domingo, 8 de novembro de 2015

Assassin's Creed 4: Black Flag

VERSÃO CURTA: o melhor jogo de piratas de todos os tempos estragado para se adequar a franquia anual Assassin's Creed

VERSÃO LONGA: Vou dividir a analise em dois jogos diferentes, porque é o que na prática acontece. Existe o Assassin's Creed  2013, e existe o Black Flag.

BLACK FLAG, SEUS CÃES SARNENTOS FILHOS DE PORCAS PRENHAS!

Piratas são bastante populares na cultura pop em geral quase tanto quanto robôs, ninjas, zumbis e dinossauros. Mas ao contrário destes, piratas não são exatamente não tão bem representados quanto poderiam ser. Claro, quando eles acertam vão grande (como Piratas do Caribe e One Piece, que são titãs em seus propositos), mas ocorre menos do que se esperaria. Em videojogos então, eu só consigo lembrar da série Monkey Island e de Pirates (de Sid Meyer).

Implicações morais e práticas deixadas de lado em nome da diversão, não tem como negar que tem um grande charme em navegar pelos oceanos podre de bêbado, comandando os homens mais cruéis e sem princípios da face da Terra apenas com sua macheza, caçar tesouros, cagar para leis tirânicas e mesquinhas, tem muita beleza e charme nisso tudo.

Certamente faltava um jogo que transmitisse essa sensação. E esse jogo é Black Flag.

Com seu navio pirata (o Gralha) e sua trupe de beberrões bucaneiros você controla o pirata Edward Kenway pelos mares do Caribe pilhando, saqueando e caçando aventuras e tesouros. Todas as mecânicas propostas a bordo do Gralha são muito bem executadas (muitas delas aprimoradas de Assassin's Creed 3) e gostosas de se fazer mesmo após muitas horas de jogo.

O combate naval é divertidíssimo, abordar e tomar navios inimigos é simplesmente yaarrr! Após danificar o suficiente um oponente você tem a opção de afunda-lo ou colocar sua espada na boca e se balançar em cordas para o outro barco e toma-lo (para isso você tem que cumprir algumas tarefas pertinentes, pode ser matar X tripulantes para eles se renderem, destruir a bandeira do navio inimigo, assassinar seus oficiais, ou uma combinação desses).

Teve uma vez que eu tinha a missão de afundar um man-o'war britanico. Quando eu encontrei o dito cujo, o mesmo (e sua escolta) estava engalfinhado em uma batalha contra uma frota espanhola. Durante uma tempestade tropical. Eu entrei no meio do furdunço fazendo chover fogo e pólvora, seus patifes piltres. Não obstante uma tromba d'água começou a se aproximar do combate. Foi épico pra caralho, a tempos eu não me divertia tanto jogando videogame.

Isso é Black Flag em sua essência, e é divertido pacas.

Ou então você pode caçar tesouros (e é caçar mesmo, algo raro nos jogos modernos já que o jogo não te dá marcado no mapa o local exato deles) em ilhas tropicais que não deixam nada a dever a nenhum Uncharted da vida, caçar tubarões e baleias (a PETA chegou a reclamar da partes do baleeiro em um jogo que se ambienta no século 18, o que torna muito difícil com que sejamos amigos) pode trabalhar para aprimorar o seu Gralha (gerenciar os recursos é uma atividade a parte), ou apenas navegar pelo oceano. 

"Apenas" navegar é uma das experiências mais legais do jogo porque o jogo é muito bonito (água é algo muito difícil de se reproduzir em videogames, o mais complicado de emular de todos os elementos, e a Ubisoft acertou muito bem), mas o mais legal de tudo é que enquanto você navega sua tripulação canta canções de piratas do século 18. Apenas você, o mar, e o único lar que um pirata conhece: seu navio e sua tripulação. Desde Shadow of the  Colossus viajar pelo mapa era tão gostoso e trazia uma experiência tão única. O jogo é tão feliz em seu clima que mesmo a pavorosa dublagem ruim brasileira acaba acertando porque você ouve coisas bobas que ficam muito adequadas ao clima de piratas cartunescos. 

