segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Hyperdimension Neptunia Re;Birth 1 (ou quando uma critica se torna a própria crítica)

Por não estarem presos as mesmas convenções sociais e formas de pensar que no ocidente, volta e meia os japoneses criam pérolas que podem ser traduzidas apenas pela a vontade de beija-los e soca-los ao mesmo tempo. 

De alguma forma os japoneses tem um dom muito especial em transitar entre a genialidade e a demência mental completa e em muitas vezes isso é bom. Catherine é um jogo sobre um puzzle de escalada que na verdade é sobre assumir (ou não) a responsabilidade de um relacionamento e as consequências da vida adulta. Deve ser alguma coisa que os japas colocam na água.


Então temos uma ideia genial no nível "Palmas e o Tocantins inteiro para esse homem" que é Hyperdimension Neptunia. Mas o que é Hyperdimension Neptunia ? Ora, nada senão um RPG sobre a guerra dos consoles para dominar o reino de Gameindustry.

A história começa quando as deusas que representam três das quatro nações juntam para destruir a quarta e tirando ela da concorrência poder decidir entre elas. Assim as deusas de Laystation (Playstation), Lowee (Wii) e Leanbox (X-Box) se juntam e enchem Neptunia de cascudo até que ela cai no mundo mortal sem memória.

O natimorto Sega Netuno
Qual a grande sacada aqui: Netuno foi um console da SEGA abortado depois do protótipo ser anunciado. Então a história do jogo é sobre como os outro as grandes empresas de games deram um pau na SEGA até ela cair pra fora da história - o que foi mais ou menos o que aconteceu realmente.

O jogo segue as desventuras de Neptune para recuperar suas memórias de que é uma deusa e restabelecer seu domínio sobre Gameindustry, uma jornada repleta de referencias a cultura gamer e quebra da 4a parede. Assim você enfrenta inimigos como Space Invaders e os fantasmas de Pacman, mas também terríveis vilões do mundo gamer como o  terrível Super Otaku. Sério.

Você achou que era brincadeira que tinha um inimigo
chamado Super Otaku?
A versão de PC que eu joguei é na verdade um remake do PS3 (daí o Re; Birth do titulo) e em determinado momento a Neptunia comenta isso: "Hey, eu não lembro dessa dungeon, fizeram alterações nesse remake!". 

Em sua jornada de volta ao seu lugar de direito Neptunia se junta com habitantes comuns de Gameindustry representando as desenvolvedoras de jogos. Originalmente sua equipe é formada por Compa (representando a Compile Heart) e IF (representando a Idea Factory), mas ao longo da sua jornada voce encontra a NISA (representando a NIS of America) e a terrível vilã Arfoire (R4 é o popular cartão de memória que permite piratear jogos no Nintendo DS). 

Logo que você chega na terra de Laystation a primeira coisa que você vê é um grande prédio central steampunk, claramente uma referencia a Final Fantasy VII. Existem dezenas de piadas com os clichés dos videogames e referencias por Neptunia saber que está em um jogo e eu não posso estressar o suficiente o quão divertido isso é.

Agora sabe o que não é divertido? Jogar o jogo.

Naoko Mizuno, a criadora do jogo, não queria apenas fazer uma critica velada a industria de jogos: ela fez uma crítica escancarada a industria de jogos. Como ela fez isso? Ela simplesmente atirou todos os elementos que os otakus japoneses gostam em um jogo de qualquer maneira, sem nenhum tesão, de qualquer jeito porque a industria de jogos sabe que esforço adicional não representa vendas adicionais mesmo.

Então o jogo tem dezenas de dungeons que podem ser rejogadas de várias formas diferentes. Só que são salões vazios e tediosos criados em um gerador automático sem nenhum propósito que senão adicionar artificialmente horas extras ao jogo. Gamers adoram horas extras adicionadas artificialmente ao jogo.

Existe um sistema de customização de personagens enorme... que exige dezenas de horas de jogo para conseguir mudar um laçozinho sequer no pompom da sua personagem. Porque os gamers adoram customização de garotinhas, certo?

A história se arrasta indo a lugar nenhum por horas e horas (porque gamers adoram histórias fracas que se arrastam) com subquests menos importantes ainda.

Assim como um djinn mal intencionado,  Hyperdimension Neptunia pega tudo que os gamers gostam em um jogo e faz uma versão distorcida, preguiçosa e sem esforço dela. Parece que a Naoko apenas fez um checklist de tudo que os gamers acham importante em um jogo e atirou lá de qualquer maneira, porque é o que realmente importa, certo?

E adivinhem só? Ela estava certa.
Hyperdimension Neptunia floresceu em uma franquia que já se esparrama para além de DOZE jogos, incluindo spin-offs e remakes. DOZE jogos (além de manga e anime). Em um jogo que desde o começo deixou bem claro que não estava colocando nenhum esforço em nada, se isso não resume todo cenário de videogames em uma casca de noz então eu não sei mais o que sumarizaria. Depois quando eu digo que videogames são uma mídia adolescente para adolescentes, eu que sou rabugento e chato (não que eu não seja).

Mas claro, obviamente que eu deixei o fator mais importante do sucesso do jogo para o final...

Um dos spin-offs é um idol game.
Porque sim, obviamente.
... A MAGIA DO BOING BOING

Se tem algum crédito a ser dado aqui, tenho que dizer que eles vão as dubladoras americanas do jogo. A dublagem americana é muito melhor do que a japonesa (o jogo tem as duas opções) porque as dubladoras realmente entenderam a proposta da coisa e a abraçaram com gosto: saporra não é séria. Trata-se apenas de qualquer palhaçada feita de qualquer jeito para tirar dinheiro de otakus virgens (pleonasmo), e elas abraçam a proposta da galhofada com vontade.

Porque é um jogo de meninas de 10-12 anos com peitos enormes e que não dão dois passos sem mostrar a calcinha. Porque é um jogo em que duas meninas não tem uma linha de dialogo sem uma implicação lesboerótica.

Considerando tudo isso, é apenas natural que quando a Neptunia pule ela diga com sua voz de gata no cio coisas como "Jumpy!" e "Boing!". Sim, ela efetivamente diz "Boing" quando pula e eu não consigo imaginar algo que sumarize mais esse jogo do que essa cena. Porque Hyperdimension Neptunia é idiota, seus produtores tem plena conciencia disso e sabem que seus consumidores não ligam a minima desde que o checklist de coisas que tem que ter num jogo para nerds otakus esteja marcado.

Trata-se apenas da lei do menor esforço, e ela sabe que isso é exatamente o que vai fazer os nerds otakus comprarem o jogo, comprarem as bonecas do jogo, comprarem travesseiros do jogo, comprarem os DVDs do anime do jogo... porque é assim que as coisas funcionam, essa é a comunidade gamer sob o holofote.

Hyperdimension Neptunia Re;Birth 1 é um péssimo, horrível jogo.
Mas é uma experiência social cínica interessantíssima.


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