é o que você conta, é COMO você conta. De modo geral videogames são midias juvenis que não muito a oferecer como narrativa para quem já passou dos 14 anos. Eu ainda lembro da "polemica" que foi quando Call of Duty tinha uma missão que era possível atirar em civis desarmados. Desculpe, mas isso não é maturidade, é só um adolescente pulando e gritando "sou adulto, olha pra mim, sou adulto, olha pra mim!"

E justamente por ter essa ligação com os personagens, Life is Strange é pesado. Muito pesado. Tipo Torchwood pesado. O jogo versa sobre bullying, suicídio, tortura, solidão. Cada final de capitulo é um tapa na cara e olha que eu sou macaco velho de narrativas, não é assim pra me surpreender. Pra você ter ideia o drama de Max ter que lidar com a realidade estar se desfazendo por causa da sua interferência na continuidade do tempo é a menos importante da história.

UMA VERSÃO VERONICA MARS DE DONNIE DARKO

A trama principal da série gira em torno de Max e sua bestie Chloe usando os poderes temporais de Max para investigar o desaparecimento da ex-namorada de Chloe, Rachel Amber. Certo, estou simplificando, elas não eram EXATAMENTE namoradas e Max nunca pressiona muito esse assunto para saber mais em parte porque ela não é tipo de pessoa que perguntaria isso, em parte porque ela tem (implicitamente) ciúme do fantasma da Rachel.

Com efeito a série gasta maior parte da sua energia revolvendo a respeito do mistério sobre o desaparecimento de Rachel Amber e os podres que estão por trás da Academia Blackwell e a cidade de Arcadia Bay e embora se foque as vezes demais nisso, é o que faz a história andar e não deixa o jogo parecer parado.

Ah, caso esteja se perguntando, como pode haver tensão na investigação se Max tem o poder de rebobinar o tempo? Simples: o jogo passa muito bem a sensação de que os poderes dela não são confiáveis. Eles podem simplesmente não funcionar quando você precisar, então não tome como garantido. O jogo não só trabalha muito em te deixar bem claro como isso adiciona uma camada nova de tensão, já que pior que não ter um poder é ter o poder e não poder contar com ele.

NEM TUDO SÃO BANANAS NO MICRO-ONDAS EM ARCADIA BAY

Por todas suas qualidades citadas, Life is Strange tem facilmente diversos momentos que merecem nota 10/10. O problema é que não é sempre assim. Tem horas que parece que claramente a Dontnod ficava sem ideias e alguém dizia "hey, já que é videogame então vamos socar umas coisas de videogame". Então o jogo tem fases de furtividade completamente desnecessárias e várias subquests que só estão lá pra parecer mais com um videogame, tipo a quest enfadonha de coletar 5 garrafas de cerveja. Por um momento eu não sabia se estava jogando Life is Strange ou uma versão de World of Warcraft que não dá XP.

As partes da investigação também não são tão divertidas assim, você meio que leva no piloto automático, mas provavelmente uma das coisas que mais vai ficar na memória das pessoas é que o quinto e ultimo capitulo da série é o mais fraco de todos.

O vilão descamba para o cliché estereotipado de vilão do James Bond que fala demais, a ultima cena (dependendo do final que você escolher) não tem desenvolvimento nenhum - tipo você faz a escolha e vinte segundos depois o jogo acaba sem muita explicação.



Em uma frase que não se diz todo dia, não tem como não dar razão ao Hitler em vários pontos.
(o vídeo contem spoilers)

Mas talvez a parte que mais tenha me incomodado é que os elementos sobrenaturais no jogo não fazem muito sentido. Tudo bem, foi dito mais de uma vez que ninguém teria como saber se os poderes da Max eram de origem divina, científica ou a explicação era aliens. Mas tem várias outras coisas que são importantes para a trama que apenas acontecem sem nenhuma explicação ou pista.

O jogo começa com Max vendo um tornado que vai destruir Arcadia Bay. Eu totalmente entendi que a borboleta é o símbolo do poder de Max de voltar o tempo, donde se aplica aquela famosa frase do efeito borboleta. Mas na pratica eu peguei a correlação, não tem nada que a Max pudesse ter feito no passado que criasse um tornado, ou duas luas no céu, ou animais morrendo, então da onde isso veio?

Tudo bem, essa foi a primeira temporada, talvez o assunto seja abordado nas próximas, mas ainda sim eu me sentiria melhor sabendo que alguém atirou um centavo de pensamento nisso.

Ocasionalmente também dá pra sentir que os personagens se esforçam um pouco demais para parecerem adolescentes, mas eu diria que os diálogos do jogo mais acertam do que erram. Não são perfeitos, no entanto.

E enquanto estamos apontando defeitos, a sincronia labial com a dublagem é inexistente e os cabelos dos personagens são tão duros que eu me sentia assistindo Pingu



Sim, eu passei algumas madrugadas em claro ouvindo Belle & Sebastian (me julgue) e eu diria que poucas coisas resumem melhor o ar indie do jogo de uma forma fofa.

TODAS AS COISAS CONSIDERADAS, A VIDA É ESTRANHA.

Life is Strange é um jogo que me fez rir e chorar - até porque eu me identifiquei com algumas situações pesadas que acontecem durante o jogo - me surpreendeu e o mistério de Rachel Amber é muito bem construído (o jogo te dá pistas para descobrir o culpado durante a história sem jogar isso na sua cara, como um grande mistério deve fazer).

Uma coisa que eu particularmente gosto no jogo é o quanto ele é elegante com as suas escolhas. Enquanto algumas você é avisado que terá consequências posteriormente, para a maioria de pequenas coisas não aparece nenhum popup ou nada do tipo (com certeza nenhum achievment pelo menos na versão de PC) quebrando a imersão do jogo. Trata-se de um design muito clean e elegante, raro nos dias de hoje.

E as escolhas que você faz impactam bastante na sua experiencia de jogo (mas não no final), mas mais do que isso, dirão bastante sobre como você vê a vida de modo geral.Com efeito, algumas escolhas que você faz durante o jogo me fizeram pausar o jogo e refletir por vários minutos antes de poder decidir

O jogo não é tão polido ou organizado como The Walking Dead, por exemplo, e tem muitas coisas que Life is Strange faz errado (como você procura por pistas no quarto das pessoas... enquanto as pessoas estão lá, chorando e você mexendo no facebook delas), mas ainda sim o jogo oferece uma experiência tão única, sentimentos tão verdadeiros que não tem como não relevar as falhas do jogo - que alias é o mesmo que pode ser dito das minhas séries favoritas.

Adicionalmente, uma tentativa de fazer uma narrativa pesada e adulta em uma plataforma (videogames) onde 95% de toda midia é voltada para garotos adolescentes inseguros é algo que sempre merece reconhecimento.

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