Por um momento não tem como não querer ser um pirata e gritar com toda a força de seus pulmões "Cada pedacinho de pato ao vento!". Quando você vê no horizonte dois man-o'war emparelhados e sabe que provavelmente seu Gralha não tem equipamento suficiente para enfrenta-los, não tem nada melhor do que abrir todas as velas e partir para a glória ou morte cantando Derby Ram com toda sua vontade (e rum). Voltaremos para casa ricos ou jamais voltaremos, macacos-do-mar infernais!



Ou então após a dramática e sangrenta morte do Barba Negra (não é spoiler, abra um livro de história pelo amor da TARDIS) nada complementa melhor o clima do que navegar no silencio da noite caribenha tendo como guia apenas o luar refletindo na água e sua tripulação cantando Lowlands Away. Dá pra sentir em seus ossos o vazio de homens que não tem absolutamente nada neste mundo.

Eu não canso de repetir do quanto uma trilha sonora tem o poder de carregar ou afundar uma obra, e a de Black Flag não deixa nada a dever.


A mecânica, o espírito da coisa estavam no ponto para ser um dos maiores e mais memoráveis jogos de todos os tempos. Não fosse o fato que a Ubisoft dilacerou pedaço por pedaço para transformar apenas em um prato sem graça de sua franquia anual pois antes de ser Black Flag, o jogo primeiro é...

... ASSASSIN'S CREED IV

Assassin's Creed é uma das grandes franquias de nossos tempos e uma com uma premissa bastante criativa: desde o inicio dos tempos Templários e Assassinos lutam secretamente por legados de uma antiga e avançada civilização perdida para controlar o mundo (cada qual acreditando que o seu lado é o mocinho em defesa da humanidade e os outros são vilões). Como sabemos disso? Porque revivemos as memórias dos antepassados de Desmond Miles através de uma tecnologia que permite transformar seu DNA em um cenário interativo. Não pergunte, apenas aceite.

Essa cena é quase do final do jogo, e foi só nesse ponto que eu
entendi que esses deveriam ser grandes amigos do Kenway, embora
em nenhum momento o jogo passou essa sensação
Desmond é descendente de uma linhagem particularmente longa de Assassinos e através de suas memórias vivemos as aventuras de Altaïr Ibn-La’Ahad durante a época das cruzadas, Ezio Auditore de Firenze durante a renascença italiana e Connor Kenway durante a independência dos Estados Unidos. O problema é que claramente foi pensado para ser uma trilogia acabou se tornando em um cadáver morto vivo voltando da tumba ano a ano sem desejar ir a lugar algum.

Assassin's Creed 4 é na verdade o sétimo jogo da série em seis anos (atualmente estamos no décimo, com o lançamento de Assassin's Creed Syndicate em 2015) e isso contando apenas a série principal, porque temos jogos para celular, livros e um filme a caminho.

E a cada momento o jogo se esforça para te tirar da imersão de ser um pirata e te lembrar que você está numa franquia anual. Não é o almoço de domingo da sua mãe, você está no Mcdonnalds. Parece ser muito importante para o jogo te lembrar isso sempre que pode. Sempre.

Alias porque mesmo a Anne Bonnet virou uma personagem
de anime com voz de garotinha de 14 anos?
Ah sim, videogames...
Ao final de Assassin's Creed 3, Desmond morre e o ciclo se encerra. Sabe como a Ubisoft fez para continuar tirando leite dessa vaca? Nem ela sabe. Apenas jogou muito preguiçosamente qualquer coisa sobre você ser um empregado aleatório da Abstergo (a face moderna dos Templários) trabalhando no novo jogo de realidade virtual deles. Tem alguma coisa sobre um fiapo de trama que eles querem que você ache importante mas simplesmente não se importaram o bastante. Ou minimamente.

Então sim, de tempos em tempos o jogo te tira do animus e você dá umas voltas no escritório da Abstergo para senão outro propósito do que justificar o titulo "Assassin's Creed". Foi feito com tanta vontade que as motivações da Iris West no Flash parece Dostoievski.

Mas ok, as partes que você é interrompido do jogo para uma trama a qual ninguém poderia se importar menos até são curtas. O problema é o quanto de Assassin's Creed vaza para dentro de Black Flag. Trata-se de uma batalha para justificar o carimbo da franquia, no qual a diversão é a maior vitima.


Nada para ver aqui, apenas o arrebatamento rolando.
Circulando, circulando...

Edward Kenway (avô de Connor de AC3) é um marinheiro fracassado que por motivo nenhum é melhor que todos templários e assassinos juntos. Mesmo, o jogo sequer tenta explicar isso, sendo um marinheiro medíocre ele apenas é mais foda que qualquer assassino sem ter recebido nenhum treinamento ou ter motivo para isso.

As aventuras de nosso herói picaroso começam quando seu navio de merda afunda e ele acaba como sobrevivente em uma ilha com um dos passageiros que acontecia de ser um assassino se bandeando para o lado dos templários. Como Ed é muito foda, ele mata o cara apenas porque sim e resolve se passar por ele para tirar uma grana dos templários. O plano dá certo até certo ponto (até porque ele é mais foda que qualquer assassino ever), mas aí do nada por motivo nenhum os templários descobrem a fraude e resolvem... deixa-lo preso para ele escapar de uma forma muito idiota.

Kenwar toma para si o barco que o transportava como prisioneiro - o Gralha - numa cena que não faz sentido nenhum e toca o foda-se para tudo, pilhando e saqueando enquanto templários e assassinos poderiam explodir suas bundas até onde lhe interessasse. Ok, eu posso respeitar isso, de verdade.

Mas aí Kenway mete na cabeça que ele tem que achar o tesouro que esta gerando a treta entre templários e assassinos naquela região, o Observatório, para ficar rico. Ok, ainda seria uma boa trama de jogo de piratas, não fosse que isso é feito com a sutileza de um elefante com os testiculos imersos em ácido.

Eu vi vindo de longe a trama de que Edward aprenderia valores humanos, liberdade e tal, deixaria de ser um filho da puta egoísta e viraria um herói assassino. O que eu não imaginava é que a Ubisoft escreveria isso com tanta falta de vontade e apenas nos últimos 15% do jogo com uma qualidade narrativa que deixaria Malhação impressionada. Apenas apertaram um botão e catapimba, virou um homem com consciência matando "justamente" "caras maus" dos quais você não poderia se importar menos por motivos que você não poderia cagar mais.

Antes disso Kenway ajuda os assassinos mas por motivos tão porcos que você fica se perguntando como alguém pode ter sido pago para escrever isso em primeiro lugar. Por exemplo, Kenway instalou sua base na antiga residência de um templário lá e tem uma armadura que ele quer atrás de uma grade vagabunda de meia polegada. Para isso abrir a grade ele precisa de chaves obtidas assassinando templários em todo o Caribe e por isso ajuda os assassinos, por causa das tais das chaves.

Ou ele poderia simplesmente arrombar aquela gradezinha vagabunda e pegar o que ele quer, e que é o que o personagem totalmente faria se não fosse uma necessidade de plot device ali. E tudo é feito assim, sem vontade, sem tesão, sem lógica, apenas porque tanto faz mesmo.

Porque fazer direito alguém jogando
um jogo dentro de um jogo
era trabalho demais para a Ubisoft
Como a disputa entre assassinos é templários é focada na liberdade individual x o bem geral, acabam vazando discursos filosóficos de boteco para os personagens. Imagine os piratas mais sanguinários da fantasia como Barba Negra, James Kidd e Anne Bonny parando o que estão fazendo para soltar discursinhos que voce veria compartilhados no Facebook apenas porque é a agenda política da franquia.

Nem estou dizendo que era o caso de não ser realistas (eu não poderia cagar mais para a história real nesse caso), estou dizendo que é tão mal feito que dá pra ver claramente a hora que apertam o botão e eles mudam 100% para se adequar a necessidade narrativa. Isso se chama "Dissonancia Ludonarrativa", que é uma forma chique de dizer que os videogames cagam inteiramente para o jogo na hora das cutscenes e retratam outros personagens, como se estivesse contando outra história.

Tipo sabe Uncharted que é um jogo legal sobre um cara bacana e gente boa ... mas que entre uma cutscene e outra mata mais gente do que a febre amarela sem nenhum resquício de remorso. Então, AC4 dá uma aula de dissonancia ludonarrativa e isso é escrita ruim em tutorial. Tudo que é dito parece deslocado, brega e chato, como se fosse escrito para outro cenário e socado aqui a força. Mas olha só, é uma franquia, foi exatamente o que aconteceu.

SHUT THE FUCK UP!

Certo, eu poderia simplesmente ignorar as cutscenes. Empobrece muito a experiência (nada é legal apenas flutuando no vácuo), mas pode ser feito. Só o que vazamento de merda da franquia em cima de Black Flag vai além disso. O jogo é atulhado de missões de furtividade e tediosas missões de escuta apenas porque "hey, é assassin's creed!". Foda-se! Foda-se isso! Eu quero ser um pirata, eu quero chutar bundas e entrar no deck com uma pistola na mão, não seguir um fulano aleatório escondido por quinze minutos para ouvir uma conversa que não me importa para saber a localização de uma pessoa que eu não ligo afim de fazer algo com o qual eu não vejo razão.

Metade do jogo a Ubisoft apenas ligou o gerador aleatório de missões (embora o design das cidades seja muito otimizado para o parkour) como se o Kenway fosse apenas outro assassino e estamos de boa? Não, não estamos. Eu estou jogando o mesmo jogo desde Assassin's Creed 2 e a Ubisoft sequer se importa em tentar esconder isso.

Um dia eu entenderei a utilidade do dardo de corda
mas esse dia não será hoje


Ao mesmo tempo o jogo se preocupa demais em nunca contrariar o jogador como se fosse uma criança mimada. Tipo em determinado momento do jogo Kenway perde seu navio, o que isso impacta no gameplay? Nada, basicamente o jogo diz "ok, aconteceu isso na cutscene, mas vamos ignorar isso para não atrapalhar seu joguinho". Sério, eu sei que o publico alvo dos videogames é uma molecada que nunca recebeu um não na vida, mas habilitar o god mode no jogo não é a solução também. Você sempre pode tudo que quiser na hora que quiser, o jogo nunca te diz não e em nenhum momento você se sente desafiado quando realizando as missões do jogo.

Não obstante ao final de cada missão o jogo te dá uma tela de avaliação da missão porque a Ubisoft quer um feedback para saber o que colocar nos próximos jogos da franquia.

Lindo, mas precisa fazer isso no meio do jogo? Imagina se a cada meia hora a Marvel botasse um teste para voce dar um feedback achando o que achou e moldar o proximo filme da série (o que praticamente define Vingadores 2). Puta merda, eu já sei que pra vocês isso não é uma obra com qualquer propósito, mas assim não tem suspensão da descrença que de jeito.


Quer fazer com que seja só um joguinho de piratas então me de um jogo de piratas completo e não me encha o saco com coisas que vocês não se importam mais e (talvez justamente por isso) ninguém se importa mais.

Exceto esse. Eu jogaria esse AC.
Por razões.
Quer fazer uma narrativa interessante então faça a porra da história e do universo interessante, então façam isso e não uma campanha single player inchada e reciclada apenas porque é assim que as coisas são.

Mas não essa farofa sem alma de trocentas horas de itens colecionáveis, crafting sem propósito, minigames aleatórios e qualquer coisa que der na telha (qualquer uma mesmo, as missões do navio de AC 3 são a coisa mais aleatória possível) apenas porque "é assim que Assassins Creed é".
 O fato da parte da pirataria que não envolve o script de missões ser tão boa só realça o quão ruim e desgastada a formula de Assassin's Creed é. Pra mim deu, eu realmente desisti dessa série. Um dia Assassin's Creed foi importante, hoje é apenas uma aula de U$60,00 todo ano sobre tudo que há de errado com os videogames.
O único sentido dessa série é arrancar seu dinheiro todo ano com o mínimo esforço possível. E a Ubisoft sequer tenta mais disfarçar isso (como pode ser visto na resenha do AC 2014)

Boa sorte pra quem continua, porque vai precisar.

Ah Dick Moe! Dick Moe!
(não, sério, eu me senti mal caçando baleias, elas são super gente fina)








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